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perguntas idiotas

”Tadinha, nem tem brincos.”

Eu entendo que o lance é cultural. Meninas ganham brincos quando ainda estão dentro da barriga da mãe e os furos chegam logo nos primeiros dias de nascida. Fica lindo e todo mundo gosta. Mas será que ela queria?

Eu entendo que bebês são todos cabeçudinhos com dobrinhas deliciosas e pezinhos pequenos. Para dizer ”que lindx!” nós procuramos qualquer sinal de gênero e o primeiro é sempre o brinco na orelha. Mas será que é tão importante assim definir um bebê?

Eu entendo que parece frescura, pois é tão comum. Mas será que a mãe que escolhe não furar não tem os motivos dela?

Só tem uma coisa que não entendo: pq as pessoas sentem tanta dificuldade em aceitar a escolha de uma mãe apenas por parecer estranha?

 

Dói

Recém-nascido sente dor, sim. É claro que uma hora ela vai parar de chorar e que aos 15 anos nem vai lembrar do furo. Mas dói. Muita gente me conta que ”fulana nem chorou”, mas como eu vou saber quem vai chorar e quem não vai, gente? Além disso, sempre tem o risco de inflamar, precisamos girar o brinquinho e incomoda pra dormir. Nós, adultas, tiramos os brincos para dormir. As bebês não. Sempre que falo disso me chamam de ”mole”, ”besta”, ”deixa de frescura!”. Marminhagente, se eu tenho esse poder de escolha, se a filha saiu de mim e é minha responsabilidade, pq diabos eu ainda tenho que ouvir esse tipo de coisa? Sempre respiro fundo, principalmente quando são velhinhas simpáticas, e respondo que é verdade, sou mole, não tenho coragem pra esse tipo de coisa mesmo.

Eu não ligo se confundem com um menino.

Não é ofensa. Como não é ofensa ser confundido com um gay, por exemplo. Ela é apenas uma criança e se eu que sou adulta não preciso me preocupar com isso, porque uma criança de um ano e pouco vai precisar? No início eu estranhava, mas depois percebi que por mais que Amora coloque um vestido e um daqueles laços gigantescos na cabeça  (taí outra coisa que não tive coragem) vão continuar confundindo porque é cultural. Ninguém tem culpa disso, pq ninguém parou pra pensar ainda. Mas taí uma ótima oportunidade de perceber que algumas pessoas procuram fugir de certas mazelas da nossa cultura. Se você encontrar com uma mãe que decidiu não furar as orelhas da filha, respeite. Não tente convencê-la a furar, seja qual for a história incrível de família que você tem. Não comente com seus amigos o quanto aquilo é desnecessário, pois essa opinião é apenas sua. E com o tempo garanto que você vai começar a achar normal. Se quiser saber o gênero, observe por mais alguns segundos. Ou pergunte o nome da criança, é ótimo ser tratada pelo nome. O fato é: saber se é menina ou menino não é a coisa mais importante desse mundo e você não precisa ficar constrangidx e aflitx procurando a identidade da criança. Por muitas vezes Amora saiu de camiseta branca e calça azul confundindo geral e eu não tô nem aí. Acontece o mesmo quando ela sai de mulher maravilha.

É lindo, sim!

Tenho várias amigas que furaram as orelhas das filhas e elas ficaram lindas. Mas também seriam lindas sem os brincos. O engraçado é que eu realmente não consigo imaginar Amora com eles. Eu nem perdi muito tempo decidindo isso. Pra mim foi tudo muito simples: eu quero que ela sinta dor? Não. Eu ligo para convenções do tipo ”menina tem que ter brinco”? Não, eu nem vejo sentido nisso. Então pronto.

Não é proibido ter brincos e é claro que uma hora ela vai perceber que a maioria das mulheres tem e ela não. Eu só consigo ver beleza nisso, pois vai chegar o dia que ela vai DECIDIR e nós vamos juntas colocar. Vai doer, claro. Minhas orelhas foram furadas nos primeiros dias de vida, mas nem por isso deixei de furar outras vezes. Tenho piercings, tatuagens e tudo isso doeu. Mas eu escolhi.

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Não precisa pensar muito para saber que é muito mais difícil ser mulher por aqui. E se pararmos para pensar nos detalhes, vamos perceber que o drama começa na barriga (e nem tô falando da coitada da grávida que, por ser mulher também, tá sofrendo com várias outras coisas do lado de fora). Tudo é deprimente e nada é novidade. Desde as piadas machistas contadas para o pai ”fornecedor” até as opções de cores que vemos nas lojas infantis. Os brinquedos não são iguais, as personagens não são iguais, a criação não é igual. Nem precisa ir muito longe, basta ver as baboseiras compartilhadas no facetruque estilo  ”mãe de menino é isso” e ”mãe de menina é aquilo” . Isso tudo tem muito a ver com os furos nas orelhas, sim. A mãe que resolve não furar causa um estranhamento inacreditável. E ainda precisa ouvir calada avaliações sobre a sua ”falta de coragem”. Eu jamais questionaria as escolhas de uma mãe, seja furar ou não furar. Cada uma tem direito de decidir e ninguém-tem-nada-a-ver-com-isso.

