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Relato de Parto

Doula atuando
Doula

Doula, jogue fora sua bolsa

Eu aqui sou cheia de manias desde 2014, quando fiz o Revelando Doulas, minha maior preocupação a partir desse dia passou a ser montar a minha “Bolsa de Doula”

Pesquisei várias coisas que poderia utilizar: elásticos para o cabelo da gestante, touca para banho, pente, óleos essenciais caros, óleos vegetais puros para massagear, bolsa térmica, bolsa de sementes, redinha para pescar , luz colorida para usar como terapia alternativa, caixa de som portátil com wifii, bolas suiças, livros de orientação, Epi-no que pedi para trazerem direto da Alemanha…

Passei a estudar muito também, quase em uma corrida contra o tempo, estudava um assunto e publicava minhas descobertas no blog, em um caderno a parte fazia minhas marcações que deixo guardadas para estudos depois.

Aos poucos fui reduzindo meu arsenal, nunca gostei mesmo de levar muitas coisas comigo seja dentro ou fora do parto.

Mas eu tinha um apego ímpar pelos meus óleos essenciais… Ah como eu acreditava que eles eram mágicos!

 

Laranja para dar energia e reduzir enjoos

Lavanda para relaxar e descansar

Gerânio para liberar as emoções

Hortelã pimenta para auxiliar nas dores musculares de ombros, quadris, pernas e braços

Sálvia esclareia, a mágica expulsadora de bebês e placentas que demoram a dequitar

 

Até o dia, o lindo dia, em que um bebê adiantou seu nascimento e meus óleos preciosos tinham acabado. Minha encomenda ainda levaria uns dias para chegar…

Cheguei na casa dela triste, angustiada. Como eu ia oferecer um bom trabalho seus meus óleos?

Pedi desculpas logo de cara. Ela sorriu e disse que tudo bem.

Eram 4:30 de uma manhã úmida quando o Frederico resolveu nascer. Ficamos todos muitas horas juntos. À noite ele foi recebido e ninado nos braços dos pais.

Durante todo esse período me peguei correndo os olhos para a minha bolsa desejando ter uma das minhas poções secretas, eu precisava delas. Até que um momento eu percebi isso.

Era eu quem precisava.

Foquei na parturiente, foquei nela, na sua força e no seu cansaço. Me entreguei ali sem pensar em concertar nada, ajudar nada, não havia nada que eu tivesse para melhorar. Ela dançava e cantava sua própria música de parir, cabia a mim apenas acompanhar seus movimentos e amparar quando ela precisasse.

Foi o que fiz.

Dias depois voltei vê-los com um medinho por dentro semelhante a quando somos criança se sabemos que fizemos algo errado, fui esperando algum feedback negativo sabe? Conversamos bastante eu e a mãe sobre a ultima semana, sobre o Fred, sobre o parto.

E confesso meus olhos marejaram tanto que as lentes dos óculos se tornaram embaçadas, algumas lágrimas escorreram ao ouvir dela: “SAm, sua presença fez toda diferença, eu sabia que estava tudo bem de olhar para você e ver a sua calma. E mesmo quando eu não acreditei em mim você estava lá sorrindo, acreditando mais do que eu.”

Não foram meus óleos, nem minhas massagens, nem meu rebozo lindo que comprei no Siaparto desse ano. Foi a presença e a segurança.

Obrigada Luiza, por essa linda lição:

A ferramenta mais importante de trabalho de uma Doula fica do lado de dentro.

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Parto, Relato de Parto, Trabalho de Parto

O sofá -Conto da Doula

Conheci a Lu e o marido dela em um dos cursos que ministrei na Unimed. Os dois muito atentos e com os grandes olhos atentos à tudo o que eu dizia.

-Sam, você tem agenda para nos acompanhar?

E assim começou começou nossa caminhada juntos.

Nos vimos mais uma vez antes do parto e conversávamos com frequência. A grande preocupação era que eles moravam em São Paulo e iriam ter o bebê aqui. Será que daria tempo?

As contrações começaram, eles esperaram o quanto puderam e pegaram a estrada. Os encontrei já na maternidade pela manhã.

Serenidade, era o que tinha nos grandes olhos castanhos dela, um sorriso frouxo mas cheio de orgulho “Está tranquilo ainda Sam… dá para encarar!”

Ela não quis se movimentar muito, não me lembro de ficarmos muito tempo no chuveiro também.

O que me marcou e vejo nitidamente é  ela sentada no sofá do quarto, janela ao fundo com um sol quentinho, rindo sem saber do quê e se desligando do mundo entre cada contração. Marido ao lado dela o tempo todo, com olhos arregalados fazia carinho nos seus longos cabelos negros e rosto rosado, parecia desejar tirar toda aquela “dor” para ele.  -Sam, isso é normal? Ela está bem?

