parto da Sofia, meu renascimento, cercado de mulheres: a parteira Vilma Nishi, a médica Adeli Ferreira, minha enteada Maria e Sofia mamando no meu seio.

parto da Sofia, meu renascimento, cercado de mulheres: a parteira Vilma Nishi, a médica Adeli Ferreira, minha enteada Maria e Sofia mamando no meu seio.

 

Nesses primeiros dias de agosto, em 2013, ocorreram três eventos que, para mim, foram pra lá de especial: minha filha Sofia completou 7 anos dia 04/08, estive na pré estreia do filme “O Renascimento do Parto” dia 06/08 e ontem, dia 07/08, a Lei Maria da Penha completou a mesma idade da minha filha – 7 anos.

Dois grandes motivos para comemorar, um grande motivo para lamentar.

Comemoro o início do segundo setênio da vida da Sofia, cujo nome precisamente escolhido pela irmã mais velha, significa sabedoria. Essa pequena mudou minha vida, meus conceitos e minha história. Não poderia ter passado pela vida sem a experiência de ser mãe da Sofia. Foi minha filha quem me trouxe o aprendizado profundo da maternidade, em suas alegrias e suas sombras. Foi com minha filha que percebi o quanto a busca pela autonomia feminina estava muito além de um bom salário no final do mês e das contas pagas por mim. Com a maternidade eu percebi que a busca pelo feminino e pela autonomia estavam ligadas à compreensão do coletivo e dos conceitos patriarcais culturamente arraigados na sociedade e que, em prol de conquistar minha autonomia, eu teria que revirar, estudar e rebuscar isso internamente, trazer para o externo e mudar a realidade. É o que tenho feito nos últimos sete anos.

(pausa dessa comemoração).

Comemoro com os olhos molhados de lágrimas a estreia do filme “O Renascimento do Parto”. Já escrevi sobre o filme uma vez aqui. Mas, quando escrevi, ainda não havia nenhuma previsão para o lançamento do filme e nem como isso iria se daria. E aconteceu pela ação e união do movimento ativista que, através de crowdfunding (plataforma de financiamento coletivo e colaborativo) do pessoal do Benfeitoria, foi recorde de financiamento coletivo no Brasil alcançando a primeira meta em 3 dias (R$ 65.000,00) e a segunda em 7 dias (R$ 110.000,00). Eu já vi esse filme três vezes. Chorei em todas. Saí das sessões modificada e tocada. O filme fala sobre o sistema obstétrico no Brasil. Mas ele fala muito da violência contra a mulher. A violência através do poderio que o médico se investe para determinar como a mulher tem que parir. Da violência com que pessoas imbuídas de machismo e de interesses puramente financeiros atribuem à mulher um defeito – mentiroso e sem comprovação – que a impediu de parir: bacia estreita, incapacidade de dilatar, incapacidade de entrar em trabalho de parto, risco de colocar o filho em sofrimento fetal. Ou seja, esse sistema obstétrico que transforma a mulher numa incapaz de ser mulher e transforma o seu ventre em útero assassino que pode matar sua cria na hora do parto. Isso tudo para mim é uma violência severa. E, a chegada desse filme ao país, nas salas de cinema e posteriormente em DVDs que chegarão a cada cidade, às unidades de saúde, aos grupos de mulheres e também os de gestantes – e eu trabalharei ativamente para que isso aconteça – é um motivo de grande comemoração porque eu sei que quem assistir a esse filme vai refletir, vai questionar e isso mudará a realidade em que vivemos. E por isso eu vibro.

(pausa outra vez)

E uma terceira data eu lamento seriamente. A Lei Maria da Penha completou ontem, 07/08, 7 anos de vigência. Eu lamento do fundo da minha alma que tenha que existir uma lei para defender a igualdade para as mulheres e buscar colocá-las a salvo de diversas violências das quais somos vítimas a cada dia, a cada hora, a cada minuto. Lamento que exista uma lei para obrigar o cumprimento do que é básico, do que já está na Constituição, do que já está no Código Penal. É tão absurda a violência contra as mulheres que existem, num único sistema jurídico, diversas leis e penalidades para a mesma questão: a violência contra a mulher.

Eu choro por uma sociedade onde uma lei dessas se faz tão necessária. Mas, outra vez eu lamento.

Ainda que a Lei Maria da Penha exista de uma forma tão forte e abrangente para a proteção das mulheres, a sua efetividade não existe. E justiça, para mim, não é a que está no papel. Justiça, a meu ver, é aquela que cumpre a sua efetividade, a aplicabilidade da lei, um sistema que seja funcional. E a Lei Maria da Penha não é. Antes que pareça polêmico, eu explico: a Lei é linda, brilhante, mas não temos no nosso país polícia, Estado e Poder Judiciário preparados para cumpri-la de fato.

Todos os dias vejo nos noticiários mulheres assassinadas por motivos fúteis, e muitas delas já haviam registrado Boletim de Ocorrência de agressão/ameaça e pedindo proteção que nunca ocorreu; todos os dias leio notícias de mulheres assediadas e humilhadas no ambiente profissional e se denunciarem são demitidas; todos os dias vejo notícias de mulheres violadas no seu corpo através de estupros, de violência obstétrica, de abuso médico, de sequelas de abortos mal feitos; todos os dias eu escuto mulheres vítimas de violência moral e financeira e que NUNCA NENHUMA DELAS conseguiu que sua denúncia fosse apurada ou efetivada. Essas mulheres que eu cito acima não são personagens do noticiário. Elas são reais. Eu conheço muitas delas. Toda semana alguma gestante ou parturiente me procura pedindo auxílio contra uma violência sofrida. E a Lei Maria da Penha está aí. Mas o Estado, o Poder Judiciário e a Polícia pouco fazem para que ela se cumpra.

A autonomia da mulher

E o que a Sofia, o filme “O Renascimento do Parto” e a Lei Maria da Penha trazem de comum em si? Para mim, elas representam a busca pela autonomia da mulher. A autonomia que, muitas vezes (mas não somente), começa a nascer pela maternidade, pelo encontro com o feminino, pelo parto digno, pela autonomia da mulher no parto, através da plenitude da sexualidade da mulher. A autonomia da mulher que virá quando não mais seremos vítimas da violência pelo gênero; quando pudermos parir como desejarmos; quando não mais seremos vítimas de violência obstétricas com as vaginas cortadas para facilitar o trabalho de um imbecil que não foi estudar corretamente; quando não mais seremos vítimas de violência moral e financeira de companheiros tiranos, machistas e inseguros que precisam dominar a mulher tamanha sua incapacidade de se tornar um indivíduo digno; quando não mais seremos vítimas de alienação parental e o nosso direito ao exercício pleno da maternidade estiver garantido, e quando nós mulheres tivermos a garantia da efetividade de uma Lei que nos proteja.

Já bem dizia Saramago: “Queremos um direito que nos respeite, e uma Justiça que se cumpra”.

Eu dedico esse texto a mulheres queridas, por quem eu choro, vítimas dessa violência absurda, e contra qual eu trabalharei todos os dias. Às Penhas, às Elaines Cesár, às Adrianas, às Raquéis, às Ritas, às Lyietes, às Marias, às Anas, às Gabrielas, às Lucianas, às Carolinas, às Vivianes, às Sílvias, às Flávias, às Cidas, e às mulheres que eu espero um dia tenham uma vida sem violência.

Obrigada Sofia, minha filha, por me trazer sabedoria e me incitar a me tornar uma pessoa melhor a cada dia.

 

 


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