Bom, minha história tinha tudo pra ser um conto de fadas… mas infelizmente foi uma tragédia.

Começo contando como tudo começou!

Depois de 2 anos tentando engravidar, em 2013 descobrimos que meu marido tinha baixa qualidade de espermatozóides, não seria impossível uma gravidez natural, mas poderia demorar muito e aí acarretaria mais um problema, minha idade. Então decidimos procurar tratamento, após algumas pesquisas encontramos um projeto que faz tratamento de acordo com a renda do casal, não pensamos duas vezes, em janeiro de 2014 iniciamos tratamento de FIV!!

Em março implantamos dois embriões, e 15 dias depois veio o resultado POSITIVO! VIVA!!!

Foi só alegria, mas ainda não sabíamos se seria 1 ou 2 bebês, pois ultrassom seria só após 1 mês da implantação, esperamos ansiosamente por este dia e foi quando fizemos o primeiro ultrassom e já ouvimos 2 coraçõezinhos batendo a 160bpm!!! Nossa… aí foi um BUM  de emoção… não consigo descrever o que sentimos naquele dia! Eu me sentia a pessoa mais feliz e iluminada, na primeira tentativa já vieram gêmeos, que sempre foi um sonho. Era como se tivesse sido escolhida a dedo por Deus para gerar aquelas duas vidas!! Inexplicável!!!!

Fui acompanhada pela clínica de fertilizacão até a oitava semana, tudo corrida super bem, foi então que recebi alta e comecei pré natal com meu ginecologista desde 2003. Ele já tinha feito 2 partos da minha cunhada e o parto de uma amiga, a qual me indicou em 2003. OK, não tinha porque procurar outro, estava segura e confiante afinal passava com ele há 10 anos.

Segui acompanhando meu pré natal sem nenhuma intercorrência, nunca tive nenhum sintoma, nada mesmo, nem enjoo, nem sangramento, tudo muito tranquilo…

Meu estado de espírito era um estado de graça, me via sempre disposta, paciente e iluminada, até as pessoas que conviviam comigo sentiam esta energia contagiante!!!!!

Meus exames de ultrassom eram feitos mensalmente, os bebês estavam grandes e sadios, nada de errado com eles, placenta grau 1… tudo perfeito!

Em toda consulta meu médico me dizia: – Você está com a barriga muio grande, precisa segurar a boca, aí ele via as imagens de ultrassom com as medidas dos bebes e dizia: – Nossa, estes bebês são enormes, mas nada era feito… Eu fazia uso de progesterona 1 x ao dia e pedi para ser afastada pelo inss porque trabalhava muito em pé e tem muita escada no meu trabalho. Ele aceitou e me afastou com 5 meses de gestação. Parei de trabalhar, mas continuei sempre ativa, limpando a casa, dirigindo, afinal me sentia disposta e ele nunca me orientou repouso…

Minhas consultas eram assim: olhava pra mim, perguntava e se estava tudo bem, olhava os exames, aferia a pressão, me pesava e tchau, tudo em menos de 15 minutos, como sempre me sentia bem e era minha primeira gestação achava que tudo estava certo…

Minha última consulta foi com 21 semanas, no dia 11 de agosto, minha barriga já estava imensa e baixa. Mas uma vez levei bronca devido o peso, tinha engordado 8 Kgs em 5 meses… Com a bronca que ele me deu perguntei se poderia fazer alguma atividade física, ele respondeu: Vai ter que fazer, deste jeito você não vai aguentar chegar no final, está com barriga de 8 meses… Então saio de lá com um atestado de que estou apta a exercer atividade física.