Eu ria, e dizia que sim.

Lu, vamos andar um pouco?

Não… esse sofá está muito bom… – ela dizia e se ria– Vou ficar aqui pra sempre! 

Tempo depois, não muito, ela aceitou se levantar e apoiada na escrivaninha do quarto começou a rebolar, chamando pelo seu pequeno, seu pequeno bebê tão querido. As ondas das contrações agora vinham fortes frequentes, faziam seu corpo arcar com a intensidade.

Você consegue, está indo muito bem respira e solta o corpo, solta o corpo todo

Quantos anos foram até poder estar assim, tão perto de ter ele nos braços? O que será que se passava no coração desses pais?

-Estou sentindo ele descer Sá! Estou sentindo ele descer!

Ela pôde passar todo seu trabalho de parto alí no quarto, só nós três, equipe clinica vinha, examinava e deixava todos a vontade. Como é diferente quando o casal é bem tratado… como foi bom, para mim, sentir um ambiente seguro e poder apenas concentrar em estar alí e me conectar com ela através de massagens, abraços e olhares na medida que ela precisava, na forma que ela queria.

Dilatação total chegou logo, mudamos de quarto, fomos para o quarto PPP.

E ela sorria e ela fazia força e seu parceiro a amparava e ela sorria de novo e ela fazia mais força..

E ela pariu.

E ela recebeu seu bebê quente e perfumado no peito

E ela o beijou e o cheirou com tanta ternura

E ela sorriu

E eu era apenas mais uma observadora da vida, da força e do pulso, da entrega e do amor. Uma família nascia alí, aquele momento era sagrado demais para ser maculado com palavras. Gratidão transbordava em forma de lágrimas quentes pelo meu rosto.  Eles conseguiram!

 

 

 

 

 

Parte 2
Empoderamento, Parto, Relato de Parto, Trabalho de Parto

Importante e visceral: O Relato de Parto

Vivo pensando em formas diferentes de abordar o tão temido “parto” saindo um pouco dos padrões que encontramos (inventação de moda, como diria meu avô, de quem cursou publicidade e propaganda talvez).

Eis que ontem, das 9 am até 22:30 nossa página no Facebook as pessoas puderam acompanhar o relato de parto em tempo real da Fabiana e do Eduardo.

A ideia era criar as personagens e fazê-las viver, contar e permitir que as pessoas da rede social participassem de forma ativa daquele momento, com orientações, dicas, conselhos. E foi muito bacana o resultado  acompanharam, torceram, se indignaram, empoderaram junto com o casal.

As leitoras indicaram massagens de alívio, respirações, leis! Se identificaram nos medos, conheceram fases do trabalho de parto….

E eu aqui, do lado de cá, eu que já vi ainda poucos partos de perto, mas que já não posso contar nos dedos das mãos, passei uma tarde inteira, para conseguir desenvolver o relato.

Com um nó na garganta. Por que se o relato não era o meu? Nem de ninguém real?

Porque a gente sabe que tudo isso realmente existe, foi como se eu visse, pequenos fragmentos de cada parto presenciado e montasse o da Fabiana.  Inclusive o meu, que também foi no SUS. Meu parto que foi excelente, mas longe do que eu idealizava.

Parir com a Fabiana ontem, me ajudou a entender como é difícil expor o que foi vivido, mesmo sabendo que muitas coisas poderiam ter sido diferentes (mas não foram, porque parto é real, perfeição não é).

Expor o parto da Fabiana ontem, me fez ver também, de maneira gritante como é importante a representatividade, o quanto significou para quem leu vivenciar aquele parto “imperfeito” mas tão palpável que duvidavam ser de fato fictício.

Recebi mais de 10 mensagens inbox (para minha página que ainda é pequena, achei um número enorme), falando sobre o quando inspirou, perguntando como poderia ter sido diferente, o que mais poderia ter sido feito, agradecendo pois conseguiram se ver no lugar da personagem, pariram junto com ela.

Considerando que o parto, acontece primeiro na cabeça, acredito ter ajudado muita gente, com apenas um relato.

Você que me lê agora, provavelmente já pariu. Conte sua experiência, mesmo que pareça dolorosa, faz bem livrar o peito de pesos que não te pertencem.

Cure a sí mesma e inspire à outras mulheres, você é motivo de orgulho e inspiração, afinal nosso país ainda bate a taxa média de 80% de CESÁREAS, todos os partos normais são grandes vitórias!

Compartilhe sua história, fortaleça outra mulher, mostre que é normal ter medo, se sentir frágil mas que mesmo assim você conseguiu, superou seus medos e obstáculos.

Representatividade importa. MUITO.

(se quiser, confira as postagens do dia 27/10 aqui)