Pintura Amanda Greavette

 

Esse texto foi construído a partir da minha experiência clínica e teórica como Psicóloga e como mãe que se debruça sobre o universo do parto, sobretudo no espaço virtual de grupos de parto humanizado. Tendo essas duas vertentes decidi fazer um texto sem comprometimento científico, apenas um diálogo de uma psi observadora, sobre o tão falado Protagonismo Feminino.

Nas redes sociais podemos perceber como as pessoas buscam incessantemente um mestre que lhes digam como e pra onde caminhar. Quem nunca viu nos grupos virtuais perguntas como: o que acham da minha mãe assistir o meu parto? Esses questionamentos, em geral, vêm de um momento de desorientação, não só técnico-cientifico, mas do próprio desejo. Que tal se perguntar: quem eu quero do meu lado nessa hora? Como elas se comportam quando estou em situações limitrofes? As respostas podem te surpriender!

Talvez a distinção necessária aqui seja entre os conceitos: vontade e desejo.Um não é maior do que o outro. A vontade a gente sempre conhece, já o desejo…. Atrás de uma vontade tem sempre um desejo e serem coincidentes não é uma regra, na maioria das vezes é a excessão. Por exemplo, a pessoa pode ir a mil médicos querendo se livrar de uma diarréia que a acompanha sempre, por nada e por tudo. É sua vontade se livrar dela, mas o seu desejo inconsciente é se manter “desandada”, pois foi assim que ela aprendeu que seria amada, sendo a doente da familia. Ela pode fazer uma colonoscopia por ano e não obter nenhum diagnóstico ou ela pode buscar um caminho de trabalho que a coloque de frente ao seu inconsciente.

E aí, o que fazer? Uma vez entendido o processo psíquico da construção do sintoma, não precisamos ser escravos do nosso desejo! Podemos colocá-lo a favor de uma vida melhor. E aí, talvez e, por exemplo, ” desandar” o sistema e parir naturalmente, sem que isso lhe custe nenhuma “prisão de ventre”.

Quando se começa a ler os relatos de parto, vendo as fotos lindas, todas esperam um parto extraordinário. Para ser espetacular seu parto não precisa ser de gêmeos, pélvicos e empilicados, no mar e com golfinhos! Se for, me mande as fotos. Se não for, será fora de série, pois foi o seu parto possível. Pode ser que ele demore mais do que pensou, que tenha mais gases do que você queria, mais intervenções do que você almejava. Mas ainda assim será o seu parto.

É ótimo o sentimento de pertença a um grupo. Ele nos faz sentir parte de um todo. Mas parte não quer dizer igual. O primeiro grupo ao qual pertencemos é a família. Na adolescência destoamos desse ambiente conhecido para construir outros laços. Lançar-se nesse novo mundo tem a intenção de nos apresentar num universo de possibilidades para além dos muros de casa. E isso é bom. É necessário, inclusive. É esse processo que nos ajuda a sair da condição infantil, les infan, aqueles que são falados, para a a fase adulta.

Contudo, venho observando um fenômeno interessante. Noto que há uma busca por adesão e aceitação a esse coletivo pelo espelhamento. Se em sua maioria as mulheres que já fazem parte desse grupo são vegetarianas, eu, viro logo vegana que é para garantir. Caricaturas a parte, o que tento dizer é que não sair do casulo e fazer tudo o que os familiares esperam é alienação. Isso não é um julgamento moral. É uma constatação. Quer dizer que naquele, momento você fez o era possível fazer, com os recursos emocionais existentes. Uma cesariana, por exemplo. Essa experiência não levará ninguém ao purgatório materno/freudiano/feldminiano. (Essa expressão foi inventada!)Ela é apenas uma experiência. E como tudo que tem valor emocional pode ser retificado, significado e ressignificado quantas vezes você se propor.

Na outra ponta, buscar o parto normal humanizado para ser o avesso das experiências nucleares, te mantém na mesma referência. Fazer algo ou deixar de fazê-lo em função de alguém te conecta ao desejo do outro e não ao seu. Nessa posição o grupo externo é colocado na posição de mestre. O discurso da mulher, nesta condição, busca alguém que lhe dê o caminho das pedras. Já o do mestre quer dar o caminho que tape todos os seus furos. É casamento perfeito, não é!? É o lé com crê. Mas nesse jogo ninguém é senhor do seu desejo. Ninguém é sujeito e sim assujeitados as próprias vontades de serem plenos. Tornar-se um ser desejante pressupõe lidar com as falhas. Só há desejo se há falta. E isso é um saber construído.

Esse trabalho não passa pela identificação massissa, mas sim pela aceitação das diferenças. Então, OK se você é a mineira mas gaucha que existe e sua doula só come veg. Tudo bem se sua mãe achar que você é um bebê que vai parir outro bebê e sua sogra cura humbigo com fumo de rolo. Tudo isso pode coexistir no mesmo lugar. Um desejo não aniquila o outro. Até porque todos que te amam querem te ver feliz. E pra isso, você precisa apontar ( protagonizar) para o seu desejo.

O empoderamento não está no parto normal, está em você! Em qualquer situação ele sempre esteve e sempre estará em você. O parto normal humanizado é uma excelente ferramenta para alcançá-lo. Ele nos leva aos nossos extremos, ficamos frente a frente como nossos limites e para ultrapassá-los precisamos nos responsabilizar pelo nosso desejo. Quer um parto normal? Então terá que sustentá-lo emocionalmente e colher tudo que ele trouxer de bom e ruim. E aí, construído isso, quem sabe, durante o trabalho de parto você não prove a feijoada vegetariana da Doula, receba o cafuné da sua mae e… Ah fumo de rolo não, né. Rsrsrs brincadeira, ou não.

Nota sobre a imagem: Quadro “Moisés” 1945, da pintora mexicana Frida Kahlo. Encomendado para retratar o livro de Freud, com o mesmo título. Uma das interpretações possíveis é a influência social/cultural sobre a formação dos novos seres e como é necessário um, ou vários, renascimentos para nos libertar do peso da escravidão, seja ela uma ideológica, um sistema ou nós mesmos.


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