Foto: carla Raiter

Foto: carla Raiter

Há mais de uma semana fui assistir a uma sessão fechada do filme “O Renascimento do Parto” e saí de lá passada… tocada… mudada. Comprometi-me a escrever sobre o filme, mas não conseguia desenvolver uma ideia e seguir adiante. Sentei por vezes frente ao computador, mas nada saía…

Essa semana, o Marcos, meu filho mais novo, segurou o meu rosto com as duas mãos e disse: “Bigado mãe”. E eu perguntei: “Obrigada pelo quê meu filho?”. E ouvi: “é que você tá qui…” O olhar do pequeno me remeteu à primeira cena do filme: um bebê, nascido de cirurgia cesariana, sozinho na mesa, recebendo os “primeiros cuidados”, chorando, a mãe amarrada pela cirurgia, e o choro daquela mulher anos depois ao ser indagada pela filha que assistia ao vídeo do nascimento: “Mãe, porque estou lá sozinha?”

Daí, eu que pela primeira vez na vida posso me dedicar aos meus filhos com exclusividade (já estou há alguns meses sem trabalho fixo), entendi a semelhança na gratidão do meu filho e na indagação da menina. Nenhuma criança quer ficar sozinha. Nenhuma criança quer estar longe. A criança precisa do acolhimento e da segurança desde o momento que nasce, absolutamente nesse primeiro momento em que a única relação que ela conhece é o vínculo com sua mãe por meses, onde viveu como um só desde sua primeira célula, uma parte pertencente ao corpo da mulher.

Hoje, a grande maioria das pessoas não questiona o nascimento pela cirurgia cesariana desnecessária, por que, afinal, o importante é o bebê ter saúde. Mas de que saúde estamos falando? Apenas da física? E a saúde psicológica? E as sequelas do recebimento no mundo com uma brusca separação seguida de agressões de rotina sem o menor cuidado com aquele ser? E a sensação que aquele indivíduo vai carregar para o resto da vida por saber que esteve só, quando era vital que estivesse junto?

E, para além da forma de nascer, o que se sucede depois é a criança ficar terceirizada desde muito pequena e por muito tempo na escolinha, porque a mãe precisa trabalhar e não há uma política pública séria que permita a permanência de mãe e filho, com licença maternidade reduzida, inclusive com tempo menor que o aleitamento exclusivo necessário. E daí a criança mama sozinha na mamadeira, e está longe da mãe. E daí que a mãe precisa fazer as atividades da casa e a criança está sozinha vendo televisão. E daí que a criança cresce e o tempo que tem livre após a escola é para fazer lição de casa, e de novo, está sozinha sem a mãe… e daí que algumas vezes a relação conjugal dos pais acaba, e a família parental que nunca deveria ser dissolvida, se dissolve porque os pais não tiveram a cultura e o aprendizado de que a criança nunca deve estar só, e sempre acompanhada por seus pais por inteiro… e quando penso em deixar a criança sozinha não é apenas fisicamente. É no fundamento. Na importância daquele indivíduo como prioridade na vida de seus pais, como um indivíduo que recolhe um mundo seguro e respeitoso ao seu tempo. É num mundo preparado para acolher com respeito e carinho a formação da relação primal, com espaço para a mãe ser mãe, o pai ser pai, e o filho ser um indivíduo seguro de sua existência.

E eu entendo todas as demandas do mundo que vivemos hoje, das necessidades das mulheres e dos homens no mercado de trabalho, na busca de se tornar uma pessoa cada vez mais autossuficiente, exercendo em alta performance as suas obrigações… e por isso cabe a comodidade da cirurgia cesariana marcada, da boa escolinha de ponta para o bebê, do trabalho que remunera bem e exige muito por isso para que se pague a escola, as roupas bacanas, a TV de última geração, e etc, etc, etc. Só não encontro nisso a busca pelo retorno ao vínculo, à relação segura de uma família parental…

E daí que o filme faz todo o sentido, é ali no início que está a mudança. É no renascimento do parto e de todas as consequências de uma experiência como essa que o vínculo se estabelece. E que esse filme faça história. E que leve o mundo a uma nova reflexão. Para que, quando meus filhos tiverem filhos e eu for avó, a cultura tenha mudado e minha luta seja apenas um pedaço de uma história que se cumpriu.


_______________________________________

Dica: Conheça tudo sobre Chá de Bebê. Lembrancinhas, Decoração e muito mais. Veja aqui as melhores dicas sobre Chá de Bebê e me conte o que achou.

 

Vamos discutir este conteúdo? Deixe um comentário