E então você pariu.

Mas alguma coisa não saiu conforme a expectativa. Talvez você tenha planejado um parto domiciliar e tenha sido transferida para um hospital. Talvez você tenha tido uma cesárea realmente bem indicada, depois de se preparar para um parto normal. Ou então você queria um parto totalmente natural, mas pediu analgesia ou outra intervenção. Pode ser que você tenha sonhado com um parto rápido, e tenha vivido um trabalho de parto lento (dois conceitos relativos). Ou você precisou de uma indução. Você queria parir de cócoras, ou na banqueta, ou de ponta cabeça, mas acabou tendo o bebê deitada, em posição ginecológica. Você queria chegar ao hospital com dilatação total, e em casa, sentindo as contrações por tanto tempo, pensou que havia chegado o momento. Quando deu entrada na maternidade estava apenas no início, e teve de enfrentar muitas horas de hospital para as quais não estava preparada.

Você não sofreu violência obstétrica. Não houve imposições ou constrangimento. Seu bebê nasceu saudável. Quaisquer intercorrências foram dribladas e todos diriam que tudo correu bem. Mãe e bebê saudáveis. Parto normal. Ou cesárea intraparto com real indicação. Etc. Mas algo permanece mal resolvido. Seu parto saiu do script. Não era para ser assim. De quem é a culpa?

Você engravidou, descobriu a falta de ética de muitos médicos, a realidade do cenário obstétrico no Brasil. Descobriu que a praxe é um parto normal mal atendido e cheio de intervenções, ou uma cesárea agendada. Então leu, foi a reuniões, fez yoga, até epi-no, guardou dinheiro ou buscou uma alternativa, como uma casa de parto, mentalizou, assistiu a vídeos. Seguiu o passo a passo de quem quer um parto humanizado. E teve um. A equipe que você escolheu te assistiu bem, obstetra, doula, pediatra e afins.  Então por que o desconforto? Por que a sensação de falta?

Tudo correu bem, mas seu parto definitivamente não seria cartaz de filme.

É preciso redefinir o que é um parto satisfatório. O parto não pode ser um ideal a ser alcançado, mas um direito a ser protegido e defendido. Você não falhou porque foi transferida de seu parto domiciliar. Você não foi fraca porque pediu analgesia. Você não foi medrosa porque preferiu o ambiente hospitalar. Seu corpo não deixou de funcionar porque seu parto foi induzido. A luta da humanização é contra as falsas indicações, contra a violência, contra intervenções desnecessárias, contra o excesso de medicalização. Não é contra qualquer auxílio medicamentoso ou emocional; o ativismo quer se aliar à medicina, e não prescindir dela sem critério. Busquemos sempre o ideal, mas saibamos a diferença entre o parto idealizado e o parto possível. O possível é o único que você vai ter.

A gestação é o período de espera, espera latente, espera às vezes quase insuportável. E o parto é o encontro com o inesperado. Como disse Ana Cristina Duarte recentemente, o parto pode parecer romântico nos filmes, mas na hora dói, “é hardcore, é sombra, buraco, escuridão. E depois nasce um bebê[1]”. Por aí. A visão romântica é sempre retrospectiva. Precisa ser. Ainda bem que é. Porque isso quer dizer que uma experiência intensa dessas, mesmo podendo envolver dificuldades emocionais e físicas, ecoa na memória como algo positivo; para muitas, o dia mais feliz de suas vidas. Não existe parir “errado”! Desapegue dos filmes, dos relatos, do plano, da expectativa. Desapegue da Gisele Bündchen (não só dos partos dela, mas de seu corpo, de seu marido e de sua conta bancária). Desapegue da performance. Não há performance. O parto não é cênico. É real e cru. Pessoal. Para cada uma, de um jeito. Se alguém sugerir que seu parto foi de alguma maneira inferior, errado ou feio, não dê ouvidos. O equívoco está em quem cria e crê neste tipo de gradação imaginária, em que os partos são categorizados a partir de um cenário ideal nota dez, e tudo o que saia deste quadro perde pontos. Este tipo de colocação imatura, que aparece de vez em quando na internet, não representa o ativismo. O ativismo é pela humanização, pelo protagonismo da mulher, pela defesa de suas escolhas, pelo abandono de práticas obsoletas e prejudiciais, pela prática de uma medicina baseada em evidências.

Se não houve trauma, se não houve violência obstétrica, se você teve um parto respeitoso, humanizado, faça as pazes com o tudo o que não estava nos planos, no sonho. O melhor da vida geralmente vem do inesperado, do incontrolável. Meu parto trouxe percepções com as quais eu nunca havia entrado em contato, e hoje me sinto em transformação por causa delas. Até mesmo a compreensão de saber o que eu faria diferente numa segunda gestação não seria possível sem a vivência daquele momento.

Só para ilustrar: eu tinha certeza de que minha filha nasceria num parto totalmente natural às 38 semanas exatas, no dia do aniversário de meu marido (e ainda por cima era lua cheia); tinha certeza de que eu chegaria no hospital praticamente no expulsivo, se chegasse, porque talvez não desse tempo e eu acabasse num parto desassistido não planejado; eu tinha certeza de que minha filha mamaria no primeiro minuto de vida; tinha certeza de que o dia em que ela nascesse estaria ensolarado, afinal o nome dela é Maria Clara. História real: fiquei em pródromos prolongadíssimos, e às 41 semanas, com dor, cheguei ao hospital com 5 de dilatação, e lá fiquei mais doze horas até minha filha nascer – no dia do aniversário da minha irmã, e chovia – depois de uma analgesia com dilatação total, pedida por mim, porque eu sentia que nada mais acontecia. Mas aconteceu. E tive um expulsivo rápido, emocionante e maravilhoso. Ela ficou no meu colo, mas não quis mamar nenhuma vez no primeiro dia, só horas depois, à noite – e tivemos a experiência mais plena, fácil, simples e natural de aleitamento.

Para mim, o momento de estagnação no meu parto foi uma parede enorme, cheia de medos e bloqueios, que eu precisava escalar sozinha para chegar do outro lado e encontrar minha filha. Foi como eu sonhava? Não. Foi mais difícil. Mais intenso, mais dolorido, mais demorado. E mais especial. E eu faria tudo de novo.

 

[1] Reproduzido com permissão da autora, a partir de uma publicação em redes sociais.


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