Conheci Karen, em 2011, em um Chá de Bençãos que organizei aqui em casa. Seus planos não pareciam os melhores: uma médica desconhecida que parecia ser  “adepta” do Parto Natural mas que as ativistas nunca ouviram falar. A tal médica só atendia em um  conhecido por essas terras Mineiras como Vila da Cesa, devido as suas elevadas taxas de cesarianas marcadas e desnecessárias.

Karen estava com pressão alta e a segurança baixa. Eu também tinha pouca experiência como doula. Aceitei acompanha-la com todo amor do meu coração.

Depois de episódios de sangramentos e coágulos nas últimas semanas, em uma noite fria de Agosto, ela entrou em trabalho de parto.

Chegamos à maternidade e ela estava apenas 3 cm. Procurei convence-la a esperar mais contrações e dilatação em casa. Mas o medo era maior. Ela não se sentia segura.

Ficamos em um quarto confortável e a médica parecia bem tranquila. Usamos chuveiro, bola e a médica  chegou pela manha. Karen estava com 5 cm.

Caminhamos, agachamos, subimos e descemos escadas. Quando as contrações ficaram fortes, Karen pediu anestesia. Foi aí que o sistema entrou com força na cena de parto.

Eu, o marido e a mãe de Karen ficamos do lado de fora do bloco, por muitas horas. Ela ali dentro, sozinha.

Depois de muito chamar e insistir, encontrei a médica que me levou até Karen que estava  em uma sala divida de cortinas, com as pernas absolutamente anestesiadas.

Foi então que a médica Humanizada #sóquenão disse: vou leva-la para cesárea.

O marido entrou e do lado de fora eu chorava: sentia que uma mulher tinha sido roubada de sua voz, de seu parto, de seu filho. Ela estava com 9cm.

Lá no bloco o anestesista resolveu convencer a médica a tentar um parto normal: Kristeller, episiotomia, chegou ao mundo Elias, o bebê rosa que a mãe não pode ver, segurar, amamentar.

Levado para o berçário, tiraram o cheiro doce do vernix e levaram, sobretudo, o primeiro contato.

Ele e ela se encontraram muitas horas depois do parto.

Esse parto me doía na alma. Porque podia ter sido tudo diferente. Mas não se pode julgar a vida com olhos do futuro. Como canta Elis: “e o que foi feito é preciso conhecer para melhor prosseguir”.

Grávida novamente ela fez outras escolhas: contratou uma equipe privada de parto humanizado.

Virou atleta: começou a correr, a se alimentar melhor.

Lá no finalzinho, como no primeiro filho, nos reencontramos e ela me convidou para acompanha-la novamente.

Que felicidade é poder acompanhar o nascimento do segundinho.

Novamente organizei um emocionante chá de bênçãos para ela.

Neste evento eu descrevo, em uma meditação guiada, como poderia ser um nascimento natural, com todas as etapas até terminar quando o amor se concretiza: olhos nos olhos e o mundo pára de amor. Mas nem nas melhores descrições meditativas poderia imaginar um parto tão perfeito. IMG_4534

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No dia 01 de junho de 2014, por volta das 18h Karen sentiu sua bolsa estourando. Ela me ligou num misto de medo e alegria. E juntas comemoramos: chegou o dia de conhecer o bebê. Ela optou por não saber o sexo e descobrir na hora.

Com um pouco de mecônio fluido, foto enviada pelo facebook, ela ficou em casa. As contrações já estavam próximas e ela acionou o médico da equipe do Instituto Nascer, Dr. Hemmerson Magioni.

Ele preparou o quarto com banheira e luz azul para recebe-la.

Cheguei algumas horas depois e encontrei uma mulher inteira, com a pressão equilibrada e a confiança nas alturas. Respirando entre as contrações, amparada por seu marido, acolhida por sua mãe e massageada por essa doula.

