Este texto nasce de um momento de contemplação. Pela janela da cozinha, vejo meu filho de 1 ano e 9 meses brincando, por um bom tempo, com areia em uma bacia. Areia trazida de balde da nossa excursão pela quadra de areia, perto da nossa casa.

Escrevo a partir da minha experiência. Experiência vivida como mãe de dois meninos, tia de cinco sorinhos e arte educadora de centenas de crianças. Experiência da criança que fui, criada em fazenda sem interferência de TV ou jogos eletrônicos. Experiência de morar por algum tempo em uma comunidade cabocla no meio da Floresta Amazônica.

Experiência de tão vivida, foi corporificada, pregada na pele, na carne, no osso. Experiência viva. Ativa. É notório que o brincar é a atividade mais importante da criança. É brincando que a criança aprende, exercita suas faculdades mentais, psíquicas e motoras. É no brincar que ela tece relações consigo, com os brinquedos e com o outro.

A criança precisa, deve e quer brincar. Mas quais os brinquedos indicados? Eletrônicos? Coloridos? Educativos? De plástico? De madeira? São tantas opções hoje no mercado. Entrar em uma loja de brinquedos é uma perdição… para as crianças, que não sabem o quê querem devido a quantidade de opções e para os pais, que muitas vezes não podem comprar todos os brinquedos que as crianças pedem, normalmente se elege um ou dois.

Pois digo, afirmo e Reafirmo não é preciso de muita coisa para a criança se satisfazer e passar horas brincando com pouco material e muita imaginação. Mas não é só eu que sei disso, você também sabe. Quantas vezes você já não se pegou dizendo “Eles ganham tantos presentes, mas brincam mesmo é com a embalagem” ou “ Eles têm muitos brinquedos, tantos que nem cabem mais no quarto, mas passam horas brincando com os reciclados”.

Segue um lista de brinquedos que, pela minha experiência, as crianças não podem deixar de ter. Não é uma lista dos mais vendidos ou dos Best sellers. São só brinquedos que fizeram parte da minha história, por isso falo deles com desenvoltura. Pode ser que ao final do texto você tenha se lembrado de outros, com certeza é possível. Aconselho a inseri-los na lista.

Começo pela CAIXA DE AREIA, inspiração deste texto, apesar de não ter sido exatamente um caixa e sim uma bacia. Quem não se lembra brincando na areia do parquinho da escola? Ou na areia da praia ou do igarapé? A textura rústica escorregando pelos dedos das mãos e entrando entre os dedos dos pés. Um eterno retorno. Pá – pote. Pote – pá. Com um pouco de água do mar e castelos irão formar. Castelos habitados por princesas, príncipes ou apenas um casa para seres do mar ali morar. Na hora do banho, um tanto no sapato, um tanto na cueca ou na calcinha, um tanto na imaginação de horas bem aproveitadas. Confesso que tinha um enorme prazer em despejar areia na minha cabeça e depois ficar horas e horas catando os grãozinhos.

Conheci um menino caboclo de olhos vivos, tão vivos que tinha vergonha de olhá-lo olho no olho com medo dele descobrir que os meus não eram tão vivos assim, já quase mortos-vivos de cidade. Esse menino tinha uma lata redonda de sorvete, dentro dela ele “escondia seu tesouro”, assim ele me dizia. Quando mostrou-me pela primeira vez eu não pude acreditar. O que era seu tesouro? Nada mais nada menos do que SEMENTES E PEDRINHAS. Eu, um pouco sem graça, sorri. Não entendia ainda o valor daquele tesouro, só anos mais tarde fui me dar conta que aquele tesouro era realmente um GRANDE TESOURO. Hoje, tenho em meu quintal pedrinhas de vários tamanhos e cores, que servem para várias brincadeiras, até para virar munição e o alvo ser as casas dos vizinhos…risco que se corre. As sementes estão em uma cesta pequeninha de vime e faz-de-conta que é comidinha. Simples assim. Em falar em comidinha… Para cozinhar é preciso de panela.

PANELINHAS bonitinhas de plástico ou até mesmo de inox. Que menina não sonhou com uma cozinha completa? Mas têm panelinhas feitas com lata de atum, sardinha ou molho de tomate. Com essas eu brinquei de montão lá na Amazônia. Algumas tinham até cabo! Se vocês acham que panelinha é brinquedo de menina estão muito enganados. Em tempos modernos em que a mulher sai de casa para trabalhar e divide com o homem as tarefas domésticas, melhor é introduzir logo cedo os meninos nessa tarefa, e como eles gostam!!!

