amora
licença maternidade

Desculpa, filha.

Desculpa, filha. Desde que eu soube que você estava aqui, dentro de mim, eu coloquei na cabeça que sua vida seria a mais linda e tranquila possível. Que tua transição para esse mundo louco seria suave e confortável. Que aquele meu sangue que te alimentava dentro de mim se transformaria no leite que hoje me esforço tanto para não deixar de produzir. Fui inventar de me aprofundar nos estudos e hoje estou aqui mergulhada numa profunda tristeza, porque você não está aqui comigo e eu sei exatamente como isso é ruim. Acho que só lá pra os seus 15 anos você vai compreender o porquê de você estar com a minha mãe agora, tomando leite num copinho, mudando sua rotina inteira. A gente vive em um sistema-capitalista-opressor-patriarcal-machista-e profundamente cruel aqui no Brasil. Existe uma coisa chamada licença maternidade que – apesar dos principais estudos provarem que a criança precisa ficar grudada na sua mãe até pelo menos dois anos de idade – por aqui ela dura apenas 120 dias para mim, que não sou funcionária pública. A nossa sociedade já está tão acostumada com isso que a minha tristeza de agora pode até ser motivo de piada, ou de comentários ”fofos”, como ”ô, mãezinha, é assim mesmo”. Não. Não deveria ser assim mesmo, filha. E é por isso que outras mulheres, como eu, ficam indignadas com essa história toda. É por isso que muita, muita gente, está aprofundando pesquisas e estudos que associam os primeiros meses (e inclusive as primeiras horas de vida) ao que tá acontecendo no mundo hoje. Em vários países desenvolvidos a licença é bem mais longa. Na Suécia, ela é de 480 dias e, inclusive, pode ser dividida com o pai. Aqui no Brasil, crianças ficam distantes das mães e são terceirizadas por creches e babás. Mulheres são obrigadas a deixar seus filhos para cuidar dos filhos das suas patroas (e os delas? por onde estão?). Creches e escolinhas introduzem hábitos que as mães são ”obrigadas” a aceitar e pronto. Pediatras aconselham o leite artificial no lugar do líquido mais poderoso que existe na natureza, o leite materno. Crianças, como você, que deveriam estar grudadas nos seios de suas mães, precisam se adaptar a pessoas e ambientes que elas nunca viram na vida. É por isso que eu te peço desculpas, filha. Porque no momento eu sou uma dessas mães que precisam trabalhar e estão de mãos atadas. Ontem você chorou durante uma hora e meia. Sem mim. Você nunca chorou mais do que alguns minutinhos. Eu senti uma dor muito grande no coração. A maior da minha vida. Mais dúvidas me consumiram. Uma aflição de quem sabe o que precisa fazer, mas (ainda) não pode. Quanto mais eu leio e penso, mais apertado o meu coração fica. Cheguei até a pensar que preferia a ignorância, que talvez eu sofreria menos. Mas você não. Você é apenas um bebê de 4 meses que não está com a sua mãe. Então me desculpa, filha. Eu vivi intensamente todos esses segundos que tive com você, sem precisar me separar. Eu faço e refaço cálculos para tentar vivê-los de novo. Eu posso até ter Começado Errado na cabeça de alguns, ter feito muita piada com assunto sério, mas acredito que esse desabafo precisava ser feito aqui, no blog que estava desatualizado desde que você nasceu, justamente porque eu não queria ficar 15 minutos sem você no meu braço, no sling, no peito. E pra quem acha que você vai crescer apegada demais, manhosa demais, MIMADA demais, eu recomendo leituras sobre criação com apego, videos como esseAQUI, livros como os de Laura Gutman, Françoise Dolto, José Martins Filho. Recomendo que parem com julgamentos e se encham de informação e assim consigam criar a sua própria ”fórmula ideal para criar os filhos”, porque cada mãe é única e, com certeza, faz o que acha que é o certo para eles. Desculpa, filha. Mas muita gente lutou e está lutando para que essa coisa toda mude. No dia que você ouvir que sua mãe é sonhadora, ”radical demais”, que tudo não passa de utopia, de discurso comunoanarquicorebediainfantojuvenil, você não vai se envergonhar. Vai ter orgulho de mim. E quando você criar o seu próprio discurso, eu não vou dizer que ”sua cabecinha ainda vai mudar”, como eu já ouvi muito por aí. Eu vou olhar pra você e compreender que tudo valeu a pena. 

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