Filho-gritando-com-a-mãe
*Por: Luzinete Carvalho

Publicado originalmente no Blog Mamiferas e autorização de republicação feita pela autora

Crianças não “tiram os adultos do sério”!

Adultos já estão “fora do sério”.

Adultos vivem “fora do sério” por questões pessoais!

Por suas próprias frustrações, preocupações, medos, mágoas, receios, pressa, pressões externas e internas, os adultos estão constantemente fora de si, desarmonizados, encolerizados, contidos, como bombas prestes a explodir.

O que acontece é que facilmente se deixam explodir quando precisam lidar com quem é menor, mais frágil, indefeso e que geralmente não precisam temer uma retaliação…

Antes de se permitir “sair do sério” com uma criança, reflita se você já não está “fora do sério” por outras razões em sua vida que só você pode (e deve) tentar mudar!

Pode ser a vida apressada, cheia de horários controlados por segundos preciosos, que não podem ser “perdidos” por causa de uma criança, que precisa andar mais devagar para olhar pedrinhas na calçada.

Pode ser as contas para pagar e os prazos para cumprir, que consomem, além de energia física, uma preciosa tranquilidade mental tão necessária para desfrutar da companhia dos filhos.

As expectativas pessoais que visam sempre um futuro melhor, mas fazem esvair por entre os dedos qualquer possibilidade de viver o agora, e tal impossibilidade grita através do choro dos filhos, que imploram agora a atenção de hoje.

Adultos estão constantemente “fora do sério” por causa das mágoas do passado, da pressa no presente e das angústias do futuro!

E as crianças, na verdade precisam de muito pouco, é que o pouco que elas precisam é algo que se tornou muito difícil para nós, adultos! Elas precisam de tempo de qualidade, de olhar demorado, de presença verdadeira, sem TV ligada, sem atender o celular no meio da brincadeira, uma volta na pracinha sem um “anda logo”.

As crianças não nos tiram do sério, não nos cobram nada, é que nós, preocupados, ansiosos e infelizes, nos sentimos cobrados internamente, e quando uma criança nos pede algo simples, lá no fundo sentimos vergonha, pois descobrirmos que somos, ou estamos, incapazes de realizar as coisas simples.

E são as coisas simples que carregam em si as maiores alegrias!

Nossas escolhas, conscientes ou não, determinam muitas coisas em nossas vidas, e as crianças chegam depois que muitas já estão solidificadas; e chegam em meio a um turbilhão de preocupações, prazos, horários, dívidas e metas, e as crianças chegam nos pedindo um pouco mais de tempo, passos mais lentos, olhares mais atentos, abraços sem pressa, sorrisos sem limites…

As crianças não nos cobram, elas nos mostram que estamos incapazes disso, e em vez de refletirmos que nossas escolhas podem não ter sido as melhores até então, ou que podem melhorar ou serem diferentes a partir de agora, a gente “prefere” brigar com as crianças, bater nas crianças, sair do sério com as crianças!

Os filhos nos lembram constantemente o que realmente importa, querem apenas um pouco mais da gente mesmo! Mas isso se tornou quase impossível, pois nem lembramos mais quem somos, perdidos entre as experiências do passado, a pressa no presente e o medo do que virá amanhã!

Não lembramos mais quem somos em meio a tantas preocupações e angústias!

Precisamos refletir não sobre os adultos que nos tornamos, mas sobre as crianças que nós mesmos um dia fomos!

Tentar lembrar o que sentimos, o que desejávamos, o que era importante para nós quando éramos pequenos!

Não existe criança que precisa apanhar para aprender, o que existe, infelizmente, é adulto que precisa bater para “ensinar”.

Bater, agredir, gritar, deixar chorar, apressar, negar, brigar, ignorar…

E isso tudo por causa de suas próprias questões pessoais.

É difícil e trabalhoso enxergar que o problema pode ser a escola que a criança é obrigada a frequentar, é muito difícil e trabalhoso enxergar que o problema pode ser o ritmo acelerado da vida que escolhemos.

Pode ser trabalhoso perceber que o problema pode ser as pessoas que rodeiam as crianças.

Pode ser difícil e doloroso enxergar que o problema pode ser a gente mesmo.

Por não conseguirmos mudar o contexto que vivemos, decidimos que o problema é a criança, e tentamos mudá-la de todo e qualquer jeito que pudermos.

Romper com o passado, mudar o presente e temer menos o futuro pode dar muito trabalho!

Então, decretamos que são as crianças que nos tiram do sério.

Quando cuidar e educar se limita a fazer dos filhos aquilo que a gente quer, quando se limita a enquadrá-los à força dentro de uma rotina alucinada, perdemos toda a leveza, a liberdade e a alegria.

Tudo se torna extenuante, e até o que é natural é percebido como se fosse um problema.

Existem métodos, dicas de disciplina positiva que podem indicar o caminho, mas não há soluções prontas, especialmente se o que os pais procuram é um método milagroso que elimine todo e qualquer conflito.

As situações tensas, os embates, as crises, sempre vão existir, e são parecidas em todas as famílias, o que difere é a capacidade que algumas pessoas tem de lidar com elas de uma forma mais leve e produtiva.

Não adianta querer ser imediatista. Criar e educar é uma construção diária, lenta, trabalhosa, que se prolonga por todo o tempo que durar a relação, ou seja: provavelmente a vida inteira.

O diálogo, a confiança e o respeito se constroem dia a dia nas coisas simples, nos detalhes.

Algo que aparentemente não deu certo em uma determinada situação pode ter sido uma semente a germinar e gerar frutos benéficos em um futuro próximo ou distante.

Nada se perde no que diz respeito aos cuidados com os filhos!

A maioria das situações de conflito que surgem, especialmente as rotineiras, as que se repetem, podem ser evitadas e contornadas.

Os momentos de crise, de embate entre pais e filhos, podem ser superados de forma harmônica e construtiva, se houver um pouco mais de paciência, boa vontade e tempo, três coisas que dependem dos adultos e não das crianças.

Carl Gustav Jung já dizia que se você encontrar algo que gostaria de mudar em uma criança, deveria antes se perguntar se não há algo que você deveria mudar em sua própria vida.

Por isso, antes de erguer a voz ou a mão para uma criança, reflita sobre o quanto está erguendo a mão para mudar o que não está bom dentro e fora de você.

Sempre há muito a ser mudado em nós mesmos quando temos o ímpeto de mudar algo em uma criança!


Luzinete Carvalho é psicanalista apaixonada pela mente e pela Alma humana, esposa do maravilhoso Renato, mãe do lindo Francisco de 3 anos e 9 meses, que a ensina a cada dia novas maravilhas sobre o mundo, a Vida e os seres humanos. Deixou temporariamente os consultórios e os auditórios para viver a maternidade com alegria e plenitude. Atualmente está desenvolvendo um projeto que colocará a Psicanálise a disposição da Maternidade e Paternidade ativas, sendo a ferramenta para a busca do auto conhecimento e para a construção de famílias conscientes, integradas e felizes.

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