Em falar em inversão de papel, ou melhor, em divisão do trabalho doméstico, porque não dar CARRINHOS também para as meninas e BONECOS também para os meninos? Em escolas antenadas em pedagogia de ponta, encontramos na sala de aula esses brinquedos, que são divididos pelas meninas e meninos sem qualquer preconceito, que por sinal é um sentimento do adulto e não da criança.

É tão bonito de ver meninas brincando com carrinhos e meninos tirando e colocando a roupinha nas bonecas. Certa vez vi um caboclo com um pneu de carrinho de mão, ele tinha o pneu na mão e fazia de conta que pilotava um carro, corria pra baixo e pra cima, alucinadamente, até quase me atropelou! Sua irmã, mais contida, brincava com uma boneca de pano, não dessas que a gente conhece, bonitinha, com cabelinho de lã, mas uma feita com um lençol velho e barbante amarrado que repartia o tecido em cabeça, tronco, braços e pernas. Era uma mãe zelosa que com todo cuidado enrolou o “pequeno filho” em outro trapo e o deitou na cesta trançada com folha de bananeira. Não é lindo? E enchemos nossas crianças com um monte de carrinhos e bonecas dos mais variados tipos, cores e sons. Bonecas perfeitas, lindas, que andam, falam e até fazem xixi, são tão reais…

Mas tiram da criança a possibilidade de imaginação. Claro. Vocês já viram que as crianças gostam de criar e Recriar o brinquedo e brincadeiras? Quanto menos elementos têm um brinquedo mais rico ele se torna para a imaginação infinita de uma criança. Pense nisso. E por falar em imaginação, vamos entender o porquê as crianças, principalmente os meninos, gostam tanto de colecionar

PAUZINHOS. Há cinco anos convivo em um ambiente Waldorf de pedagogia, como mãe e como educadora e observo diariamente pais “brigando” com seus filhos para deixar o pauzinho lá (no chão) e ir embora. Mas como deixar um parceiro tão íntimo jogado lá (no chão) e ir embora? Claro que a criança faz um drama e acaba levando seu pauzinho para casa, aumentando, assim, a coleção de pauzinhos que irão para o lixo. O adulto se pergunta o quê a criança vê naquele pedaço de pau, muitas vezes seco e já esfarelando, com tanto brinquedo em casa. A resposta é simples, um pedaço de pau pode ser muita coisa, desde uma varinha de mágico, a uma espada de um rei, um arco de um guerreiro, a batuta de um maestro ou a montaria de um cavaleiro.

E por falar em montaria… este último recebeu uma cabeça de cavalo e se tornou o CAVALINHO DE PAU. Como as crianças gostam de montar em seu alazão e sair correndo pela sala, toda elegante em sua montaria. Os pais é que não gostam nem um pouco deste brinquedo, afinal o cavalo risca o chão, mas isso é fácil de resolver com um feltro na ponta do cabo ou a opção por um cavalinho que tem rodinhas.

TOQUINHOS DE MADEIRA. Quem não se lembra daqueles toquinhos de madeira impresso tijolinhos, porta, janela e o relógio da torre? Eu, você, seu irmão, sua prima e até seu filho tem um quite de construção. Mas me lembro, quando morava na fazenda, que havia uma marcenaria muito próxima à minha casa, lá eu ia com meus primos (um total de cinco crianças) pedir ao marceneiro os restos de madeira e com que felicidade saíamos da marcenaria, cada um carregando um saco cheio de toquinho. Com passos largos íamos direto para casa e brincávamos por horas a fio.

Isso normalmente acontecia no inverno ou nos dias chuvosos, por que no verão ou dias ensolarados gostávamos mesmo de soltar PIPA. Quer dizer, meus primos gostavam, eu só olhava… Desde àquele tempo tinha medo do vento. Talvez por ser muito aterrada, tinha (tenho) medo de sair voando, voando e não voltar mais. Porque vocês sabem que quando solta-se pipa a alma voa com ela. Sobe, sobe, gira e rodopia, torna-se leve, levinho. Para empinar pipa é preciso não pensar em nada, apenas esperar o melhor vento e soltar a bendita, que logo subirá. Por isso eu nunca consegui soltar pipa, com minha cabeça pequena, concentrada de muitos pensamentos, impossível de se fazer a danadinha empinar pra cima, só pra baixo.

Como nunca consegui empinar pipa, agora dei de soltar “PIABINHAS VOADORAS”, quase uma capucheta, mas muito mais bonita e sonora, um peixinho a bailar no ar. PIPAS no céu, PIÃO no chão. Pião de madeira, de plástico ou de ferro. Todos uma delícia de soltar. Com seu zunido, perdemo-nos no gira-gira multicor.

