Milena e o parto domiciliar pelo SUS Sofia Feldman

Estou falando de parto. Não estou falando de parto humanizado, respeitoso, bonito, fotogênico, fantasiado, selvagem, tecnológico, hippie, religioso. Estou falando de parto, simples assim. Parto como ele deve ser. Fisiológico, sexual, manifestação maior da vida: nascer. O parto é o nascimento de um filho, mas também de uma mãe.

Uma amiga uma vez me disse: “parir me virou do avesso e percebi que o avesso é meu lado certo.” É desse parto que vou falar. Pra ele acontecer, a mulher (não estou dizendo da família, sociedade, marido, irmãos, amigos, doulas, médicos, equipe, etc) precisa de três coisas.

Apenas três!

– LUGAR

– EQUIPE

– CONFIANÇA EM SI

E não é nesta ordem. E nem em ordem nenhuma. Essas três coisas são o tripé onde o seu parto se sustenta. Nenhuma pode estar mancando, fraca ou faltando. Elas precisam ser construídas e coexistirem.

Vou explicar cada uma delas e depois vocês vão concordar comigo.

Lugar: não existe O lugar maravilhoso para parir. A maravilha do lugar é aquele que é a opção da mulher. É onde a mulher precisa estar para se sentir confortável, onde ela QUER estar. Onde ela se sinta segura, a vontade, possa se movimentar, gritar se quiser, chorar, etc. Já soube de partos em casa, na cachoeira, no mato, no mar.

Em casas de parto, hospitais, suítes PPP. Em casa é o melhor? Depende se é lá que a mulher que estar. Hospital é o melhor? Depende, se ela optar por ser lá, naquele ambiente, porque não? Lembrando que essas opções devem ser de acordo com a vida de cada mulher, dos conceitos e valores por ela construídos e nunca baseados no Medo.

Fotos: www.kalubrum.com.br

Fotos: www.kalubrum.com.br

Equipe: Informada, segura, confiante, conhecedora de evidências científicas, experiente porém não intervencionista, sem ansiedade e pressa, capaz de olhar, escutar, ouvir e esperar. Que possa guardar todos os conceitos, aprendizados e valores e apenas observar. Em muitas vezes, basta esperar, olhar, aguardar que o processo se faz.

Quanto mais “se mete a mão”, mais  o processo desanda. Muito cuidado no que se fala, no que se faz, porque andar pelo ambiente, olhar preocupadamente, balançar a cabeça pode ser captado pela mulher em trabalho de parto. O acreditar é muito importante e deve ser genuíno. Mulher em TP tem o do sexto ao centésimo sentido apurado. Ela capta tudo, ela sente tudo, ela lê pensamentos! Muitas pessoas, poucas … será como a mulher quiser. De novo, a mulher decide, escolhe, comanda. A mulher. Não é o marido, nem família, nem sociedade.

É bom repetir. E ela vai construir com essas pessoas da equipe, os acontecimentos. E que toda e qualquer intervenção que seja necessária, seja devidamente informada, explicada, autorizada e que seja feita para TRAZER O PROCESSO PARA O CURSO NORMAL, ou seja, a intervenção não é para fazer nascer. É para ajeitar um ou outro aspecto para que A MULHER conclua o seu trabalho, o do seu corpo.

Assistência Domiciliar pré-parto com a enfermeira Obstetra Mirian Rego. Foto: Kalu Brum

Assistência Domiciliar pré-parto com a enfermeira Obstetra Mirian Rego. Foto: Kalu Brum

CONFIANÇA EM SI: Existe mulher 100% resolvida com seu parto? 100% segura? Sem medo? Bom, tudo depende de como a mulher encara as novidades da vida.

O parto é sempre uma novidade. Se tiver 10 filhos, serão 10 partos distintos. Nunca um é igual ao outro. Mas então, de onde vem a confiança? Não é de experiência apenas, nem de conhecimento técnico apenas (mas sim, é bom estudar o processo, conhecer, tentar aprofundar), nem de pura fé, nem de apoio, incentivo. Nada disso traz uma confiança que SÓ A MULHER PODE TER DE SI. É saber que aconteça o que acontecer, este é o parto dela.

O processo dela, do jeito dela. Lindo como ele será, completo e pleno, mas cheio de insights e sombras. Entender que é na gestação, parto, amamentação que o corpo se junta com o emocional de forma descarada. Pra funcionar, os dois precisam dar as mãos. Você pode ter corpo, mas sem acreditar que ele funciona, não adianta. E aqui, entra o que a gente pode receber dos outros: confiança ou descrença.

Muito do que a gente ouve falar, desde criança até os dias atuais, vindos da boca de médicos, família, vizinhos, amigos, vendo em TV, filmes, livros vão construindo uma parte do nosso imaginário sobre parto. E é por isso que, muitas vezes, na construção de um parto é preciso DESCONSTRUIR, para então ACREDITAR que o fisiológico funciona. E fisiológico é (aqui vai uma opinião bem pessoal) a prova viva de que a natureza é surpreendentemente inteligente. Tentamos identificar, mapear, conhecer, determinar, estudar e até conseguimos boa parte dos conhecimentos sobre o processo fisiológico, mas existem aqueles partos que nos surpreendem, porque ali mora uma mágica desconhecida para todos, que nasceu e mora na CONFIANÇA DA MULHER em si.

Milena e o parto domiciliar pelo SUS Sofia Feldman

Milena e o parto domiciliar pelo SUS Sofia Feldman

Então, concorda? Pense agora em seu parto. Você tinha os três pés sustentando-o? Faltou algum? Esse que faltou, implicou em que tipo de “problema”? E seu parto de sucesso, caiu por acaso ou você precisou buscar e montar seu tripé? Você escolheu o seu local de preferência? Escolheu a sua equipe? E você, acreditava em você?


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