13 dias após esta consulta acordo com fortes dores na lombar, uma cólica que ia e voltava bem sutil, fui ao banheiro por volta das 5:00 e vi o tampão na privada, não sabia o que era… voltei dormir tranquila. Às 8:00hs acordei com a dor  mais intensa, não entendia, coloquei uma bolsa de água quente nas costas e tentei esperar mais um pouco, as 9:30 vi que não estava normal, comecei ligar para meu médico e não consegui falar, então liguei pra uma amiga médica que me disse corre para PS, você está em trabalho de parto! Como assim?? Até ontem eu estava bem, andando no shopping, provando sapato para um casamento no meio de setembro… Meus bebês estão previstos para 10 de dezembro, ainda estamos no dia 24 de agosto, não é possível, meu Deus!!!! Passou este filme na minha cabeça em questão de segundos, travei! Comecei a chorar, não conseguia sair do lugar… Foi então que meu marido sempre muito calmo entrou em ação, correu pegou uma roupa, me vestiu, me levou para o carro, eu já estava sentindo fortes contrações, andava com dificuldade… Saímos de casa as 11:00, 11:20 estávamos no hospital. No meio do caminho consegui falar com meu médico e expliquei, ele me disse: – O hospital entra em contato comigo!! Ok, fiquei tranquila, afinal ele era meu médico e me daria toda assistência necessária.

No hospital já me levaram de cadeira de rodas para o ginecologista de plantão, chegando lá ele foi indelicado e rude, acabou comigo, disse que fui muito relapsa, que teria que ter ido lá quando perdi o tampão… que uma gestaçao gemelar é de risco… eu só chorava, não entendia o porque estava acontecendo tudo aquilo…

Foi feito o exame de toque e constato que já estava com 2 dedos de dilatação, me levaram para sala de pré parto, de lá ligaram para meu médico que pediu para tentarem inibir as contrações com inibina na veia e que me deixassem internada em repouso absoluto em posição de trem.

Depois de 2 horas ainda com contrações, mas desta vez mais espaçadas e menos doloridas repetiram o exame de toque e já tinha evoluído para 5 dedos… Fiquei até as 22:00 na sala de pré parto e enfim conseguiram parar as contrações. Fui para o quarto então, lá ficaria deitava sem levantar para nada, já comecei tomar injeçao de celestone para amadurecer o pulmão dos bebês. No quarto tomava banho na cama, comia deitada e usava comadre para as necessidades.

Este episódio foi no domingo, na segunda segui deitada e com inibina, o exame de cardio toco era feito a cada 8 horas e os bebês estavam ótimos!! No ultrassom apareceu que eles estavam com média de 800g cada um. Peso bom disse o médico plantonista, se nascerem serão bebês viáveis, tem chance de sobrevier, são prematuros extremos!

Nossa, quanta coisa nova estava ouvindo… como pude deixar a situação chegar neste ponto, quanta culpa, quanto medo, medo do desconhecido, da perda dos meus bebezinhos tão desejados e amados… medo, muito medo, este era o sentimento que reinava em mim naquele momento.

Passei a segunda feira bem, recebi algumas visitas, telefonemas, e confesso que já estava preparada psicologicamente para ficar uns 2 meses deitada naquela cama de hospital… Mas nada aconteceu como imaginava, na madrugada de terça feira, exatamente à 1:00 pedi a comadre estava sentindo uma sensação estranha, não sabia direito o que era, meu marido trouxe quando de repente sinto uma cabeça no meio das minhas pernas, dei um grito!!! Meu marido saiu correndo e chamou a enfermeira, não me esqueço da cara dela, ali já sabia que a coisa era grave!! Mas uma vez só chorava…

A enfermeira chamou a equipe obstétrica, tinham que fazer outro exame de toque, eu não queria, pois sabia que teriam que fazer o parto, e a partir disso tudo seria muito incerto… Fiquei com as pernas travadas e mão no meio evitando o toque, depois de me convencerem fizeram o toque e já estava com 8 dedos… Me levaram para sala de cirurgia, lá vieram 2 médicos desconhecidos, um deles estava com a camiseta do lado avesso e uma cara de sono… Pedi para ligarem para meu médico, foi então que a enfermeira pegou meu prontuário e disse: Seu médico passou o caso para equipe do hospital!! Mais uma porrada da vida… não acreditava, como assim?? Este médico atordoado de sono que vai fazer meu parto?!!! Nossa, quanto medo e desespero…

Não conseguia pensar, só chorava e chorava. Meu marido correu se trocar para assistir o parto, teria que fazer uma cesárea de urgência, meu primeiro gemelar poderia nascer de parto normal, mas o segundo estava transverso e teria que fazer cesárea de qualquer forma. Fui para sala de parto me anestesiaram e logo começou a verdadeira carnificina, isso mesmo… ali foi o verdadeiro massacre.

