Cada um cuida de si – e todos nos estrepamos sozinhos

Se houvesse uma forma de ranquear as expressões mais digitadas na blogsfera materna, com certeza “não julgue”, “cada um sabe de si”, “toda mãe é a melhor mãe que pode ser”, “odeio radicalismos” seriam as grandes campeãs. Em regra, sempre que aparece uma opinião mais contundente, ela é combatida por um clichê que parece indefectível: meu filho é problema meu e ninguém tem nada a ver com isto.

O que sustenta este discurso – além do óbvio, imenso e infeliz individualismo crônico no qual vivemos – é a ideia de que ninguém conhece as dificuldades do outro e, por isso, não tem condições de avaliar suas atitudes e comportamento. “Você não sabe o que passei na gestação, por isso não pode julgar a minha cesárea”. “Ninguém sentiu a dor que eu tive ao amamentar, ninguém tem nada com a minha opção de dar leite artificial.” “Só eu sei o quanto trabalho, não emita nenhum juízo de valor quanto ao fato de eu só ver meus filhos no fim de semana”.

Não tenho a menor dúvida que só o dono do pé sabe onde dói o calo. Temos nossa história, nosso temperamento, nossos limites. As decisões que tomamos são direcionadas por um milhão de variáveis, que às vezes nem nós conhecemos bem. Quanto se trata de filhos, entretanto, as nossas escolhas ultrapassam a nossa esfera privada, porque criar gente bacana é um dever social. O Maluf, o Pinochet e o Fernandinho Beira Mar têm mães. Pode ser que elas fizeram o melhor que podiam, mas os desafios que eles apresentaram eram maiores do que os recursos – emocionais, psíquicos, físicos ou até financeiros – das suas famílias. E aí? Isso não era problema de ninguém???

Será que cada pai e cada mãe tem que enfrentar sozinho este super compromisso que é a maternidade? Será que somos os únicos responsáveis pelos nossos filhos? E, pior ainda, não temos nenhum dever com as crianças dos outros?

 

Eu deixo meu bebê chorando no berço, para ele aprender a ser “independente”. Acredito que estou fazendo o meu melhor, amo o meu bebê. Ele, com isto, entretanto, aprende a não confiar. Cresce e namora a sua filha. Não é problema seu?

O médico induz a sua irmã a fazer uma cesárea por motivo esdrúxulo. O bebê nasce com o pulmão “molhadinho”, fica internado na UTI. E aí, você não tem nada com isto?

A vizinha dá uma palmada no filho. Ela está esgotada, trabalha demais, o marido saiu de casa e não dá pensão, o menino é mesmo muito levado e está sem limites. Ele aprende a resolver as coisas no tapa e bate no meu filho na escola. Não é da minha conta?

 

Eu não sou a melhor mãe que posso ser, assim como não sou a melhor profissional, nem a melhor esposa, muito menos a melhor filha. Nunca serei. Sempre vai ter o que melhorar. Isto só é possível com a troca. Ouvindo a experiência do outro, estudando com ele, aprendendo. E ajudando. Doando o seu melhor. Tentando mudar o mundo, todo dia, toda hora, em todo lugar, como formiguinha.

 

Crie o site do seu Neném

Sobre Gabi Sallit

Gabriella Sallit virou Gabi ainda pequenininha. E, para não ter um filho que tivesse que explicar a vida inteira a grafia do seu nome (aprendeu a falar “meu Gabriela é com 2 Ls” antes de papai e mamãe), escolheu um nome pequenininho para o seu filhote. João está começando a falar e já escolheu como prefere ser chamado: Jão!

VENHA, e CONECTE-SE COM A VILA!

Receba as novidades em primeira mão!

Esta entrada foi publicada em Divagações. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

