Meu trabalho de parto começou no domingo, 7 de setembro, dia em que acordei conversando seriamente com o bebê, em cima da bola de pilates: “está na hora de você se aquietar para nascer”.  Durante toda a gestação o bebê se mexeu muito. Começou a se mexer antes da metade do quarto mês e daí em diante de forma crescente, especialmente à noite. Eram sessões de uns bons minutos de desassossego no final da gestação e, ao me aproximar das 40 semanas, esse comportamento me levou a acreditar que a gestação se prolongaria. Todos diziam que o bebê ficaria mais quietinho alguns dias antes de nascer, e era por esse sinal que eu esperava. A barriga enorme, as dores ósseas e o remelexo do pequeno me fizeram ter aquela conversa franca com ele naquele domingo. Meu avô materno me chamava de agoniada na infância, pelo gosto de não parar quieta; meu filhote parecia ter herdado o apreço pelo movimento e ignorado o pedido.
Ao meio-dia senti a primeira contração. Eu desejava tanto que o momento do trabalho de parto chegasse que desconfiei do meu julgamento: devem ser pródromos, é uma cólica tão leve, eu ainda nem perdi o tampão. Meu marido começou a anotar o intervalo das contrações-cólica e isso aumentava a minha ansiedade. Os intervalos não estão regulares. Não era pra eu sentir mais uma agora?
Havia um quadro branco em nossa parede com os três motivos pelos quais ligar para a doula: dez contrações em uma hora, rompimento da bolsa e dúvida. Ficamos com a dúvida e ligamos pedindo orientações. “Você está começando o trabalho de parto, se alimente bem, procure uma posição confortável durante as contrações e anote os intervalos entre elas. Quando precisar me ligue e irei até aí”. Eu duvidei: mas está tudo tão tranquilo, eu quero muito que seja o trabalho de parto, mas não parece.