Nada foi humanizado, os médicos de má vontade tiraram o primeiro bebê que já estava encaixado à 1:54, depois começaram me rasgar cada vez mais para chegar ao segundo bebê, o anestesista quase em cima de mim empurrava o bebê e os dois médicos falavam palavrão o tempo todo e diziam empurra, não consigo pegar, só vejo 1 perna… Dá o bisturi pra cortar mais o útero, esta lamina está cega, não vale nada…. Nossa… quanta provação, meu Deus do céu… Neste momento não chorava, só pedia pra Deus: – Senhor me ajuda, ajuda meus bebês… Foram 5 longos minutos neste stress até que meu segundo bebê foi arrancado de dentro de mim… Isso mesmo, ele não nasceu, foi arrancado… Fizeram a sutura da mesma forma, dizendo: agulha torta, sutura de péssima qualidade… e eu  tremendo horrores, pedi para desligarem o ar condicionado, mas disseram que era efeito da anestesia. Enquanto isso meu marido acompanhava os bebês até a uti neonatal.

Depois da recuperação fui para o quarto e dormi, pela manhã meu marido já foi para uti e voltou com os olhos vermelhos, disse que a situação deles era muito deliacada… Eu só poderia ir visita-los depois que tirassem a sonda…

As 14hs consegui conhecer meus filhos. Felipe, meu RN1 pesava 820g e media 34 cm, era lindo, não estava na fototerapia, já abria os olhinhos e estava bem espertinho. Rafael, meu RN2 pesava 770g e media 33cm. Estava todo roxo devido agressão que sofreu no parto, estava na fototerapia, não abria os olhinhos, não tinha as unhas do pé, nem os mamilos… Era impressionante….

Eu vivia uma turbulência de sentimentos, o medo sempre prevalecia, as vezes vinha uma revolta, raiva do médico por não ter me orientado, nem me preparado, ter me liberado para atividade fisica 15 dias antes, (mas graças a Deus eu nem cheguei fazer), angústia, tristeza, culpa, muita culpa por não ter procurado outro médico, por ter sido negligente e inocente quando comecei ter sinais… Cheguei achar que fosse ter depressão… chorava muito, não conseguia falar no assunto, não queria estar vivendo aquilo, queria dormir e não acordar nunca mais…

Cadê meu conto de fadas, meu estado de graça? Por que comigo? Nossa, quanta tristeza sem fim… e ainda tinha meus filhos naquela situação…

Com menos de 48 hs após o parto recebo alta, fui para casa cheia de dor, só com antibiótico e lisador em caso de dor, na quinta feira já dormi em casa, foi horrível chegar em casa sem meus filhos, imaginar que no sábado estava tudo bem… Dormi muito mal, no dia seguinte acordei as 4 da manhã, tomei banho e fomos para o hospital, deixamos o carro num estacionamento do metrô e fomos de metrô por causa do rodízio, eu andava encurvada, cheia de dores, mas nenhuma dor era maior que a dor que sentia na alma!!!

Passei a sexta na UTI em pé, chorando e sentindo muitas dores e estas só aumentavam. Liguei para minha amiga médica que morava perto do hospital e perguntei se poderia ir na casa dela descansar pois estava com muita dor na cirurgia e minha casa era longe do hospital… Minha amiga que foi um anjo que Deus me enviou para me ajudar nesta fase, foi me buscar, já que estávamos sem o carro, e lá nos deu abrigo e conforto. Quando fui tomar banho ela viu a cirurgia e disse que estava infeccionado, perguntou o que estava tomando e ficou chocada em saber que não estava tomando antiinflamatório.