13 respostas a Cada um cuida de si – e todos nos estrepamos sozinhos

  1. Daniela disse:

    Gabriela, conheci seu blog há uma semana e tenho gostado muito dos textos (estou quase finalizando a leitura completa), compartilho de muitas das suas ideias e comportamentos quanto à maternidade. Mas discordei veementemente desse post. Ia deixar passar, afinal cada um tem uma opinião. Mas ontem passei o dia elocubrando argumentos para mostrar que não vale a pena ficar julgando a criação alheia (salvo situações extremas). É, eu sou dessas loucas que tem discussões imaginárias com muita gente que nem sabe que eu existo….
    Eu sou a favor da soberania materno/paterno, são os pais que devem escolher a forma de cuidar sim! Odeio gente dando pitaco na minha vida. Normalmente quem anda me ensinando como fazer as coisas não me representa. Então além de achar incorreto acho improdutivo ficar apontando o dedo para as escolhas dos outros. É muito mais produtivo dar exemplo, falar sua opinião sem ficar nesse aconselhamento como se os outros fossem sempre ignorantes e desinformados. Ou você acha que a multidão que me recomendou o parto cesárea queria meu mal? Porque tenho que ficar ouvindo conselho de todo mundo como se cada um soubesse o que é certo e errado?? Uma das coisas que mais me incomodou na gravidez/maternidade foi a liberdade que algumas pessoas tiveram em me mostrar o que é melhor pra mim/meu filho….
    E você acaba se contradizendo, pois apesar de reconhecer que cada um sabe como seu sapato aperta, então é difícil julgar, como ficar recomendando como fazer? Sabia que as mães de Pinochet, Beira Mar… podem ter tido parto normal, amamentado etc. Não é isso que determina o caráter dessas pessoas, ainda que seja importante para sua formação como pessoa. Você baseia esse argumento num sofisma muito grande e sério.
    Na minha gravidez (ano passado) eu tive uma prima que estava com um bebê de 3 meses e entrou em coma ficou nesse estado por 4 meses no Mater Dei aí em BH até falecer (ela tinha 27 anos e era como uma irmã pra mim). Eu estava grávida quando isso aconteceu. Seu diagnóstico foi inconclusivo, depois definido como encefalite (uma inflamação no cérebro), mandaram liquor para EUA para análise e, ainda assim, nenhuma resposta foi nos dada ao que ela teve. Inevitavelmente toda a minha família estava em choque e não houve como não associar seu pós-parto muito exaustivo com o que aconteceu. Claro que todo mundo sabe que isso não é a única causa, muitas mulheres passam por isso todos os dias e nada acontece. Mas ela, por alguma pré-disposição, talvez, tenha tido como estopim o desgaste que estava vivendo no pós parto, tentando fazer tudo certo… Daí comigo foi tudo meio angustiante, comprei chupeta, dei chupeta, queria dar acima de tudo a minha vida e minha presença para meu filho. Então ter que ouvir de algumas pessoas que não sabem nada do que me aconteceu que eu não devia ter dado chupeta dava vontade de vomitar tanta coisa… e quem disse que a chupeta vai fazer do meu filho um ditador, um mal caráter? Ou não ter mamado no peito exclusivamente até 6 meses??
    Enfim, acho inadequado, desrespeitoso e improdutivo. Eu faço o que quero. Eu não sou idiota. Eu me informo. Tenho amigas que tem 500 tablets no carro para os filhos, eu não tenho nem celular que fotografa. Quem garante que meu filho vai ser melhor, o que me dá o direito de intervir nas escolhas delas? O que é certo e errado não é uma verdade absoluta, as coisas mudam. Antes ovo fazia mal, agora ovo é bom. Antes leite era o alimento base para todas as crianças, minha geração cresceu tomando leite (e tá todo mundo aí perdendo tempo com a vida dos outros….), então o que você acha que está certo pode não ser tão certo ou não funcionar para outra família, me explica então, porque “você” tem o direito de questionar minhas escolhas e tentar me convencer das suas? O que lhe atribui a sabedoria mor? Porque as tantas amigas (queridas, incrivelmente) que imploraram para eu ter cesárea não devem ser ouvidas??? É a informação que nos faz mudar não essa invasão da escolha alheia.

  2. Denise Vieira Furtado de Garcia e Castro disse:

    e é por isso que eu adoro aquele lindo e velho “deitado”: é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança.
    que bom e que sábio seria se todos lançássemos mão dessa aldeia, né?

  3. Tamires disse:

    Olá Gabi,
    andei pensando exatamente sobre isso. Em como nos tornamos duras à realidade da sociedade em que vivemos. Sabemos da colega que escolheu fazer cesárea porque o médico disse que era mais seguro e ficamos em silêncio, vemos a vizinha espancando as crianças e nem ao menos vamos até lá, tentar conversar, ajudar, compreender. Quando muito denunciamos para um Conselho falho e ineficiente. E lavamos as mãos, “Pronto, cumpri meu dever de cidadão!”.
    Fico muito triste por isso, e tento ao menos estar presente, me manter informada e atenta para poder passar a informação correta, não como um palpite, mas como algo real e fundamentado. E todas vocês, mamães da blogosfera tem contribuído muito para tornar o mundo mais informado.
    Quando eu dei aulas de fotografia em algumas comunidades carentes, eu sempre pensava que se para uma criança em mil eu estivesse fazendo alguma diferença, já teria valido todo o esforço. Claro que sempre queremos alcançar o máximo possível. Mas um passo de cada vez, uma atitude por dia, muda muita coisa.

    Beijinhos

  4. Adriana disse:

    Adorei, Gabi,
    em vez de competir (tanto nas desgraças quanto nas vitórias), deveríamos nos unir para formar uma sociedade mais justa e harmoniosa. Seu filho é problema meu e se vc precisar da minha ajuda, pode contar comigo!
    Bjs

  5. Ana Paula Garcia disse:

    É assim mesmo, Gabi! Excelente reflexão! Apesar de não citar, você é extremamente cristã… temos o dever de questionar essas estruturas sociais que estão aí, embaixo do nosso nariz. Se cada um fizer um pouquinho, um pouquinho só… a gente muda o que tanto nos diminui como seres humanos!