As meninas não precisam de furos sem consentimento. Não precisam de cabelos longos caindo nos olhos só porque é mais bonito e feminino. Não precisam sentar como mocinhas. Precisam ser crianças. 

 

 

 

 

 

 

 

 

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15 Comments

  • Reply Jessica 13 de janeiro de 2017 at 16:02

    Eu furei da minha filha e nao me arrependo adoro ela de brinquinho, minha mae nao teve orelha furada e nao teve coragem depois de adulta ;sentiu falta de nao furarem quando ela era crianca. Minha filha nem chorou quando furaram com alguns dias de vida .mas conheco quem nao furou e nao comento nada nao dou opniao eu tenho semancol sabe nao consigo ir dando palpite nas coisas doa outros porque nao suporto que façam isso comigo!

  • Reply Cíntia Ferreira 16 de janeiro de 2016 at 21:12

    Olá! Sou uma das mães de uma menina de 1 ano sem furos na orelha. E vai continuar assim até o dia que ela falar “Mãe, coloca brincos em mim”. Caso não fale, não terá. Penso exatamente como você. Menino ou menina? Ela é criança. E isso é ótimo e passa muito rápido.

  • Reply Keila 9 de junho de 2015 at 15:05

    Aida esse é o primeiro texto q leio seu e já sou sua fã.
    Obrigada por colocar em palavras para todo mundo ler aquilo q eu tento expressar aqui do meu mundo!
    Estou grávida de 11 semanas e, outro dia, falando sobre “se for menina”, entramos no assunto brincos… A colocação deles, e eu disse q não colocaria brincos em um filha até ela ter idade para escolher e fazermos isso juntas. Fui criticada, claro! “Imagina, como vão identificar? Imagina, ela vai sentir mais dor depois. Imagina, isso já é radicalismo Keila… Parto natural OK, a gente até entende, mas não colocar brinco na menina, pra quê?” Depois fiquei pensando… Logo eu q sempre fui adepta a meninas ou meninos brincarem disso ou daquilo, terem essa ou aquela cor como padrão, vestirem isso ou aquilo, vou ter q colocar um brinco e machucar minha filha sem o consentimento dela só para “os outros” identificarem q é uma menina? Ah não, né?! Foi o q você disse… Observe mais alguns segundos – dá pra identificar, ou mais fácil, pergunte o nome. Adorei!! Mais uma vez, gratidão!!
    Grande beijo

  • Reply Barbara 30 de maio de 2015 at 3:50

    Que felicidade achar alguém com pensamentos tão parecidos com os meus.Minha Valentina tem 9 meses e vivem questionando o porque não coloquei brinco nela,a confudem com menino(ainda estou me acostumando a lidar com isso) e falam que deveria ter colocado desde que nasceu.Haja paciência.Tenho a orelha furada,mais me sentia horrivel de brinco quando criança e agora nem uso.Vou deixar para que ela decida o momento certo de furar.

  • Reply Paula 23 de maio de 2015 at 18:12

    Apesar da banalizaçao nao deixa de ser uma agressao ao corpo. Gosto muito de piercings, tatuagens e tudo, porém nós outros, em mim nao gosto. A mesma situaçao com meus furos na orelha, preferia nao te-los (ainda mais que nao uso e sou alérgica brincos sem ser de ouro). Que bom que as coisas estao evoluindo e hoje se discute o assunto!

  • Reply Marina 23 de maio de 2015 at 15:35

    Tenho trauma desta história de não por brinco quando recém-nascida….minha mãe pôs em mim com quatro anos, chorei horrores vendo aquele sangue saindo da orelha…desespero total. Mil vezes colocar na maternidade.

    • Reply Maria Julia 27 de maio de 2015 at 17:59

      Mas a questão é essa, Marina. Com 4 anos você pediu pra furar, ou ela furou pq achava que menina tem q ter orelha furada?
      Pra quem pensa como a Aida (e eu), não existe a necessidade de furar sem que o desejo de ter brinco seja expresso pelo dono da orelha….e com base nas crianças que eu já conheci (sem nenhuma base científica), ninguém vai sentir falta do brinco antes dos 6-7 anos…q é quando a pessoa está mais atenta às coisas do mundo. Mas tem quem nunca sentirá falta se essa escolha for oferecida…

  • Reply valeria rezende 23 de maio de 2015 at 14:20

    Olá Aida.Minha mãe furou minha orelha quando eu era bebe; só que sempre tive uma alergia horrivel e ela conta que minhas orelhas infeccionaram os brinquinhos crudaram e não saíam de jeito nenhum. Até hoje não consigo usar nada nas orelhas e não sinto a menor falta .Abraços!

