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Não foi apenas uma vez que acompanhei como doula uma mulher saudável, com uma gestação de risco habitual, que dizia querer parir, me contratou, fez plano de parto, porém não teve um parto normal, sequer entrou em trabalho de parto.  O que pode ter acontecido para este desfecho diferente do planejado?

Doulas são personagens presentes há muitos anos no cenário de nascimento, sendo mulheres treinadas por outras mais experientes ou com experiência própria (mães que viveram o parto normal) para acompanhar outras mulheres durante seus partos, porém sem função técnica como as parteiras. Se na antiguidade nossa tarefa se resumia a dar apoio emocional (reforçando a capacidade da mulher de dar à luz naturalmente) e físico (sugerindo posições que facilitem a saída do bebê e reduzam o desconforto da mãe) somente no momento do parto vaginal, atualmente temos a função adicional de oferecer suporte informacional, seja derrubando mitos, seja aumentando a confiança, seja ajudando a elaborar o plano de parto ou mesmo apresentando equipes e instituições que se afinem com os desejos da mulher. Ter uma doula melhora os resultados por isso, mas todos os passos precisam ser seguidos!

A delicada função de escolher uma equipe passa pela necessidade de avaliar as condutas profissionais e protocolares, não apenas a simpatia e confiabilidade do prestador de serviço (que deveria ser o mínimo desejável). Se considerarmos a realidade brasileira (52% de cesarianas, sendo mais de 80% dos primogênitos nascidos desta forma, além de uma média de apenas 7% das mulheres entrando em trabalho de parto e uma média de espera durante o trabalho de parto em ambiente hospitalar (por parte dos médicos) de apenas 4h (quando nosso corpo precisa de cerca de 12 para um primeiro parto) a busca se torna um verdadeiro garimpo.

Mas isto ainda não basta , é preciso ir além nas demandas à assistência para conseguir uma experiência de parto satisfatória: pedir para evitar intervenções por simples protocolo, intervindo somente se necessário,  e um pós parto seguro (também sem intervenções desnecessárias e privilegiando o contato do bebê com sua mãe). Afinal não basta ser vaginal, o parto precisa ser bom!

Quando os objetivos estão desencontrados, ou seja, a mulher pensa no parto normal, o marido acha que tudo é “frescura”, “bobagem” ou mesmo que “tanto faz” e o médico é conhecido por não atender partos espontâneos não adianta muito a doula oferecer alternativas e estar ao lado da mulher no momento do nascimento pois não poderá atuar plenamente. É bastante importante estarem todos alinhados! A mulher decidida busca informações corretas (científicas) e leva para o marido ler, e juntos eles procuram uma assistência que feche com os desejos e possibilidades deles (aqui entram a disponibilidade geográfica de equipes, a disponibilidade do casal de viajar para as capitais se necessário, ou mesmo a possibilidade de contratar das capitais para as cidades do interior as enfermeiras obstetras que atendem em casa).

Dadas as opções é tarefa da família traçar os planos para a concretização. Com uma equipe favorável nós doulas seremos novamente aquelas que servem a parturiente, deixando a família à vontade para viver o nascimento.

Apesar de tudo nós doulas somos otimistas, acreditamos na capacidade das mulheres, na perfeição do processo de parir e nascer, e por vezes aceitamos atender famílias com tudo planejado “ao contrário”: marido que não apoia, médico com altas taxas de cesariana e protocolos duvidosos, em hospitais sem política de humanização em que tudo o que oferecemos à mulher para tornar seu processo privativo, íntimo, respeitoso é visto com maus olhos. Pode dar certo. Pode ser “meio” satisfatório. Pode sair tudo ao contrário do planejado!

Isto por quê o parto natural seguro se apoia em quatro pilares: desejo, espera, confiança e monitoramento. Se o médico não não tem condutas baseadas em evidências visualiza o plano de parto como uma lista de pedidos absurdos e sem evidências de melhoria perinatais, além de ter limites menos flexíveis, aquém das recomendações científicas, por exemplo, em casos como bebê que passa de 40 semanas, bolsa rota com ou sem trabalho de parto, trabalho de parto pretensamente prolongado. O marido que não está informado ou que não apoia integralmente aceita as intervenções que se justificariam, no tenso momento do nascimento, como sendo salvadoras da vida de seu bebê ou esposa. A mulher com este entorno se fragiliza acaba tendo uma cesárea desnecessária ou um parto instrumental totalmente evitável em outro contexto.

Essas práticas são tão amplamente vivenciadas, infelizmente, que por vezes a mulher sequer percebe as violências das quais foi vítima, já que se identifica com o que muitas outras passaram, banalizando a sua perda de autonomia.

E como fica a doula nesse cenário? Torna-se mera expectadora de um processo passivo, que priva da mulher o êxtase de sua gestação, que sofre como se tudo ocorresse em sua própria pele, abdome e períneo, como se o bebê solitário no berçário fosse dela própria. A doula sabe o que todos perdem quando o parto natural se perde sem evidente necessidade.

Corre socialmente um mito de que a boa mãe se sacrifica desde o nascimento dos filhos, e que o importante é a vida de ambos preservada, pretensamente justificando as violências. Gostaria que um novo paradigma fosse instaurado no qual toda mulher pudesse viver seus partos mais do que segura e respeitosamente: prazerosamente, afinal queremos tudo: o parto merecido e o filho são nos braços!


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