Empoderamento, feminismo negro

ESCREVER DÓI

Cresci com a sensação de que não poderia falar. Ou por não ter voz suficiente, ou por não sentir que os ouvidos seriam compreensivos. Mas, na real, por ser mulher e negra, a minha opinião nunca foi aguardada com ansiedade. Nas vezes em que tentei, percebi que precisaria sempre aumentar o tom, levantar e dizer com o corpo um “escuta que eu vou falar”. Isso faz com que as pessoas nos enxerguem como agressivas, raivosas e vitimistas. E durante muito tempo abaixei a cabeça. Quando percebi que essa realidade não era apenas minha, decidi romper o silêncio e a submissão. Este espaço foi uma das formas que encontrei, mas as expectativas vieram bem diferentes da realidade e eu vou explicar o porquê.

Escrever sempre foi a minha maneira de falar. Desde criança senti que as letras me davam liberdade. Elas não me interrompiam. Alimentei centenas de diários, cadernos e bloquinhos que levava para todo lugar. Até que a internet chegou. Ainda no colégio, criei um blog e comecei a escrever crônicas bem ruins #quemnunk. Fui crescendo e continuei alimentando o mesmo espaço. Minhas vivências já eram reais, mas a minha interpretação ainda era bem romântica. Eu escrevia sobre assuntos que não alfinetavam ninguém, então os retornos eram sempre positivos. Pessoas com dor de cotovelo falavam que eu tinha ajudado na recuperação do coração. Mulheres copiavam frases para as legendas de suas fotos. Os caras gostavam de perceber que estavam ali nas entrelinhas. Recebia elogios, conquistava trabalhos e administrava minha saúde mental escrevendo. Com a maternidade, a vida real deu várias batidinhas na minha porta e mostrou que estava na hora de sair dessa zona quentinha e confortável. Mas não foi fácil. Cada texto sobre a desconstrução da maternidade me rendeu haters, olhares tortos de conhecidos e DRs na família. A menina que sempre se preocupou em não ofender ninguém estava ali atirando parto humanizado e racismo para tudo quanto é lado. Quando falei sobre aborto, recebi ameaças de morte. Obviamente os retornos positivos eram mais importantes, já que me davam coragem e muitos amigos. Mas a insegurança me dava crises de pânico sempre que alguém me apontava. A cada textão no facebook, várias gotinhas de floral de bah. Até que eu fui diminuindo e… desistindo.

Mudar de ambiente foi super importante para me desligar de tudo que me dava ansiedade, inclusive as redes sociais. Como eu trabalho neste universo louco chamado internet, foquei nos clientes e preferi manter a sanidade mental deixando a minha luta de lado. Durante esse tempo recebi várias perguntas e cobranças. Não soube responder nenhuma delas. Sorria primeiro e chorava depois, pensando mais uma vez que aquilo não seria para mim. O duro foi perceber que existe um esforço enorme para calar pessoas que apontam comportamentos socialmente aceitos, mas que não deveriam ser. Para uma mulher já é difícil. Para a mulher preta, a missão entra para o nível do ~praticamente impossível~. Percebi que tinham conseguido me calar. E doeu de novo.

Muitas coisas que foram ditas neste blog mudaram de configuração. Amora não é mais vegana porque pediu para comer ovos. Nos poucos momentos em que não há saída, assiste um desenho que elegemos como o “mais representativo que havia no netflix”. Aquela sensação do 50% sabe o que faz e 50% não tem a mínima ideia continua em mim desde do primeiro texto. Nós ainda estamos morando na Chapada Diamantina, mas em outra casa. Nunca mais fiz textão, mas tô terminando um livro. Graças a todas as mulheres pretas que produzem conteúdo e me inspiram, estou cada vez menos insegura. Como disse Conceição Evaristo, para a mulher negra escrever é um ato político.  Escrever é resistir. E eu tô aqui.

Alô você, mulher preta que tem muito o que dizer: me liga, me manda um telegrama, uma carta de amor. Quero muito conversar contigo.

Chá de Bebê
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2 Comments

  • Reply manoella 11 de julho de 2017 at 15:59

    Oi Aida, nunca comentei aqui, mas acompanho seu blog faz tempo… na verdade quando comecei vc já estava parando, mas devorei tudo rsrsr
    Também compartilho dessa sensação com o ativismo, e creio que está rolando uma baixa de guarda, ou uma “parada para revisão” até saudável dentro do movimento. Você viu como a própria Vila Mamífera esta abandonada?
    Estamos num ponto de transição, para um movimento feminista, de mães de mulheres negras, pelo parto humanizado e criação com apego mai maduros e com cada vez mais sororidade. Tenho fé!!
    Vai, tira seu periodo sabático e volta melhor ainda 🙂 Você é ótima!!

  • Reply Dani Carvalho 8 de julho de 2017 at 8:00

    Maravilhosaaaa! Vc inspira e incentiva tanto as outras, lindona! Faz nem ideia <3

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