  • Reply carolina 23 de maio de 2015 at 8:00

    Oii tenho 4 meninas, não furei as orelhas de nenhuma delas ao nascer…. Mariana quis furar com 11 anos. Hoje eks tem 14. As gemeas Jessica e Cecília com 8. Hoje elas tem 12 anos. E a Sulamita q hoje tem 3 anos nem se deu conta q os brincos existem…. sempre me questionaram me falaram q elas iam querer brincos… enfim o dia q elas quiseram nós colocamos e foi super tranquilo.

  • Reply caroline 23 de maio de 2015 at 0:54

    Muito bom !!!!
    Parabéns !!!

  • Reply Diana 22 de maio de 2015 at 15:01

    Quando eu tive a minha primeira filha, eu não furei a orelha. Assim como você, também não pensei muito. Achei que não tinha necessidade de fazê-la sentir dor e pronto. Mas tanta, tanta, tanta gente falou tanto, tanto, tanto, que aos 20 anos acabei me influenciando e furando, meio a contra gosto, quando ela fez 1 ano. Por uma dessas coisas de destino, hoje ela tem 14 anos, é super feminina mas… não gosta de brinco! Não gosta e não usa. Ou seja, furei à tôa, por pressão alheia. Hoje, grávida de novo, estou decidida a não furar. Não importa o que digam.

  • Reply Bartira 22 de maio de 2015 at 14:33

    Olha, vou dizer que achei uma bênção o bebê ser menino dessa vez… Não ter que usar lacinho, nem furar orelha, nem ouvir comentários por optar por não usá-los. É um saco mesmo essa pressão toda das pessoas. Pra tudo, pra parto, pra amamentar, pra ser mãe perfeita. Pra dar tudo certo. A gente já fica toda enrolada, cansada, ainda tem que ouvir cobrança, piada, estar linda e sorridente com o bebê perfeito pra foto… Cansa.

  • Reply Rochelle 22 de maio de 2015 at 14:13

    Tenho um amigo, mestre de Pakua e adepto da acupuntura. Quando a filha dele nasceu ele me disse que não ia furar a orelha por questões energéticas, ligadas aos pontos das orelhas. Achei incrível. Furar por questões culturais é seguir a boiada. As minhas orelhas foram furadas ainda na maternidade e com o próprio pino dos brincos. Minha mãe conta como se fosse normal. Tenho míopia em grau alto e se for seguir os pontos da acupuntura, os furos foram feitos justamente na região dos olhos. Coincidência ou não? Bjs

  • Reply Laís 22 de maio de 2015 at 13:04

    É cada vez mais difícil encontrar quem respeite qualquer escolha do outro! Mas que bom que hoje podemos manter nossas escolhas e encontrar apoio também!

  • Reply Karen Kurten 21 de maio de 2015 at 22:27

    Olá Aida!

    Até que enfim encontrei outra mãe que não furou as orelhas da filha… hahahaha (não que isso algum dia tenha sido causo para preocupação!).
    Klara fará 6 anos no próximo mês, nasceu na Bélgica onde não há esta cultura de furar as orelhas ao recém-nascido (aliás até onde eu sei é proibido até os 3 meses de idade). E dito isto eu e meu marido decidimos que, o corpo é dela e a escolha também será. E pasme (ou não), até hoje nossa filha não demonstrou qualquer desejo em furar suas lindas orelhas, mesmo quando as coleguinhas exibem seus lindos brincos, com variadas cores e formas. Mas tudo isso porque fortalecemos a personalidade da pequena, mostrando à ela que o que a faz feliz é o que realmente importa.
    Klara tem brincos, pulseiras, pequenas lindas jóias que não tem qualquer interesse em usar. Odeia o cheiro de qualquer tipo de metal e não vê graça nenhuma em qualquer peça. Ela também adora legos e carrinhos, e prefere brincar com bichos (mesmo que de pelúcia) do que com bonecas. E ela também já deixou claro que não tem qualquer interesse em casar e ter filhos. Quer mesmo é uma fazenda cheia de belos animais apenas para poder cuidar deles!
    Ah família não concorda muito com tudo isso. Dá risada, opina e critica e nós não estamos nem aí pra ninguém. Não viemos ao mundo para agradar aos outros!
    E agora, com 32 semanas de gestação e à espera de outra menina, o caminho será o mesmo. E nem é pela dor de se furar as orelhas, mas o corpo é dela, as decisões serão dela, e nós estaremos ao seu lado para ajudá-la e apoiá-la no que for necessário.
    E se tem algo que gosto de deixar bem claro é que minha filha não veio ao mundo para agradar aos pais ou às outras pessoas; ela veio para viver a própria vida :)

    Adorei o post!
    Abraços,
    Karen

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