Empoderamento, feminismo, Sem Categoria

As feministas estão chegando. Estão chegando as feministas.

(A foto é de Kate T. Parker’s e foi tirada daqui.)

Nossas avós viram acontecer a primeira onda do feminismo, marcada pelo sufrágio, pela busca desses direitos básicos, como a oposição dos casamentos arranjados e o ingresso no mercado de trabalho. Nossas mães viveram a segunda onda, no início da década de 60, e buscaram as leis, a igualdade. Viram crescer a força do feminismo negro, ainda que bem antes disso mulheres negras já estivessem desafiando a branquitude e o elitismo do mesmo. No início da década de 90, já estávamos lá na terceira onda, consertando certas falhas da segunda, buscando a nossa liberdade sexual. Hoje, vivendo o que estão chamando de Primavera das Mulheres, também estão nossas filhas. Mas, afinal, se já faz muito tempo que as mulheres estão gritando, por que o patriarcado ainda é tão forte?

A minha avó não participou ativamente da primeira onda do feminismo. Provavelmente, ela estava muito ocupada tentando parecer doce, prendada, boa filha, esposa e mãe. Talvez ela tenha morrido sem ouvir a palavra feminismo uma única vez. A minha mãe, apesar de independente desde sempre, apesar de ter se juntado (casou no papel bem depois) com um homem divorciado que já tinha 3 filhos, apesar de ter estudado e trabalhado fora de casa, também não conhecia o feminismo. Ainda assim, lutou pelo seu espaço, provando que, mesmo sem teoria, as mulheres sabem o que enfrentam. Apesar disso, como a maioria dos meus conhecidos, tive uma criação machista. Eu, durante muito, muito tempo, fui reprodutora do machismo que me cercava não apenas em casa, mas na escola, na televisão, nos livros ruins que lia.

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Meu primeiro contato com o feminismo foi na internet. No falecido orkut, li uma menina discutir com um cara e despejar as palavras machismo e patriarcado. Fui pesquisar. Como estava na escola, estudando a ditadura, encontrei o nome de algumas mulheres e, na própria biblioteca lá de casa, li OLGA, que despertou em mim, de uma forma ainda bem superficial, a noção de que podemos ser fortes a ativas. Nesta época não conhecia nada sobre o feminismo negro, porque não tinha ninguém para me mostrar. Mas a internet evoluiu e, se antes, para ler, você precisava participar de um coletivo feminista dentro da universidade, ou dos partidos políticos, hoje você só precisa dela (repito: para ler). Claro que a participação não pode ser apenas online. Devemos ir para a rua, para os coletivos, devemos levar a luta para o nosso cotidiano e jamais acomodar com apenas portais e grupos no facebook. Mas o que eu quero dizer é que a literatura se tornou bem mais acessível e hoje somos capazes de encontrar apoio na própria internet. Talvez este tenha sido o motivo para eu não precisar morrer sem ouvir a palavra feminismo, como a minha avó.

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O patriarcado ainda é um senhorzinho forte e robusto, que faz questão de limitar as mulheres ao seu redor. E se ele está ficando cada vez mais acuado é porque a informação está chegando de forma mais natural para as próximas gerações. Eu não conheci o feminismo dentro da minha casa, mas a minha filha sim. E se eu tivesse parido um homem, ele também passaria pelos mesmos ensinamentos. Minha filha vai perceber o feminismo quando eu contar o quanto tive que lutar para que ela nascesse com respeito. Vai acompanhar a queda do patriarcado ao observar o seu pai ativo, que não ajuda e sim participa. Vai saber que pode sentar como quiser, vestir o que quiser, gargalhar alto e sair na rua sozinha. Sim. Sozinha. Minha filha não vai ter medo de apresentar o namorado, ou a namorada. Não vai se achar impura por sentir vontade de transar. Vai aprender que mulher não pode ser inimiga de mulher. Vai enxergar o machismo das novelas e filmes que assistir, ao invés de ser influenciada por eles. E se não conseguir enxergar nada disso, eu estarei lá para ajudar.

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Amora na terceira Marcha das Vadias que participou. A primeira foi no bucho. 

 

Talvez essa seja a diferença da primeira, segunda e terceira onda do feminismo. Não escrevi nenhuma tese para afirmar isso, mas a minha impressão é que o fato da informação estar mais acessível facilitou bastante as coisas. Não é difícil ver, por exemplo, a minha mãe compartilhando um texto feminista no facebook. Hoje, ela milita até nos grupos de whasttapp. Por que não foi ela quem me apresentou ao feminismo, se hoje ela se identifica tanto com a luta? Porque, na época, a informação não chegou para ela. Mas ainda assim, como várias outras mulheres, ela teve atitudes feministas ao longo da vida. E o machismo que a cercava causava a mesma estranheza que me causa. Têm mulheres negras de periferia que podem até não conhecer o feminismo, mas no dia-a-dia são tão feministas quanto qualquer universitária que funda um coletivo.

