Tenho dois rins. Para quê? Posso viver muito bem com apenas um. Vejam o rei Pelé! Alguém me opera, por favor. Quero retirar um rim. Por quê? Meu corpo, minhas regras! Ah, não pode retirar um rim sem justificativa médica, seu dotô? Mas é uma cirurgia simples… Médico nenhum faz cirurgia nenhuma porque o paciente quer, precisa de justificativa médica, certo? Então porque defendemos o direito de escolha da mulher pela cesárea?

Quando me internei para induzir meu parto, a pergunta que mais escutei foi: para quando está agendada sua cirurgia? Eu estava me internando para tentar uma indução que evitaria a cesárea e não queria nem ouvir falar em cirurgia. Eu estava com tanto medo de precisar operar para meu bebê nascer que aquelas indagações insistentes estavam me deixando apavorada. Minha obstetra quase fez um bilhete para pregar na porta, escrito: paciente de parto normal, não perguntem sobre cesárea. Depois do parto, identificaram minha maca bem assim: Paciente – Mariana / Cirurgião – Jaqueline. Mesmo não havendo cirurgia nenhuma, minha obstetra foi identificada como cirurgiã. O motivo disso tudo? Eu estava em um hospital particular, minha internação era paga por um plano de saúde e o normal nessas condições é a cesárea. Parto é exceção. Parturiente é minoria.

A cesárea é uma cirurgia que salva vidas todos os dias, sabemos. E é também uma cirurgia que põe vidas em risco todos os dias, convenhamos. Ela não deve ser a forma de 80% dos bebês nascerem nos hospitais particulares. Como bem disse nosso Ministro da Saúde ao anunciar a obrigatoriedade do partograma: estamos encarando uma epidemia de cesarianas. Agora, os planos de saúde não serão mais obrigados a cobrir as cesáreas eletivas, somente as com indicação clínica. Não parece lógico?

Curioso como o anúncio dessas medidas desperta discussões sobre o direito de escolha da mulher. Ninguém está falando em obrigar as mulheres a parir. Apesar de eu pensar que, uma vez disposta a ter filhos, a mulher deveria concordar com o parto ao invés de desejar fugir dele. Mas se, por qualquer motivo ou por conveniência, a mulher desejar agendar sua cesárea e se o médico concordar, pode operar. O plano de saúde é que pode, agora, não pagar ao médico por essa operação.

O que comemoramos com as medidas recém-anunciadas é a obrigatoriedade de justificativa médica para a realização das cirurgias de extração fetal – a cesárea. Se justificativas mitológicas como circular de cordão, muito líquido, pouco líquido, bebê pequeno ou grande demais serão aceitas, é outra conversa. O que comemoramos é que, para haver partograma, é preciso haver trabalho de parto, e assim nos parece que os médicos interessados em receber por seus serviços irão incentivar suas pacientes a aguardar o início natural do trabalho de parto, uma atitude simples que pode evitar o nascimento de prematuros e diminuir a necessidade de estada nas UTINs. Por isso tudo, brindemos!

Mas é importante ressaltar: as medidas anunciadas são um primeiro passo em direção à diminuição das cesáreas desnecessárias. E em direção à humanização do parto, o que se tem feito? Não defendemos o parto normal a qualquer custo. Defendemos o respeito ao corpo, à saúde e às escolhas da mulher. Não queremos que as mulheres sejam encaminhadas a partos violentos, assistidas por profissionais intervencionistas. Porque a um parto traumático nós também preferimos uma cesárea respeitosa. Por isso queremos um futuro com mais obstetras parteiros e menos cirurgiões.

Queremos que as mulheres tenham a possibilidade de parir com acolhimento, respeito e amparo emocional. E queremos que possam fazer isso sem precisar dispor de pequenas fortunas. Sem precisar estudar tanto. Sem precisar questionar médicos, famílias, sistemas. Queremos que as mulheres nem precisem se preocupar com isso, que o parto seja um fim natural para suas gestações. Porque hoje, se não se preocupam, terminam sendo operadas. Queremos que, quando sentirem medo de parir, sejam encorajadas a transcender esse medo, ao invés de receberem um opção de fuga. Que seu refúgio seja os braços de uma doula, ao invés de uma anestesia.


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