624374-Estimular-as-crianças-a-tomar-banho-sozinhas-é-uma-maneira-de-estimular-a-aindependência.
Texto de Jobis Guerra mãe de Estêvão, Mariles e Cristóvão, acredita no poder de parir das mulheres, pratica a comunicação não-violenta e a criação com apego. Mas, sobretudo, defende que a horizontalização das relações entre pais e filhos seja a forma mais contundente de construir relações qualitativas e enviar pessoas amadas e capazes de amar para o mundo.

Marido estava discutindo comigo, pela enésima vez sobre uma questão nossa. Ele falou, falou, falou, falou falou, falou e continuou falando.

Eu ouvi quietinha, porque ele estava com a razão. Mas a questão aqui não era lhe dar ou não razão. Eu já lhe dera razão sobre isso anos e anos atrás.
A questão era conseguir atender à sua expectativa. Sim, eu estou trabalhando ativamente nisso, como venho trabalhando ativamente para sanar a maioria dos meus defeitos dos quais tomei consciência… mas, de repente, era muita coisa para mim.
Esperei ele terminar todo o seu discurso racional e bem articulado sobre meu defeito. Esperei ele dizer todos os motivos pelos quais eu estava errada, e bem errada, e disse:
– Eu entendo o que você diz. Eu concordo com o que você diz. Mas não consigo fazer o que você quer. Essa pessoa perfeita que você quer que eu seja, ela não existe. Ela vai existir, um dia, mas agora, não é uma realidade. Eu melhorei muito. oOu melhorar ainda mais. Estou melhorando sempre. Mas você precisa esperar menos de mim. Se eu começar a priorizar absolutamente tudo, as coisas vão começar a sair do controle. Eu não posso ser tudo que você quer que eu seja. Desculpe. Eu não consigo. Eu queria muito dar conta de tudo, e ainda ser uma pessoa que nunca trouxesse dissabores pra ninguém, mas eu não estou aí ainda. E não é questão de quão racional você seja em me mostrar meu defeito. Não é questão de eu concordar com você, ou mesmo de me sentir incomodada. É questão de eu não conseguir dar conta de todas as demandas, e ainda viver e ter uma qualidade de vida legal. Você vai ter que parar de tentar transformar tudo em mim e aprender a conviver com essa pessoa que eu sou. talvez, se você parar de olhar um pouquinho para meus defeitos, para todas as minhas sobras, para todas as minhas sombras, talvez você até descubra coisas legais que você não descobriu ainda, por estar tão empenhado em me tornar uma pessoa melhor. Talvez, se você conseguir não focar em tudo que eu não consigo, perceba que tem uma pessoa muito mais legal que o que você pensou que tinha.
E daí eu comecei a chorar convulsivamente. Porque aquilo era eu falando para meu marido, mas podia ser meu filho falando para nós. Sendo que ele dificilmente teria, aos sete anos, condições de ter um discurso tão claro e articulado quanto o meu.
Fiquei me perguntando se uma das funções das mães, além de educar, conversar, viver, também era a de emprestar a nossa voz aos nossos filhos. Não apenas ensiná-los a falar quando pequenos, mas ajudá-los a ler e transmitir para o mundo suas próprias palavras.
Se eu, uma adulta consciente, estava sobrecarregada pelas demandas do meu marido, todas reconhecidamente justas, imagina o meu filho de sete anos? Criticado todos os dias porque enrolava pra tomar banho, enrolava pra comer, se levantava na hora de comer…?
Não é possível que ele, esperto como é, não tenha entendido que se come sentado, se toma banho nas horas em que a vida precisa andar. E se ele entendeu e não faz, será que é simplesmente porque não quer? Porque quer desafiar? Chamar a atenção? Ou será que ele simplesmente não esteja sendo demandado demais, dentro do que ele podia oferecer? Será que se eu conseguisse aceitá-lo mais, inclusive nas coisas sabidamente difíceis, será que não descobriria pontos legais nele que me estavam escapando, porque eu estava incrivelmente centrada em transformá-lo em uma pessoa que ele até poderia ser, mas não era? E como fica quando vocÊ diz, diz e rediz, que cada filho é único, que cada ser é único, cada indivíduo é único perante Deus, e entretanto pega seus filhos e compara-os, na sua cabeça ou em auta voz, porque um dorme sozinho e o outro, não, porque um, com x idade, comia direitinho e o outro, não?