Fui assistir a filmes ruins com meu marido, para rir e me distrair da tensão e da ansiedade. No final do primeiro filme ele, ao informar o intervalo e a duração das contrações para a doula, resolveu ser o momento de chamá-la até nossa casa para nos auxiliar. Eu discordei, não senti que precisava de nada além da companhia de meu marido e da distração dos filmes para lidar com aquele momento.
Ela chegou e me senti ainda mais tranquila. A tensão das anotações de contrações cessou, o auxílio com a respiração ajudou. Eu interagia com o ambiente e em curtos momentos me voltava para a sensação das contrações. Depois de um tempo em casa e de minha tentativa frustrada de descansar, a doula disse que ainda demoraria para engrenar o trabalho de parto, que voltaria para casa, que eu descansasse e ligasse novamente quando sentisse que precisava ligar. Senti desânimo e medo de que as indicações de TP cessassem.
Não demorou muito mais de uma hora depois de sua partida para o cenário mudar totalmente. Eu não conseguia mais assistir ao filme que passava na tevê, ficava mais de olhos fechados prestando atenção a meu interior que aos estímulos externos. E meu interior sentia frio e calor, sentia ânsia de vômito, sentia algo longe de cólicas, sentia um descontrole muscular tal cãimbras no baixo ventre seguidas de fisgadas pungentes na lombar. Eu pedi a meu marido uma massagem vigorosa na lombar na sequência das contrações, não conseguia mais lidar com a dor sem intervenções. A posição agora era só uma: sentada na beira da cama. Vocalizar um grande “ahhhh” ajudava e a essa altura eu não mais os continha por vergonha. A doula chegou e eu já estava em um estado naturalmente alterado de consciência. Recusei uma manta aquecida e extraía meu alívio das massagens nas costas. Ela recomendou a meu marido que dormisse, para que pudesse estar descansado e me ajudar. Ele dormiu um pouco e acordou quando eu não mais conseguia me manter sentada durante as contrações e ficava em pé no canto do quarto, me movimentando e buscando alívio. As contrações estavam começando a ficar intensas e fraquejei pela primeira vez. Eu disse à doula que não daria conta, não conseguia imaginar que aquele desconforto era o início de uma jornada que eu finalizaria. Eu precisava encontrar um ponto de apoio seguro que me permitisse atravessar com coragem aquele percurso. Foi quando chamei meu marido para o chuveiro. A água quente massageando as minhas costas trazia alívio durante as contrações enquanto eu despejava todo o meu peso nos ombros do meu marido, fazendo a báscula do quadril e flexionando os joelhos. Ao final das contrações eu recebia uma massagem intensa na lombar e então abria o chuveiro para sentir a água gelada me trazendo de volta à consciência. Por vezes pedia para beber água nesses intervalos, que foram se estreitando cada vez mais, ao ponto que o tempo de meu marido trazer um copo d’água era o limite da próxima contração. Assim ficamos por cinco horas, mais ou menos, alheios ao mundo, às horas, a tudo que não fosse permitir que meu corpo realizasse o que era necessário. Nessas cinco horas houve vários momentos em que tudo o que conseguia pensar era como conseguir uma analgesia. Houve também muitos momentos de reafirmação da minha potência. Eu era capaz, eu estava conseguindo, estava indo bem, estava linda! E como eu estava grata. Debaixo daquele chuveiro eu e meu marido fizemos um pacto secreto de confiança e entrega. Estávamos juntos entregues àquela experiência – e ele me doulava de maneira sublime. Nosso objetivo era o mesmo e o buscávamos como unidade. Começávamos ali a rede de segurança que tanto nos ajudaria depois da chegada do filhote.
O despertador que nos acordava diariamente tocou anunciando as seis horas da manhã. Soava implausível, tamanho o arrebatamento do fluxo em que nos metemos. Eu só me lembrava do grupo de gestantes que frequentamos e da ideia que fixei através dele: o período de transição da dilatação do colo de útero à fase expulsiva do TP era o pior, o mais intenso e menos espaçado para as contrações. Eu estava terminando de passar por ele e sentia então uma vontade leve de empurrar. Estava tão desnorteada que me esqueci de comunicar isso à doula. Mas, graças ao despertador, retomamos o contato com o mundo, o que significou fazer exame de toque, constatar oito centímetros de dilatação e planejar a saída para o hospital.
Segunda-feira, fluxo para o Centro de horário de rush. Foram quarenta minutos até o hospital sem a possibilidade de ficar na posição que me aliviava – de pé -, sentindo cada irregularidade do asfalto, cada trepidação intensificando as dores. O trecho de paralelepípedos um pouco antes da chegada ao hospital pareceu interminável. Ao chegar, meu marido foi dar entrada em minha internação e retirar a chave do quarto em que nós ficaríamos. Enquanto isso eu tentava caminhar por um corredor do hospital, aliviada por estar novamente de pé, junto à doula. Eu passei mais tempo esticada contra a parede recebendo massagens que conseguindo andar de fato. Subimos até o quarto – o último do corredor – e voltamos ao ambiente escuro, à nudez e, para minha satisfação, ao chuveiro. Mais um exame de toque, estava com dilatação total, mas a bolsa das águas estava funcionando como uma barreira impedindo o bebê de descer, e não parecia dar sinais de se romper. A partir dali a instrução era me movimentar bastante, simulando pulos com a flexão do joelho, para facilitar o rompimento da bolsa. Foram mais três horas debaixo do chuveiro, agora o do hospital, com meu marido, enquanto a doula e a enfermeira obstetra faziam a verificação das condições do bebê e me orientavam quanto ao curso do TP. Estava claro para mim que meu TP estava estagnado. Fazia algum tempo que sentia as contrações com a mesma intensidade e regularidade, a vontade de empurrar ainda era fraca. A doula me disse que a obstetra, que estava a caminho, sugeriria o rompimento da bolsa quando chegasse. E assim o fez. Eu havia