A maternidade é uma das questões mais determinantes da condição do gênero feminino: desde que nascemos, sentimos a pressão sobre esse assunto. Só quando nos tornamos mães que as histórias se materializam. Mesmo quase em 2015, ainda é assustador como mesmo na condição de mães, ainda acontece um discurso atrasado em relação aos próprios direitos das mães autônomas. Esse texto nasceu como réplica a esse texto (é só clicar).

Há pais que escolhem não ser pais. Assim como existem muitas mães que são um entrave na relação pai e filho. Mas é pelo amor de mãe e desgaste emocional e físico de ficar tanto tempo por conta da criança, que a justiça existe. E a justiça não é santa nem perfeita, porque conhecemos advogados e juízes questionando a veracidade ou motivação de mães que lutam por uma vida mais digna e tranquila (por que não?). São elas que sem um marido ao lado, geralmente sem dinheiro para babá e sem coragem de se informar melhor, acabam sem tomar nenhuma medida judicial por medo: da sociedade, das famílias, do que os outros vão pensar. Criar um filho suprindo a ausência do pai é surpreendentemente diferente de deixar o filho pro marido cuidar.

A sobrecarga de se preocupar com quem o filho está na sua ausência, se comeu ou não, se tomou banho ou não, de conseguir falar com a criança, geralmente está presente em grande parte da vida de uma mãe autônoma. E não é nada legal viver na corda bamba.

Quando um pai quer ser pai (de dar banho, dar refeições, limpar fralda, ensinar o certo e errado, perder noites de sono, abrir mão das noites de farra, chegar cansado do trabalho e dar atenção pro filho e por aí vai), não é a mãe da criança que é o entrave para isso. A ajuda da mãe pode abrir mais facilmente a porta… mas quem gira a maçaneta é o pai. Por esse motivo, dizer que é a mulher que gera um bom pai para a criança, acaba seguindo o senso comum com um argumento raso e de culpabilização das mulheres. Eu, como mãe autônoma, vivi com muito medo até de perder a minha filha por causa desse tipo de discurso, reproduzido insistentemente até pela minha família. E deixei de resolver na justiça algo que seria tirar uma liberdade que me causou muito desgaste emocional, graças a essa e outras formas de opressão e silenciamento. E digo mais: se o pai não teve educação para saber que a criança é responsabilidade dele e a consequência de ter um filho vai além de uma pensão, não existe mulher nenhuma que vai colocar isso na cabeça dele.

Mães ficam de mimimi? Sempre. Sejam autônomas ou não. Mas não é colocando culpa na resistência das mães que vamos criar pais melhores. Já vi um pai que pegava a filha pra passar o final de semana e esperava que as mulheres do grupo tomassem conta da filha dele. Isso acontece porque desde pequeno ele foi conviveu com mulheres o servindo e agora reproduz intuitivamente esse discurso de que cuidar da criança é uma tarefa feminina. A resistência de muitas mães autônomas tem muito menos de marra ou birra diante das muitas injustiças que nós, mães, vivemos. É por essas e outras que muitos pais esperam que a mãe da criança esteja sempre à disposição, principalmente naquelas que falta orientação legal e coragem. É muito ingênuo esperar que as mães relaxem após muito apanhar da vida, é desconsiderar a trajetória e história de cada uma dessas mães que vivem na angústia de não saber resolver conflitos com o pai da criança. Num mundo ideal, poderíamos esperar que as pessoas fossem sempre compreensivas. Esse mundo ideal está mais próximo de ser alcançado se você é um homem.

Pode parecer mimimi feminista com sangue nos olhos, mas um pai solteiro não é cobrado pela sociedade nem um terço do que uma mãe com o mesmo status. Por que não? Porque já ouvi, já li e sempre leio acusações de que mães fazem questão de pensão até para ficar saindo e deixando o filho com parentes (que mãe autônoma nuuuuuuuunca ouviu isso? hahaha). Mas pera lá. Eu não posso sair? Eu não posso me divertir? Por mim, eu iria num juiz, abria mão de pensão em nome do meu sossego e em um pouco de responsabilidade dividida de forma justa e sem dor de cabeça e joguinhos. A minha vida pessoal não interfere na mãe que eu sou, o mesmo devia ser válido para os pais também. Devemos lembrar que uma pensão alimentícia é usada como justificativa, arma e moeda de troca para muita coisa. E quem tem a boa fé questionada, geralmente é a mãe autônoma.

Perguntar qual a diferença de uma mãe solteira para uma mãe bem casada, bem de vida, bem resolvida e aparentemente angustiada com as extremistas mães autônomas, é um pouco cruel. A diferença é: você deixaria seu filho com uma pessoa que você não conhece? Talvez por essa falta de diálogo e abertura, muitas mães fiquem cheias de “manias”. Isso pode ser o reflexo de uma mãe tentando compensar e fazer o trabalho de dois. Cuidar é responsabilidade do pai e da mãe. Quando fica o cargo para um só, desbalanceia e fica impossível ser uma mãe perfeita, profissional perfeita, dona de casa perfeita e exemplo a ser seguido. Eu, do auge de todos os problemas que já enfrentei, todos se relacionavam ao cuidado ou a respostas que nunca tive. Já me aconselharam a ser mais mãe quando questionei incisivamente sobre um fato. E, claro, quando conveniente me pediram para deixar de lado tudo o que passou. Inclusive passarem por cima da minha autoridade de mãe.

Se uma criança tem pai e mãe, e o pai pede pelo seu direito de ter a criança, então ele tem que exercer o papel de pai, e não somente de amigo, digamos. As particularidades das situações depende sempre do caso. A lei e as normas estão aí, mas cada caso precisa ser contemplado com aquilo que é mais justo e diálogo é fundamental na criação de uma criança, e por mais que a relação talvez tenha fracassado a criação tem que ser uma parceria.

Agora… não seria muito mais fácil se pais e mães solteiros dialogassem em prol do filho e dividissem as responsabilidades, as culpas, os fracassos e os sucessos? No fim das contas isso só soma para a criança! Ao meu ver, se eu como mãe solteira tenho que arcar com a responsabilidade, o pai também tem, não importa onde esteja trabalhando ou qual seja a sua dificuldade em fazer uma ligação por semana. A criação ativa do pai e da mãe só beneficia o filho. Nossa sociedade é desigual e a balança tende a favorecer o lado do homem. Os casos dos filhos negligênciados pelos pais são mais frequentes e por isso há uma demanda muito grande por informações da parte materna. O que precisa ser avaliado sempre é se o pai e a mãe irão prover informações, cuidados e acima de tudo confiança para criar o filho. Se as coisas acontecerem dessa forma, duvido que as mães sejam um entrave.


Deixo aqui alguns links que podem esclarecer pais e mães! Vale dar uma olhada:

Associação para a Igualdade Parental e Direitos dos Filhos

Jornal do Senado – Especial Cidadania

DireitoNet – Sobre Guarda Compartilhada e Alienação Parental Esse texto foi construído com a ajuda de um pai que trabalha, faz faculdade de letras, cuida da filha e é uma pessoa incrível. Obrigada, Gabriel Emílio!


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