IMG_5406 Por volta das 21h45 o primeiro toque: 6cm. O médico me chamou lá fora e disse que o bebê estava um pouco alto e em um posicionamento da cabeça não muito favorável: Temos que fazer de tudo para que ela não tenha anestesia.

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Com o médico parteiro Hemerson

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Nós gostamos de parir

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E para parir mais que anestesia, precisamos de incentivo, apoio e confiança

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IMG_5442 Já tinha convidado para que entrasse na banheira, embora ela dizia que não se via parindo lá. As 22h15 ela entrou na banheira e começou a sentir contrações muito fortes e dizer: meu nenê está nascendo! Mas como?! Eu pensava. Não faz uma hora que estava com 6cm? IMG_5448 Mais algumas contrações e já conseguimos ver a cabeça do bebê saindo. Foi então que convidei Karen: sente seu bebê! E o sorriso diz TUDO: ela estava a poucas contrações de realizar seu sonho. IMG_5458 Conduzindo o bebê para seu colo, ela pariu, as 22h45 duas crianças e uma mulher do tamanho do mundo com seu sonho realizado. Abraçou, cheirou, lambeu e curtiu sua cria parida em um parto dos sonhos. IMG_5468

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IMG_5520 Ela estava tão feliz em poder apenas abraçar seu filho, conhece-lo e toca-lo. Quantas mulheres são roubadas deste momento e por medo, falta de informação deixam de viver essa hora marcante? Talvez não saibam o que significa de fato por não poderem viver. Mas n~åo a cheiro mais inesquecível que o de vernix. Sensação mais deliciosa que aquele corpo quente no seu. E amor mais imensurável do que ser olhada pela primeira vez nos olhos por aquele que você esperou tanto para conhecer. Como canta a Isadora Canto: É como se eu tivesse esperado toda a vida pra te encontrar e te embalar.

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IMG_5546 A todo momento ela gritava: ai que delícia isso tudo. Ai que delícia meu filhinho!

Quando ela se consultou com o Dr Hemmerson pela primeira vez ela pediu: eu quero um partaço.

E ela concluiu: nem nos meus melhores sonhos podia imaginar um parto assim, tão perfeito!

IMG_5595 Eu também lavei minha alma! Eu abracei a mãe de Karen, a quem no outro parto ficamos muito tempo abraçadas chorando de tristeza, porque pensávamos que a cesárea seria feita. Mas chorava sobretudo porque o sistema havia roubado de outra mulher a capacidade dela de fazer por si mesma.

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Foto de Hemmerson Magioni

Mas agora a gente se abraçava de alegria. A minha alegria não tem tamanho de ver uma mulher parindo com tanta dignidade, força e dentro do sistema, em uma maternidade com mais de 70% de cesáreas e a grande parte delas, eletiva. A alegria de ver o trabalho de um médico parteiro. De uma família se reencontrar com o cimento de amor e alegria.

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Bebês nascem e nós sabemos parir. A dança da vontade do bebê em nascer e do nosso corpo é perfeita. É preciso paz, confiança, um ambiente acolhedor. É preciso de evidência científica para intervir quanto necessário e assistir ao espetáculo da vida sem nada fazer a não ser sorrir e dizer: é, tudo é perfeito.

IMG_5655 Karen não pode amamentar seu primeiro filho. E esse bebê, um menino chamado Benjamim, que pesou 3475 e com 51,5cm, foi amamentado no instante que nasceu. IMG_5656E o milagre da vida aconteceu. Desejo que todas as mulheres lutem para que seus partos não se tornem cenas de violência. Que seus bebês sejam amamentados, fiquem no colo de suas mães, que sejam tocados com respeito. Que mulheres não deixem que roubem tudo isso. Que conheçam e possam fazer a diferença. Que não acreditem em médicos bonzinhos.

Parir ainda no Brasil é sinônimo de lutar. Espero que nossos filhos e netos possam saborear o fruto desta semente que plantamos e que parir seja simplesmente deixar acontecer naturalmente.


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