lido casos de rompimento desnecessário e incorreto da bolsa que prejudicaram a saúde da criança e tive muito medo de realizar o procedimento. A obstetra garantia que era o recomendado para meu caso e me explicava o que aconteceria depois do rompimento: eu sentiria vontade de empurrar e as dores diminuiriam. Se até aquele momento o meu corpo conduziu meu parto, exigindo apenas conformidade, era chegado o momento de produzir uma decisão racional, uma escolha ativa e consciente, quando eu me sentia incapaz demais, com medo demais de decidir por mim mesma. A princípio quis tentar a execução de mais movimentos e aguardar um rompimento espontâneo. Eu temia pelo bebê, temia pela novas dores do período expulsivo e queria não precisar tomar uma decisão ativa para que o trabalho de parto evoluísse. Uma hora e muita insistência depois eu tive a coragem de permitir que  o desconhecido fosse então instaurado sem que eu eu estivesse anestesiada – denotativa e conotativamente. Esse foi mais um momento de grandeza que o parto me trouxe: um salto de fé compulsório, um precisa-acontecer-quer-você-esteja-confortável-ou-não.
Muitos não sabem que se escolhe um parto natural, sem alívio farmacológico da dor, não porque se deseja sofrer, mas porque uma analgesia aumenta exponencialmente e em cascata a possibilidade de intercorrências no parto, muitas delas indesejadas pela mulher e prejudiciais para o bebê, como a necessidade de se parir em posição ginecológica – uma posição anti-fisiológica, em que se empurra o bebê contra a gravidade -, de se fazer uma episiotomia, corte na vagina em grande parte necessário a uma mulher em controle da própria musculatura e livre para se mover, de se extrair o bebê a vácuo ou fórceps. Opta-se por encarar a dor porque ela é gerenciável e porque encará-la é a melhor forma de garantir um período expulsivo eficiente e livre de intercorrências.
Após o rompimento da bolsa fiz força para o bebê descer ele desceu três centímetros. Depois disso eu me lembro pouco, estava em um estado de consciência alterado novamente, mas sei que as dores foram quase totalmente suavizadas pela vontade irresistível de empurrar o bebê. A sensação que tinha era a de duas forças de grande magnitude – a contração e o puxo – se anulando, tornando o período expulsivo o que menos envolvia sensação de dor. Eu me sentia potente novamente a cada força e sentia aquela saga chegando a uma conclusão. Até que a obstetra avaliou o andamento e disse “Vai nascer, vamos para o CO”. O último quarto do corredor parecia infinitamente distante do centro obstétrico, a caminhada era acompanhada de contrações, puxos e paradas. Estranhei o ambiente do CO: uma cama alta, aparelhos e uma bancada de instrumentos. Eu treinava há um mês para parir de cócoras, como eu iria parir de cócoras ali?
Um arranjo de panos e banqueta e logo tínhamos um cantinho para que eu ficasse de cócoras. Numa outra sala eu ouvia outra mulher a parir, fazendo os sons mais incríveis que já ouvira. Eu não estava gritando daquele jeito, será que seria mais fácil para mim? Algumas contrações, parecia bem mais difícil empurrar um bebê que o epi-no (aparelho de treino de expulsão). A obstetra então verificou que a posição da cabeça do bebê não estava favorável, seria preciso rotacioná-la 45°. Fui para aquela mesa alta cuja função eu não havia compreendido e senti as dores fulminantes de contrações sem alívio devido à limitação de posição. Foi desesperador.
Impedir que mulheres se movam livremente em seus trabalhos de parto é uma crueldade desmedida, algo próximo à tortura. Felizmente já vigoram as recomendações da OMS descreditando o mito da posição de litotomia e da restrição de movimentos, enquadrando seu uso irrestrito como violência obstétrica. Eu desejo que representações midiáticas ajudem a desconstruir essa ideia tão imiscuída no imaginário cultural, da mulher parindo deitada de costas com os joelhos flexionados, que reforçam e naturalizam uma prática tão contra-sensual e violenta.
Durante uma contração a cabeça do bebê foi rotacionada e pela primeira vez gritei como a parturiente que ouvi. Tão logo a manobra se findou voltei à banqueta. A banqueta não me permitia a amplitude de movimentos que havia treinado em casa, então pedi para ficar de cócoras sem ela. Eu conseguia então fazer toda a força que me parecia possível e me concentrava exclusivamente nisso. Esqueci inclusive de respirar profundamente, o que diminuiu o aporte de oxigênio para o bebê e fez seus batimentos cardíacos caírem. A vácuo-extração foi cogitada, mas antes recebi oxigênio e instruções de respirar funda e lentamente. Isso foi o suficiente para que os batimentos do bebê voltassem ao normal e eu pudesse continuar me dedicando a empurrar. Mais de uma hora de expulsivo e então a cabeça do bebê estava do lado de fora. Eu assisti a alguns partos em que a mulher se mantinha calma e relaxada após a expulsão da cabeça, aguardando a próxima contração que traria o bebê ao mundo. Comigo foi diferente. Aquela situação de transição entre mim e o mundo foi agoniante o bastante para que eu a tornasse breve, e logo o resultado daquele processo repousasse no meu colo, do lado esquerdo, se remexendo e chorando muito e muito alto.
Eu fiquei surpresa por ver um bebê! Estava todo o tempo tão concentrada em ouvir o meu corpo que desvinculei o nascimento do pequeno do trabalho de parto. Meu marido chorava e me dizia para dar as boas vindas, e assim o fiz, arrebatada pelo que me parecia tão inesperado e inacreditável. Não chorei, vivi intensamente uma descoberta extasiada por conhecer meu filhote. Ele tinha pés e mãos bem magrinhos, apesar de seus 3,750kg, e eu prometi dar a ele pés e mãos gordinhos – além de todo o amor do mundo, é claro.
Mica


_______________________________________

Dica: Conheça tudo sobre Chá de Bebê. Lembrancinhas, Decoração e muito mais. Veja aqui as melhores dicas sobre Chá de Bebê e me conte o que achou.

 

Vamos discutir este conteúdo? Deixe um comentário