Descansei um pouco depois voltei para o hospital,para ficar com meus bebês, como a dor só aumentava dei entrada no PS para ver a cirurgia, o médico de plantão olhou e disse ser normal, me deu antiinflamatório e voltei para casa…

A noite de não dormi, sentia calafrios, dores, febre… Fui para o hospital ficar com meus filhos, no final do dia não aguentei de dor, voltei para o PS e o médico me disse: Você está com quadro de celulite na cirurgia, já está com abscesso, preciso reinterna-la…

Voltei para o quarto, começaram fazer exames, descobriram infecção hospitalar, minha cirurgia foi reaberta para drenar o abscesso… Cheguei ficar em isolamento, sem ver meus filhos por 3 dias, até sair o resultado de hemocultura de 72 hs…

Nesta fase não sei mais descrever o que eu sentia e como me sentia… era um caco de pessoa…

Fiquei mais 12 dias internada tomando os remédios fortes e fazendo exames diariamente… e meus filhos lutando pela vida!

E meu marido, ah este sim foi um guerreiro, aguentou tudo com muita seriedade e sabedoria… Me dava muita força e me centralizava quando me descompensava, o que acontecia todos os dias, já que cada dia de internação dos meus bebês era uma montanha russa…

Após minha alta, me senti bem fisicamente e busquei forças para lutar com meus filhos. Ali travamos uma batalha, nós 4 e a luta era pela vida.

Rafael, meu bebê atropelado, (era o que melhor descrevia a situação dele), teve o canal do coração fechado com 15 dias, depois engrenou e começou nos dar uma verdadeira lição de vida, mostrou que tem sede de viver.

Já Felipe não teve o canal fechado, tomou uma medicação forte que lhe causou insufiência renal, ele veio falecer com 25 dias de vida. Infelizmente….

Tivemos que enterrar um filho, e não nos permitimos perder nossas forças nem fazer nosso luto, pois tínhamos um guerreiro que estava lutando muito para ficar conosco, que era como se não tivéssemos este direito pelo esforço dele…

Passei a acreditar que Felipe deu a vida pelo irmão e que ele dava forças ao Rafael!!!!

Rafael evoluindo nos dava força… só estávamos em pé lutando com ele, pela vida dele, porque sabíamos que tudo valeria a pena!!!! E assim fechamos um ciclo de amor eterno, papai, mamãe, baby milagre e baby anjo. Sim, Felipe hoje é nosso anjo da guarda!

Depois de longos 105 dias de luta, meu bebê milagre recebeu alta e foi para casa, pesando 2.300g.

Hoje entendo que tínhamos que passar por isso… Acho que a explicação vai além dos nossos conhecimentos, me conformei e assim confortei meu coração… Não tive depressão, ainda não sei como, porque o baque foi grande!

Depois procurei outro médico e levei todos meus exames de pré-natal. Queria entender o que tinha acontecido.

O médico dentro da ética me disse que teria que fazer um exame de ultrassom para medir o colo do útero, nunca fiz… Se tivesse visto neste exame um afiamento do colo do útero poderia ter sido evitado o parto prematuro. Hoje entendo porque minha barriga estava tão baixa…

Entendo também que não fui bem assistida, que não fui preparada para minha gestação gemelar… Entendo que existem médicos e médicos… que fui abandonada na hora que mais precisava, me senti órfã… Meu ex  médico nunca me ligou, ele não procurou saber nada sobre mim… Fiquei arrasada com esta postura, não entendi o porquê… Talvez porque não tinha pago o parto, será que ele achou que iria dar o calote? Já que foi tudo às pressas, nada tinha sido combinado? Não sei, também não quero mais saber, graças a Deus consegui digerir isto.

Meu conselho é: mulheres grávidas, vocês têm que se sentir acolhidas e únicas pelo seu médico, se for só mais uma e com atendimento em linha de produção, não está certo, cada pessoa tem sua necessidade e precisa de um olhar diferenciado, infelizmente não tive este tato durante o pré natal, carrego esta culpa, mas sei que é tarde, nada vai ser mudado.

História triste, mas com final feliz, afinal, estou viva, poderia ter morrido tamanha gravidade do que passei, meu bebê que não sobreviveu hoje nos dá força e nos guia, é nosso anjo da guarda. Rafael está bem, ilumina nossos dias com seu rostinho doce e sereno!!!!!

Hoje sigo contando a evolução do meu bebê milagre no instagram: @maeprematuroextremo

Lá encontrei várias pessoas com histórias parecidas!!!

 

Iara

 


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