A cada pulo do pião no chão uma nova batalha. Sim, batalha. É comum montar-se uma arena e jogar os piões para duelarem entre si. Aquele que permanecer por mais tempo é o vencedor.  Hoje, infelizmente as crianças não sabem mais soltar pião. Eles foram substituídos pelos bayblades. Uma pena! Ter os dois na ativa seria muito mais rico para o imaginário simbólico da criança.

Agosto, época do vento, nas escolas é feito com as crianças o instrumento de se catar o vento: CATAVENTO. E como elas gostam de sair correndo vendo-os girando e girando, nos fazendo ver o que não dá pra ser visto. É mágico. Quando passa, então, na rua ou no parque o vendedor de catavento! Vemos sorrisos transbordantes nos rostos pueris. É preciso comprar os cataventos multicoloridos e brilhantes, que ao chegar em casa irão enfeitar a jardineira e exercer a função de avisador do vento. A cada rajada, um breve momento de pausa, só para ver o vento soprar.

O CALEIDOSCÓPIO sempre me fascinou, não me lembro se já tive um, mas é o meu brinquedo favorito para dar às crianças em seus aniversários. Acho que é o brinquedo da alma (assim como a pipa). A cada movimento do brinquedo uma nova forma, e a alma se encanta. Quantas combinações! Têm uns modernos que além das pedrinhas a composição se dá também com a água. É lindo! Como seria bom se o adulto visse os problemas pelo prisma multicolorido do coleidoscópio, seria mais fácil resolve-los. Certo dia, lá na Amazônia, fui tomar banho de igarapé com algumas crianças, todos irmãos, próximo a nós havia uma árvore enorme, daquelas majestosas, que de tão antiga tem até barba. Sua barba era feita de cipós. As crianças logo atravessaram o igarapé e foram se pendurar nas cordas-barba da árvore rei. Tarzan elas eram para mim. No entanto, em sua brincadeira, ganhava quem conseguia se gangorrar mais alto.

A CORDA é um dos brinquedos favoritos das crianças, mesmo quando não se tem a corda se inventa uma corda-cipó! Na hora do recreio a corda e a BOLA são os mais requisitados. Ma, a bola deixarei para mais tarde, pois tenho muuuito a falar dela. Voltemos à corda. “O homem bateu em sua porta e eu abri…”, salada-saladinha, foguinho, cobrinha, trenzinho, cabo-de-guerra, balanço… Tantas coisas! Ainda bem que a corda existe!

Assim como a corda, o TECIDO é um brinquedo com múltiplas possibilidades. Talvez não muito difundido ou incorporado na seleção de brinquedos. Mas digo que é um ótimo brinquedo. Tecidos cortados em quadrado, de variadas cores e texturas, dobrados e organizados em uma cesta de vime ou em uma caixa de papelão encapado de tecido (para ficar mais bonita a composição). Quantas coisas eles podem se tornar! Capa de rei ou princesa, toalha de pique-nique, barco, ilha, coberta, travesseiro, bola e até CABANINHA! Vocês já perceberam como as crianças gostam de brincar de cabaninha? E tudo vira casa (as almofadas do meu sofá que o digam!). Será porque remete a um ninho, aconchegante, gostoso que foi a barriga da nossa mãe?

Na tenra infância um dos primeiro brinquedos do bebê, além dos emborrachado para morder, são os CHOCALHOS. Mas posso afirmar, que não são só os bebês que apreciam e usufruem deste brinquedo sonoro, os grandes também.

Com um TAMBOR, CHOCALHOS e APITOS já se tem uma banda mirim! Que tampemos nossos ouvidos, porque o barulho, quer dizer, a música é grande.

Outros brinquedos que não podem faltar nessa lista são os BARQUINHOS, CHAPÉUS e AVIÃOZINHOS DE PAPEL (este último sugestão do meu filho de 10 anos, a professora dele que o diga como ele gosta de aviãozinho de papel! É até engenheiro mestre no assunto, título ganho honorariamente pelos colegas). Mas me diga, quem nunca soltou barquinho de papel na enxurrada da chuva ou no tanque de casa? Quem nunca usou um chapéu de papel e marchou como soldado? Quem nunca soltou aviãozinho de papel na sala de aula que atire a primeira pedra, quer dizer, papel. Brinquedos provisórios, efêmeros, mas riquíssimos no seu processo de feitura. Ainda mais quando a própria criança consegue confeccioná-lo.

