Me diziam que tudo ia ficar ok, mas nunca ficava. Eu via a vida passando pela janela, numa luta constante entre o que eu devia e o que queria fazer, escolhendo sempre a primeira opção para que a sua infância fosse melhor que a minha. E olha, não tive a pior infância do mundo, por mais que assim tenha me soado por muito, muito tempo. E todo esse esforço para não sair da linha não era só por amor, era por algo que vinha lá de fora, muito diferente da nossa relação tão tranquila e sem grandes atritos. Foi só depois de dar muito murro em ponta de faca que eu percebi que o que havia de errado comigo era simplesmente estar em um contexto xyz, eu estava em vários daqueles adjetivos bem clichês por você ter nascido no auge dos meus 18 anos. Além de mãe, vieram outros adjetivos pros quais eu não estava muito preparada para ouvir e ler: solteira, oferecida, louca, chiliquenta, escandalosa, interesseira e mais um punhado deles que foram desferidos contra mim enquanto eu tentava gritar pro mundo “ei, eu to dando o melhor de mim! Por que não podem me dar uma folga?”. E é claro que não me deram: porque mãe é mãe. Mas mãe quebra, mãe tem que cuidar da pressão, da saúde e da mente também.

 

Quando eu percebi que eu não era o problema, mas sim a solução de tudo é que as coisas ficaram mais bonitas: quando você entender o que é um “foda-se”, vai entender que a sua mãe teve que gritar isso bem alto pro mundo, pra todo mundo ouvir, pra todo mundo ver que aquela situação era surreal pra mim. Não ser sua mãe, ser sua mãe me completa e me faz extremamente feliz. Digo desse tanto de dedo que não faltou pra me apontar e me listar o que me desqualificava como mãe e pessoa. Preferi engolir o ar e tentei fingir que isso não me atingia. Mas atingia. E era uma dor tão grande, que parei de cuidar de mim. Eu sabia seus horários, suas necessidades e atendia as suas demandas, mas parei de me ver como um ser humano digno de respeito, porque o respeito não tava lá, eu não via. E realmente faltava um bocado de respeito. “Ah, mas agora aguenta” era o mais fácil de ouvir. Difícil era pedir ajuda e ser taxada como um bilhão de adjetivos e até de vingativa, quando eu só queria dividir responsabilidades.

 

Eu pirei por um tempo, mas nunca me esqueci de você. Esqueci como eram meus olhos, me desfiz da minha imagem em prol de tentar atingir um nível de perfeição que todos exigem quando se está um pouco mais vulnerável. Alguns te encorajam a ser forte e outros exigem e questionam mais de você. E isso acontece até mesmo quando você está se desfazendo e tendo sua sanidade e controle emocional sugados pelo ralo. Aí o ar ficou pesado, eu só via você e fui me esquecendo pouco a pouco como era ser eu. Quando você não estava perto, absolutamente nada fazia sentido. Meu médico me explicou o motivo e me tranquilizou em relação a isso, mas eu me perdi no meio do caminho e queria te pedir desculpas, pois falhei na missão de ser a mãe que conseguiria alcançar todos os corações dizendo “ei, eu valho alguma coisa”. Só não me arrependo, porque sei que há corações duros demais para entenderem que amor é uma coisa séria e não deve ser tratada como qualquer assunto de pauta irrelevante. Eu quis ser a melhor mãe do mundo, mas ofereço apenas o que você já tem: a minha essência, a minha vontade, a minha presença e todo o meu esforço para te criar em um meio que muitas vezes é ríspido comigo pelo simples fato de não ter tido uma vida linear: me formado aos 21, casado aos 25, tido um filho um pouco mais tarde. Não fiz nada disso.

 

Aprendi com a minha própria trajetória que não é uma vida linear que faz as pessoas mais ou menos felizes. O que faz isso é a forma como as pessoas decidem encarar a sua realidade. O que eu fiz foi abraçar a nossa, dar o grito de foda-se e dar um jeitinho de ir achando a felicidade nos lugarzinhos mais escondidos do dia-a-dia (que eu jamais acharia sem a sua atenta supervisão). Obrigada por fazer de mim uma mulher melhor. Da sua mãe que te ama – comprovadamente – acima de qualquer esquecimento e enlouquecimento.

 

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