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Minha princesa sendo apenas ela. 

 

A hashtag #primeiroassédio mostrou pra todo mundo algo velho, muito velho, mas que algumas pessoas não conseguiam enxergar. E o mais importante: meninas que nunca falaram sobre isso fizeram questão de relatar o que passaram. Hoje nós já entendemos que caladas não vamos mudar nada. Se antes, ao me incomodar com uma piada machista, eu ficava constrangida, hoje eu fecho a cara e ainda explico o porquê de não ter gostado. Se hoje me chamam de chata, eu não vou correndo pro meu quarto, eu respondo que chato mesmo é ser perseguida pelo machismo em qualquer lugar que eu vá. E se tentam me silenciar, eu falo mais alto. Essa não é apenas uma mudança individual, estou cercada por mulheres que pensam da mesma forma e estão ensinando tudo isso para os seus filhos. Então, patriarcado, se segura porque tem muita feminista chegando por aí.

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5 Comments

  • Reply Luiza de Carvalho 17 de novembro de 2015 at 11:44

    Muito bacana! Concordo com tudo, só acho que não precisa exagerar, assim, não vejo problema em chamar minha filha de princesa, é só uma forma carinhosa, e não de diminuí-la ou fixar um “papel”…apenas uma forma de entrar na fantasia dela – às vezes gosta de ser uma sereia, outras uma onça, uma guerreira, e muitas vezes, sim, ela é uma princesa em suas brincadeiras. E meu filho também, inclusive.Parece bobagem discutir isso, mas é que às vezes eu sinto um certo “temor” em relação a algumas coisas que parece exagero demais, e mais que isso, parece a gente colocando intenções adultas e nossos próprios medos e preconceitos em brincadeiras simples infantis…enfim, deixa ela ser princesa e brincar que é dona de um castelo, se assim ela quiser! Não precisa ficar se “policiando”, evitando chamar assim…. um abraço e parabéns pelo texto tão lucido!

    • Reply Aida Polimeni 17 de novembro de 2015 at 16:26

      Oi, Luiza. 🙂 Brigada por ter curtido o texto. E sobre as princesas, concordo com vc tb. Ainda mais nos dias de hoje em que as princesas estão diferentes também. Tem até princesa negra (apesar dela passar o filme inteiro como um sapo hahaa). Mas é que a minha filha ainda não teve essas fantasias, não. Talvez pq ainda não assiste televisão, não sei. Não vou cortar o barato dela, não.Se tem uma coisa que ensino é que ela pode ser tudo que quiser. A brincadeira com a palavra princesa estar assim, é pq, querendo ou não, ela representa um forte estereótipo. Eu cresci sendo chamada de princesa pelos meus pais, mas não conseguia me enxergar uma. Não só por não ser delicada como a maioria costuma ser representada, mas pelas características físicas mesmo. Não é fácil crescer sem representatividade, sabe? Então eu vou me esforçar para mostrar a Amora que, além de princesa, ela pode ser milhares de outras coisas, como você faz com a sua. 🙂 Não me policio, só não me identifico com a palavra, tampouco com o que ela representa. Mas entendo esse ”temor” que você diz que sente. Entendo total. <3

  • Reply Marilia Litwak 17 de novembro de 2015 at 10:54

    Amo demais teus posts, este sobre o feminismo foi o 10!

    • Reply Aida Polimeni 17 de novembro de 2015 at 16:26

      Feliz demais que tu gostou, mulher! <3

    • Reply Luiza de Carvalho 18 de novembro de 2015 at 12:19

      Entendi, Aida, essa questão da falta de representatividade é difícil mesmo, e também fico contente em ver que as princesas estão mudando (ainda que aos poucos), e as crianças estão tendo a chance de não associar a imagem de mulher perfeita somente a Barbie ou a Xuxa. Vejo que isso mudou até nos livrinhos infantis! Mas ainda temos muitos preconceitos a romper…à propósito, outro dia eu assista a aula de ballet da minha filha e descobri que outra mãe de uma coleguinha dela tem um filho de dois anos como eu. Daí eu comentei, naquele papo de mãe: “que legal, na próxima aula podemos trazer nossos menininhos e eles brincam enquanto assistem às irmãs dançando…”. E ela me olhou super espantada: “é claro que não, eles são meninos, não podem ver isso, vai que sentem vontade de fazer!”….sem comentários né

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