Como você pode querer que os outros respeitem sua individualidade, seus pontos fracos, mas não consegue sequer respeitar a individualidade dos seus filhos e quer submeter todos a um padrão de qualidade utópico e, até, quem sabe, discutível? Não estou diminuindo a importância da educação, de transmitir valores… Mas é preciso repensar.
Se, para uma coisa boa, utiliso meios ruins, então o mais errado é o meu filho, que não consegue fazer o que eu quero, ou eu, que lanço mão de coisas das quais essencialmente discordo, para conseguir o que eu quero? Não importa quão correta eu esteja. Não importa quão justas sejam as minhas demandas.
Podia ser que meu filho de sete anos se sentisse tão exigido perante os pais quanto eu, perante meu marido. Eu percebi que, na minha casa, precisávamos de mais aceitação, uns com os outros. Relevar mais. Conversar mais. Exigir menos. Ter mais paciência, porque uma coisa que você pede hoje, o outro pode não conseguir atender, mesmo que ele queira de verdade.
Não é que haja má fé. Todo mundo que lida com psicologia, terapia, conteúdos internos, conquistas psíquicas a longo prazo, sabe que não é uma coisa simples. Não é um botão que você aperta e faz a programação. A pnl está aí, para te ajudar a atingir metas, e nem por isso é rápido. Constelação familiar, auto-ajuda, florais energéticos… Todas ferramentas para ajudar uma pessoa a conseguir o que ela quer, mas querer, apenas, não basta, embora seja decisivo.
Se os adultos têm tantas dificuldades em atingir suas metas, se precisam de anos, ferramentas emocionais específicas, porque cargas d’água, porque raciocínio torto a gente quer que nossas crianças, que possuem menos experiÊncia que nós e menos domínio do organismo físico, sejam experts? Aqui marido trocou a ameaça por brincadeira, e tem funcionado. Ele diz: vamos ver quem vai estar no banho em dez! E fala: 1… Parando de fazer oq eu está fazendo….. E as crianças saem correndo, para tentar terminar o que estão fazendo…. 2… pegando a roupa… E vai assim. tem funcionado muito mais que ameaça, e acho que os auxilia a desenvolver habilidades mentais que muitos de nós, adultos, não temos bem desenvolvidas: foco, atitude, metas, concentração…
Mas é processual. Não vai ser do dia pra noite, igual as demandas do meu marido sobre mim. Só que, do mesmo jeito que se a gente não educar, o mundo não vai fazer isso por nós, se eles não aprenderem a tolerância, não só com os outros, mas consigo mesmos dentro de casa, onde raios eles vão aprender isso?
Percebi que, com todas as minhas demandas justas sobre meu filho – demandas justas, sim! – eu só estava o tornando uma criança insegura e lesionando sua auto-estima, porque as dificuldades dele continuavam lá, quando não pioradas com o tempo.
Claro que eu podia simplesmente responsabilizá-lo por não ser capaz de se auto concertar, mas, realmente… Por amor, podemos fazer melhor que isso.
Eu aceitei que Marriles entrará no banho ao primeiro pedido, e o Estêvão precisará de estratégias para atingir o mesmo fim. Idem para comer. Idem para dormir. Idem para guardar os brinquedos. Idem para dividir o tempo no tablet. Idem para fazer a lissão. Idem para jogar a roupa no cesto. E a lista dos idens continuaria. Eu sei que não é nem simples, nem rápido. Mas quando a gente se toca que não será capaz de oferecer perfeição imediata aos outros, mesmo com muito empenho e amor, aprende a admirar o empenho de perfectibilidade presente em cada um de nós.
Admirar, apoiar e incentivar, porque, no fundo, é disso que a gente também precisa.
Espero ter contribuído com a reflexão nossa de cada dia.

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