Finalizo aqui esta lista com a BOLA, brinquedo tão querido pelas crianças. Acho que logo que o homem se entendeu por homem ele fez bolas para as crianças brincarem e eles jogarem. Bola de meia, bola de gude, bola de papel, bola de pano, bola de lã, de borracha, de couro, de plástico, de madeira, pequena, média e grande, bola de todas as cores. BOLAS ora bolas. Em casa tenho várias e várias delas, meu pequeno é alucinado por bolas, nunca o levei para mergulhar na piscina de bolinhas, tenho medo que ele fique excitado de mais e entre em êxtase (E isso é bom ou ruim?).

Lá na Amazônia, vi um caboclo que fez uma bola com um cipó verde, enrolou como um novelo de lã, passou o látex (da seringueira) e deixou secar, no dia seguinte ele tinha uma bola, um tanto dura, tenho que confessar, mas rolava e como rolava! Na minha casa abri espaço para os brinquedos habitarem vários cômodos e lugares. Na lavanderia tem um cesto de vime cheio de flores de tecido onde mora o Zé medonho, boneco do teatro de mamulengo, feio que dói, por isso o nome. Ele fica lá, na altura dos olhos do pequeno, que ao passar seguindo para o quintal, sempre brinca um pouquinho com o Zé medonho. Na cozinha, não tive dúvidas, montei uma cozinha para as crianças. Em cima da mesa de madeira (que a vovó carinhosamente enfeitou com mosaico), tem panelinhas, pratinhos, copinhos , uma cesta cheia de frutas e legumes crec-crec e outra cesta pequenininha cheia de sementes (lembram-se delas!).

É hora do almoço, eu cozinho aqui e eles lá. Na sala um cantinho onde moram os brinquedos de baixo (como moro em um sobrado é impossível realizar translados diariamente. Por isso é lei: os brinquedos de baixo não podem subir e os de cima não podem descer!). Na estante de livros moram os bichos de madeira que pulam, o palhaço gira-gira e o Pinóquio (sem chapéu). No meu quarto, assim como tenho meus livros em cima do criado, eles têm os deles em cima do banco. Quando deito pra ler, os dois deitam também.

Que bom, silêncio! No escritório deixo sempre disponível no chão uma folha grande (dessas de flip chart) e giz de cera de abelha (a cor é mais viva e é atóxico) formato retangular (mais fácil para o pequeno manusear e não quebra facilmente como os de bastão). Como os brinquedos estão espalhados pela casa, no quarto deles não temos um local entulhado e poluído visualmente, propiciando, assim, um sono tranqüilo e isento de um quadro alérgico. É lá, no quarto, que mora os bonecos e bonecas, os livros (a maioria deles) e os brinquedos mais delicados.

Na varanda um balanço e o cavalinho de balanço. No quintal o velotrol (aquele antigo da bandeirantes, o mais simples de todos), a bacia de areia, com baldinho e pás e as ferramentas de jardinagem, assim posso mexer nas minhas plantas sossegada enquanto eles mexem nas deles. Como falei no início do texto, é no brincar que a criança se desenvolve. Elas não precisam de nada muito sofisticado. Pelo contrário, elas precisam de brinquedos que exercitem sua imaginação, que, assim como um músculo, precisa ser exercitada diariamente.

Portanto, que utilidade tem um brinquedo que brinca sozinho, pois anda e fala apenas com um toque? O vídeo game desenvolve o quê? O tablet exercita algum tipo de imaginação? A televisão possibilita o exercício da relação com o outro? Não sou contra a nenhum deles, mesmo porque não sou adepta a radicalismos, entretanto, lanço as seguintes perguntas: quanto tempo seu filho brinca de verdade? Quais são os brinquedos que compõe sua coleção?

Criança precisa de pouca coisa e muito afeto, atenção e amor. Criança é como um brotinho de planta, depois de germinada, precisa de terra BOA, água e luz. À medida que vai crescendo nos presenteia com anedotas simples assim: – Um dia eu vou subir numa árvore alta e pegar o sol. O sol é macio? – é muito longe, não dá pra pegar o sol, querido. – eu subo em uma castanheira!*   Ouvi certa vez que a “menina é a mãe da mulher”, tenho certeza disso, assim como “O menino é o pai do homem”. Hã, quantas brincadeiras meninos e meninas precisam brincar na infância? As brincadeiras… Mas estas são assunto para outro texto.   *

Diálogo retirado do site WWW.tsuruhaus.com     Texto: Mariana Vilela


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