  6. Luciana disse:

    Olá, Gabi, geralmente gosto muito dos seus textos, mas acho que nesse você começou com uma coisa pra terminar com outra. Acredito demais na troca. Quanta coisa eu achava ridícula antes de engravidar e agora que sou mãe penso o contrário! Tudo porque fui atrás de saber, troquei ideias e segui minha intuição. Por outro lado, abrir o julgamento da minha maternidade para outras pessoas seria muito injusto nos momentos em que não estou pedindo por isso. Nos momentos em que tenho dúvidas e peço por ajuda, agradeço a quem pode me iluminar. Mas uma vez que tomo minha decisão, por mais que pareça errada para outras pessoas, é uma decisão que foi melhor pra família como um todo pois a família não é composta apenas de uma criança, ela é composta por todos que fazem parte dela, inclusive a mãe, que parece que só tem valor se fizer todos os sacrifícios possíveis e imagináveis. Não vai ser a mãe mais correta do mundo (e quem diz o que é correto?) que vai garantir que seu filho será o ser humano mais perfeito do mundo.

    • Gabi Sallit disse:

      Lu, isto acontece toda hora! Às vezes começo pelo título e tenho que mudá-lo quando o post acaba, pq não tem mais nada a ver com o que escrevi! rsrsrsr
      Olha, eu não sei se concorda, mas, quando estamos seguras da nossa decisão, parece que temos uma barreira “anti-palpite”. Vou te dar um exemplo pessoal: quando resolvi ter o João em um hospital público, algumas das poucas pessoas para quem contei diziam: “você está louca! A prima da tia da minha cunhada conhece não sei quem que o bebê morreu lá, decapitado pelo cordão!”. Eu conhecia os indicadores do hospital, tinha dados para trocar, os palpiteiros ficavam imediatamente constrangidos. E ponto.
      Palpite é diferente de troca, né!

      • Bárbara disse:

        isso me leva ao ponto que eu queria falar…

        trocar experiência é muito diferente de falar o que é certo e o que é errado. Respeito é bom e todo mundo gosta (e, diria meu pai, conserva os dentes tb). E julgamento é ruim.

        Mas, as pessoas têm que entender que não existe “eupiria”. Pra seguir o exemplo que a Gabi deu… vc pode ter tido uma experiência muito ruim no hospital X, conhecer gente cujo bebê foi decapitado pelo cordão assassino lá. Mas isso não esgota as possibilidades de experiência e não constitui um elemento válido para a generalização. Não é pq a vizinha da amiga do papagaio do primo do colega de trabalho do marido teve uma experiência ruim que o hospital é bom. (e vice versa)

        Não sei se fui clara… mas tento me explicar. Falei com minha família que não vou querer mamadeira em casa. Nossa, para que!? Foi uma chuva de palpites de que eu não vou dar conta, pq “todo menino toda mamadeira”. Pode até ser que “todos os meninos que eles conheçam tome mamadeira”, mas isso não é verdade. Existem váááários meninos que não tomam mamadeira. Eles só não estão no nosso meio de convívio próximo. Eu acho que é melhor não dar mamadeira e pronto. Vou pelo menos tentar bancar minha decisão.

        Isso quer dizer que eu ache que quem dá mamadeira para o filho é uma péssima mãe? Não. Isso quer dizer que eu ache que vou ser uma mãe melhor do que as que dão mamadeira? não. Cada um sabe de seus limites.

        Mas isso não faz da mamadeira uma coisa boa per se. Não faz a mamadeira a salvadora da amamentação. E não faz da indicação de mamadeiras e fórmulas por pediatras, na primeira dificuldade, uma coisa inócua do ponto de vista da amamentação exclusiva, como recomendado pela OMS…

  7. Marianna disse:

    Ola Gabi,

    Concordo com voce e discordo de Mario Quintana, quando o impacto pode ser social:

    “O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.”Mário Quintana‏

    Mas, também concordo com ele, quando o impacto e individual, aquele de angustias que devem ser tratadas em um consultório de Psicologia, Psiquiatria…e não como algumas vezes visualizamos tanta gente “lavando roupa suja” nas redes sociais…

    Empatia, amor e educação são os ingredientes básicos que os pais deveriam ter em suas próprias condutas antes de pensarem em serem pais…Muita gente quer ter filhos, ate muitos deles, porem ninguém quer ter “trabalho” e assim optam pela terceirizacao dos mesmos…

    Li em algum lugar que se educar seu filho esta muito fácil alguma coisa deve estar errada, para mim tem feito sentido…e uma rotina cansativa, cheia de desafios, que no final de cada dia nos traz a sensação de gratidão e “quase dever cumprido”, afinal, nossos filhos não estão prontos e nos também não…

    Beijocas,
    Mari

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *