Mother working at home

Por Gisele Werneck

Texto publicado originalmente no Blog Mamiferas. Republicação autorizada pela autora.

Entrar no facebook é mais fácil que ser mãe. Muito mais. Um amigo que trabalha com tecnologias digitais me enviou um artigo uma vez contando que a maioria das pessoas, quando se depara com um desafio no trabalho que está realizando, seja ele um cálculo para a empresa ou uma tese de doutorado, acaba por fazer login na mesma hora nas redes sociais. Por quê? Porque é muito mais fácil comentar a foto da Juju na Praia do que resolver o desafio em questão. Digo isso para contar a bonita história de Laura M. (uma amiga que ontem eu encontrei).

Certo dia, com um ano e alguns meses, o filho de Laura M. soltou uma palavra inteira: feijão. Ela olhou para ele e se espantou. Ele, que só balbuciava mamã, papá e umas coisinhas, de repente solta algo assim, feijão, com nome, cor, cheiro e que faz todo o sentido no mundo dos adultos. Ela estava na sala e ficou sentada na cadeira, imóvel e chocada, olhando para o filho. O que a espantou não foi a palavra. Muito menos a idade, afinal era bem a faixa em que se espera florescer as primeiras palavrinhas da boca de um bebê. O que a espantou foi o Elo. O Elo Perdido.

Deixe-me explicar. Laura M. tem um marido com boa condição financeira e em comum acordo, eles decidiram que ela ficaria em casa tomando conta do filho. Com sua vida profissional em suspenso por alguns anos, ela se dedica ao filho, à casa e desfruta de um relativo conforto, sempre com um tablet na mão e um celular que apita à menor menção de um novo email. Laura M. passa horas sentada no tapete, enquanto seu menino brinca no chão da sala. Olhando dessa maneira, parece que ela acompanha cada descoberta desse novo ser que veio participar da aventura terrestre. Mas a coisa não é bem assim.

Naquele dia do feijão, Laura M. se espantou porque sentiu ter perdido algo relativo ao desenvolvimento do pequenino. Por um segundo, ela se deu conta de que ele já atravessava o trajeto final da fase bebê e ela nem sequer reparou. Ela não curtiu. Não da forma total como gostaria. Como tinha planejado ao decidir ficar em casa. O que ela curtiu, isso sim, foram as fotos no facebook da sua amiga, as fotos que ela mesma postava do seu bebê, enquanto o jeito que ele descobriu de pronunciar a letra jota ia passando despercebido. Por todo esse tempo, Laura M. sempre esteve conectada e ao menor plim já respondia a um post sobre amamentação, ou participava de uma discussão sobre alimentação infantil.

Mas conectada ao momento presente, ao que acontecia agora e somente agora, a luz que caía pela janela da tarde e incidia sobre o pescoço do seu menino, a mãozinha que experimentava os próprios dedos e depois viraria o charmoso tchau, o som que veio antes e que um dia se tornaria a palavra feijão, isso ela não reparou.

Num golpe de sinceridade, reconheceu ser pouco o tempo em que estava realmente presente com o filho. Bem menor do que lhe parecia aquele dia inteiro, todos os dias. Ela pensou na Quantidade, mas se esqueceu da Qualidade. Participando de grupos online, conversando com amigas mães, lendo tantas coisas sobre pais e filhos, tinha a sensação de estar se dedicando em tempo integral à maternidade, mas não estava.

Ela estava aqui, mas sua mente não.

Foi esse o Elo Perdido que Laura M. percebeu.

As filosofias do Oriente, de um modo geral, atentam para a importância de se viver o Momento Presente. O Zen Budismo diz: quando for beber água, apenas beba, quando for comer, apenas coma. Parece simples, mas nada pode ser mais difícil. Qual mãe nunca se pegou amamentando um recém-nascido de um lado e fuçando o facebook de outro? Há uma imagem bonita na Índia que compara a mente humana a um macaco, sempre saltando de um galho para o outro.

E foi exatamente para aquietar esse macaco, que naquele dia Laura M. se propôs uma experiência: deixar-se estar com o filho. A cada minuto. A cada gesto. Perder-se em seus cuidados, observar cada movimento, pescar o pré-som, a raiz de cada palavra que ele dirá nesse mundão afora. Ela se surpreendeu como foi difícil. Sobretudo no início. A todo momento se pegava olhando para o filho, mas com a mente em outro lugar. Sempre no passado, ou no futuro, pulando como o brinquedo que ele experimentava. Para não entrar no facebook enquanto se sentava com ele no chão da sala, isso pediu um controle militar. Como uma viciada numa clínica de reabilitação. Não foi fácil e ainda não é.

Sua mente quicava pelos cantos e continua a quicar. Viver o aqui e agora talvez seja o aprendizado de uma vida inteira. Mas vale muito a pena, e como vale. Cada segundo de atenção adquirida é um embarca para a indizível felicidade do real. Só o Agora é Real. E o que Laura M. tem trabalhado para dar ao seu pequeno pé de feijão – e por isso a si mesma – é o melhor presente que uma mãe pode dar a um filho: desembrulhar pedacinho por pedacinho, junto com ele, este momento presente.

 

Gisele Werneck é pessoa, é escritora, é mãe da Diana. Tem três livros publicados, dentre eles “Guerreiras de Gaia”, um livro para jovens onde a força para curar o planeta é o Feminino. Viaja pelo mundo e escreve aqui


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