inspiração

PARA TER UM FILHO.

Como é fazer nascer depois de ver morrer? Que a gestação é uma passagem a gente já sabe. Mas e quando, além de toda essa transformação da maternidade, você tem que encarar a morte do seu pai também? Essa é a história de Tainá, uma mulher inspiradora que acabou de perder uma das figuras mais importantes da sua vida. E a outra está no seu ventre, só esperando a hora de nascer para dar o abraço que ela tanto precisa.

Você pode até achar que a melhor estratégia é espantar o drama. ”Não fica assim”, ”Tudo vai passar”, ”Cuidado com o bebê e essa tristeza”. Como boa psicóloga, Tainá sabe que a tristeza é para ser digerida em goles lentos, secos e dolorosos mesmo. Fugir de tudo isso seria mentir. Seu pai sempre foi um cara alto astral, pra cima, positivo. Para ele o mundo era apenas um ambiente a ser contrariado. E como todos que gostam de nadar contra o sistema, ele não tinha medo de desafios. Talvez essa tenha sido a maior lição que deixou não só para Tainá, mas para seus outros dois filhos e quem mais estivesse por perto. A verdade é essa: uma tristeza imensa precisa do seu espaço. E o melhor lugar que ela encontrou foi o verbo. Escrever cura.

quando algo muito intenso e perturbador nos ocorre, é comum ouvir das pessoas: “não tenho palavras”. escutei isso algumas vezes por ocasião da morte do meu pai, há exatos seis dias. é impossível encontrar as palavras que dimensionem o que significa esse acontecimento dentro e fora de mim. não tenho as palavras e no entanto elas são tudo o que tenho.

Para ter um filho é um blog que mexe com os sentimentos. A felicidade de fazer nascer ao lado da saudade de ver indo embora. A alegria de ensinar versus o exercitar tudo que aprendeu. A ansiedade em fazer planos, perto da realidade que é o término de um ciclo da vida.

estou com 24 semanas de gestação. carrego dentro de mim essa cria, primeira e desejada. e nunca, jamais, pude imaginar que seria preciso lidar de forma tão imperativa com a crua dialética morte & vida como agora. tenho 29 anos e perdi meu pai, aos 58. meu filho tem 24 semanas de existência intrauterina e perdeu o avô e também a antiga mãe que já fui.

Além de ter tido a sorte de aprender com Tainá e seu pai em diversos momentos da minha vida, continuo com a sorte de acompanhar a transformação que ela está passando. Vejo de perto a sua luta por um parto respeitoso, a forma com que encara esses tantos sentimentos, o tom da sua voz que não é, nem jamais será o mesmo. Assim como fez durante meus nove meses de gravidez, faz agora: me ensina. E está dando a todxs vocês a oportunidade de aprender também. Um dos assuntos que Jorge, seu pai, mais gostava de me ouvir falar era o parir. Ele ficava encantado com a capacidade da mulher. Admirava, pedia para repetir, contava o quanto achava tudo aquilo maravilhoso. Em seus últimos dias, Tainá mostrou o vídeo que me mostra parindo, fazendo nascer. Ele chorou. Gostava de chorar. Mas chorou tanto, tanto. Essa história só não me emociona mais do que pensar que daqui a pouco Tainá vai parir também. E choraremos. Choraremos tanto, tanto.

tenho estado um pouco desnorteada com a não-confluência entre os meus sentimentos e as expectativas alheias. as pessoas, mesmo sem perceber, me sugerem com urgência e a todo custo que eu supere, que eu tenha força, que eu me ocupe do meu filho, que eu siga minha vida de onde parei. e vos digo: não me peçam o impossível. a morte do meu pai mexe comigo de uma forma que nem ouso entender ou explicar. e não desejo diferente. sofrer não é meu maior medo.

Fico pensando no que nos move. Lutamos por mudanças, por boas notícias, por esperanças. E esquecemos que a dor ensina. E muito. Fugir dela é pegar um caminho que dá voltas e voltas, sem parar em lugar algum. Precisamos mergulhar na tristeza para que possamos enxergar a profundidade que ela quer nos levar. E aí sim voltamos para a superfície com todo fôlego que somos capazes de acumular.

Ps: Já existe uma Vakinha para arrecadar dinheiro para o parto humanizado de Tainá. Você pode contribuir com o valor que quiser AQUI. Para ter um filho é preciso muito apoio também. <3

 

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