Por que temos estatísticas de amamentação tão bizarras?

 

Eu já escrevi dois posts neste bloguinho sobre aleitamento. Em um deles, falava de doação de leite e, no outro, sobre como o apoio é importante para o sucesso da amamentação. Esta é a Semana Mundial de Aleitamento Materno e eu estava pensando o que tinha para escrever de novo sobre o tema. Achei que estava na hora de dizer o que penso de forma mais incisiva. Afinal, o que a vida quer da gente é coragem, né?

Participando de listas de discussão, escrevendo um blog sobre maternagem e tendo dado de mamar ao meu filho até mais de um ano, vira e mexe eu acabo falando do negócio. Falando e ouvindo. Ouvindo muito.

Em regra, as mulheres com as quais convivo não tiveram êxito na amamentação. Com exceção das mães que conheci nos grupos de apoio ao parto natural e à maternagem ativa, tenho apenas três amigas que conseguiram aleitar exclusivamente até os seis meses. Três. Preste atenção. Três. A maioria das outras recorreram ao leite artificial e à mamadeira quando os filhos eram bem novinhos. Algumas quando os bebês tinham poucos dias de vida.

Boa parte destas mulheres, pelas quais tenho o maior carinho, queria amamentar e se frustrou. Achou de que não era capaz. Que tinha algum defeito. Que o seu leite não descia, era pouco ou era fraco. Que o choro do seu filho era de fome.

Outra parte delas foi convencida de que o sacrifício era grande demais. Que não precisava passar por aquele desconforto, os peitos doendo, rachaduras, mastite. Amamentar as prendia, impedia que tivessem uma vida. Não podiam ficar presas a um bebê, tinham que voltar a dar conta daquilo que era sua responsabilidade antes da maternidade. Já tinham se doado muito, estavam acabadas, de pijama, dois meses depois de o filho nascer. Aquilo era um absurdo.

Há ainda outro grupo, que não encontrou alternativa. Não pode deixar de trabalhar, ou teve que voltar quando acabou a licença e não tinha nenhuma referência sobre como manter o aleitamento exclusivo nestas condições. Não foi orientada a ordenhar, não teve o apoio dos empregadores, nem dos cuidadores. Estava sozinha.

Isto tem me angustiado muito. Eu não acredito que as minhas amigas sejam defeituosas. Não acho que seis meses de dedicação a um bebê seja tempo demais, que vai acabar com a nossa vida. Tenho certeza que os preconceitos de gênero no mercado de trabalho não são culpa da licença maternidade (afinal, quase ninguém amamenta e eles continuam existindo).

Quando escrevi os outros posts, recebi comentários de leitoras queridas, que contaram sobre as suas dificuldades e mostraram que estavam convencidas que abandonar o aleitamento foi a melhor decisão a tomar. Eu não tenho know-how para julgar nenhum caso, nem interesse em fazer isto. Pode ser que seja verdade, que, para elas existia algum impeditivo biológico, psíquico ou social sério. Algumas destas mulheres disseram que sofrearam bullying por não dar de mamar, que existe uma demonização de quem não amamenta. Eu não vivi nenhum drama pessoal, mas acho, na verdade, que temos que ser críticas a um sistema imenso de despreparo e interesses que desestimulam as mulheres a alimentar seus filhos naturalmente. Nossas estatísticas – tão bizarras – comprovam isto:

  • 10% das brasileiras amamentam exclusivamente até os seis meses.
  • O tempo médio de aleitamento exclusivo no Brasil é de 54 dias.
  • 59% dos nossos bebês tomam mamadeira antes de um ano.
  • 42% das crianças da mesma idade usam chupeta.

Nascem 3.000.000 de bebês por ano no Brasil. Cerca 70% deles vai consumir mamadeira (e esterelizadores, bicos, escovas especiais) com menos de um ano. 60% vão comprar chupetas (dezenas, porque toda criança que eu conheço perde isto em todo lugar). Nenenzinhos de menos de dois meses vão ser assíduos consumidores de NAN (na internet, uma lata do mais barato custa R$20,00).

Eu não sou muito afeita da teoria da conspiração, mas me soa muito mal que a Sociedade Brasileira de Pediatria seja patrocinada pela Nestlé. Para mim, é um conflito ético indecente. Quando um médico recomenda que o bebê tome leite artificial porque não está ganhando peso “como deveria”, está colocando em risco o aleitamento materno. Está trocando o leite da mãe, que tem tudo o que a criança precisa – inclusive anticorpos e colo de mãe – por meras calorias. Pensa comigo: em sã consciência, quem troca nutrição e imunidade por peso? Quem conhece um pediatra que recomenda grupos de apoio ao aleitamento e consultoras de amamentação antes de indicar leite artificial?

Somos levadas a acreditar que, se um recém nascido chora, é sono, fome ou fralda suja. Se dormiu e está limpo, só pode estar chorando porque o leite da mãe não sustenta, ou não é suficiente. Não existe nenhuma angústia possível, nenhum susto, nenhum medo em um bebê que acabou de nascer. Nenhum estranhamento neste imenso mundo novo. Choro é fome. E se ele já estiver tomando NAN, é cólica ou refluxo. Motivo para trocar o leite por outro mais caro, e ainda gastar com um remedinho, né!

Temos que confiar mais, meninas. Se a maioria das mulheres fosse incapaz de alimentar seus filhos com seu próprio leite, a humanidade não teria chegado ao tamanho que chegou; o leite em pó só tem 100 anos. Fomos feitas para isto. Se você está com dificuldades, procure o banco de leite, ou um grupo de apoio. Escreva para mim que te dou um colinho. Cerque-se de gente que conseguiu.

 

Amamentação

Há posts muito bacanas na blogsfera falando sobre o tema:

 

Super Duper

 

Mamadeira nunca mais

 

Estuda, Melania, estuda

 

De peito aberto

Muito leite para nós! Beijos!

Crie o site do seu Neném

Sobre Gabi Sallit

Gabriella Sallit virou Gabi ainda pequenininha. E, para não ter um filho que tivesse que explicar a vida inteira a grafia do seu nome (aprendeu a falar "meu Gabriela é com 2 Ls" antes de papai e mamãe), escolheu um nome pequenininho para o seu filhote. João está começando a falar e já escolheu como prefere ser chamado: Jão!

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98 respostas a Por que temos estatísticas de amamentação tão bizarras?

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