prematuro

Há quem diga que um feto não é dotado de personalidade. Em oito meses de gestação e parceria, Helena decididamente me mostrou o contrário. Decidiu quando seria concebida, e embalada pelas montanhas-russas de Orlando, adentrou o óvulo e se fez crescer.

Surpreendeu-me dois meses depois, e em um vestido de noiva milimetricamente embalado a vácuo, reivindicou seu espaço. Participou do nosso casamento, com 20 de semanas de gestação e foi na festa, ao som de funk, que deu seus primeiros chutes vigorosos, e desde então, não parou mais, chutando em todos os períodos do dia. Vivi semanas deliciosas ao seu lado, período tão cheio de descobertas boas, que dona Helena curiosa quis participar do mundo e ver o que tanto tem pro lado de cá, dando sinais de sua chegada com recém 33 semanas. Foi o solavanco, o susto que eu precisava para me tornar mãe.

Apesar de não fazer uso de pílula e confiar “ingenuamente” (risos) na tabelinha, não imaginava engravidar tão cedo. Quando fiz o teste e descobri a gravidez, entrei em choque. Na época, fazia mestrado, estava investindo na minha carreira recente de atriz, não era a hora certa pra isso.

Com 12 semanas fiz minha primeira ecografia. Outro choque! Não imaginava que com tão pouco tempo já havia um serzinho lá. Com 5 cm apenas, Helena já tinha pés, mãos, cabeça e tronco e flutuava lindamente em meu útero.

Na 33ª semana, estava me preparando para apresentar no Festival de Teatro de Curitiba, quando Helena resolveu nascer. Era uma quinta-feira. Levantei antes do despertador, havia sonhado com o chá de fraldas que iria acontecer dali uns 15 dias, preocupada com o que ainda faltava organizar.

Estava com algumas dores mas segui minha rotina diária. Tomei banho, tomei café, dei comida para a minha cachorra. Comentei com meu marido a respeito das dores e ele insistiu em me levar à maternidade. Deitada na maca, a médica que me atendeu fez o toque e disse para a enfermeira: “Ela está com 4cm, interna com trabalho de parto”. Oi? Como assim? O quarto da Helena não está pronto, o enxoval não está completo, o berço não chegou! E eu menos preparada ainda, morrendo de medo do parto, novamente não era a hora. Mas Helena já era um ser autônomo, cheia de personalidade e ela sim estava pronta.

Internei. Estava morrendo de medo de ter que fazer uma cesárea, queria muito parto normal e tinha medo da prematuridade de Helena levar nós duas para uma cirurgia desnecessária. Tomei antibiótico, Bricanyl e corticóide para maturar os pulmões de Helena. Fiquei no Centro Obstétrico sem poder levantar durante 48 horas, o que possibilitou uma eternidade de reflexões. Uma das médicas que me atendeu perguntou se eu tinha tido ou estava com infecção urinária. Não, eu estava bem até o dia anterior, tive uma gestação sem intercorrências! “Bom, mas tem algo em você que está rejeitando essa menina”. E tinha, era eu que estava rejeitando ela. Eu, por 8 meses acreditei que estava tudo bem, que minha vida continuaria sendo a mesma. Que ingênua, que egoísta, que imatura!

Então, nessas 48 horas que a Helena precisava para o corticóide fazer efeito, tivemos uma conversa séria. Pedi perdão à minha filha, do fundo do meu coração, por não ter me preparado melhor antes, por achar que aquele ser não iria mudar minha vida, por ter medo de trazê-la ao mundo, por ter sido egoísta e achar que ela devia seguir o meu planejamento.

Chorei e argumentei que ela precisava esperar pelo menos essas 48 horas para não ser entubada aqui fora. Helena, tão generosa, me escutou. As contrações cessaram e depois de 4 dias internada, fui embora repousar em casa, com 6cm de dilatação. Então eu disse a ela que agora ela poderia vir, agora eu tinha entendido o quanto ela já era autêntica e singular, que ela já tinha sua personalidade.

Passaram-se 3 dias e as contrações retomaram, às 16h. Tomei um banho bem longo, curtindo cada momento, sentindo meu quadril se expandir. Cheguei na maternidade com 8cm e fui internada às 18 horas. Na maca, ia conversando com a Helena, pedindo para ela vir a hora que quisesse, que ela podia se despedir de seu primeiro lar quando fosse conveniente para ela.

Completamente dilatada, chegou um ponto que as contrações já estavam beirando o insuportável e eu apelei: Vem Helena, vem! E então, novamente generosa, Helena expulsou a bolsa. O líquido quentinho aliviou a dor. Agora faltava muito pouco. A médica me explicou exatamente como ajudar a Helena a sair.

Respeirei fundo e ao soltar o ar fazia força para baixo. Não precisou 5 forças dessas, pois Helena na 4ª respirada escorregou feito sabonete, nascendo às 23 horas e 13 minutos, horário do dia em que ela mais chutava. Veio limpinha e com os olhos bem abertos. Me olhou com um olhar tão penetrante que ali eu senti, “agora sou sua mãe, querida, e irei cuidar de você o resto da minha vida”. Olhei pra ela e agradeci, agradeci muito por ela ter me perdoado e por ter sido uma parceira e tanto no parto.

Ela quase nem chorou. Ali eu entendi o quanto ela estava bem mais preparada do que eu. Ali ela me ensinou na marra o quanto eu preciso conhecê-la, pois ela já é um ser, ela já se apresentou pra mim e juntos vamos construindo nossa relação, que ocorre dia a dia. Tudo que eu imaginava na gravidez de como conduzir a rotina com ela não aconteceu do lado de cá, pois é a Helena que me diz qual é o melhor jeito DELA dormir, qual é a hora que ELA sente fome, o quanto ELA precisa do nosso colo. E eu aceitei ajudá-la a enfrentar as agruras e as delícias de viver nesse mundo planejadinho, quadradinho, regulado por horários e compromissos. Tudo é novo pra mim e muito mais pra ela. E hoje sei que não foi eu que a coloquei no mundo e dei-lhe o papel de filha. Foi ela que me fez mãe, que transformou minha vida, de modo que eu nem sei mais como é viver sem ela.

Obrigada Helena! Em uma semana de trabalho de parto você, tão pequenininha, com seus 2kg de nascimento, me ensinou o que em 26 anos, uma formação em Psicologia e 8 meses de gestação aquilo que eu não consegui aprender sozinha. Obrigada mais uma vez pela sua generosidade e pela sua gratidão, sorrindo e agradecendo ao final de cada mamada. Obrigada por me fazer mãe.


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