O PEQUENO MUNDO DE ALICE E A SÍNDROME HELLP

Imagem: Arquivo Pessoal/Paula.

Desde que iniciei o trabalho que tenho desenvolvido, com o blog e com o canal no YouTube, uma das  coisas que mais têm me realizado (além de dividir minhas ideias com pessoas dispostas, assim como eu, a trocar e dividir) é ter a chance de dar voz também a outras mulheres. A história de Paula me tocou profundamente e quando ela me procurou, com a necessidade de compartilhá-la com mais pessoas, eu me senti honrada e, prontamente, abri todas as portas do blog.

Paula me contou que, na época em que atravessou a situação que vocês irão conhecer aqui, quase não encontrou material a respeito da Síndrome Hellp. Estou certa de que seu relato poderá conectar pessoas que atravessam, ou atravessaram, a mesma dificuldade que ela e que talvez, assim como ela, estejam se sentindo sozinhas e isoladas em seus dilemas. Agradeço à Paula, mais uma vez, pela confiança e tenho certeza de que muitas mulheres encontrarão apoio em suas palavras e serão ajudadas com sua história.

Com vocês, a história de Paula e Alice.

O PEQUENO MUNDO DE ALICE E A SÍNDROME HELLP

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo

Todos os dias antes de dormir
Lembro e esqueço como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder

Sempre ouvi que, ao me tornar mãe, minha vida se transformaria, que nunca mais seria igual. Quando ouvia isso, pensava: Será?

Hoje não tenho dúvidas… Apesar de que poucas certezas tenho nessa vida.

Há um ano, decidimos que estava no momento de engravidar. Casados há sete anos, com emprego estável,com casa própria e muito felizes. Tudo sempre planejado, mais uma vez, planejei. Por que planejo tanto? Hoje, já não sei…

Após quatro meses, engravidei. Comemoramos, apesar de ser um misto de felicidade e medo. Medo desse mundo novo que estava se abrindo, medo das responsabilidades que viriam e, ao mesmo tempo, felizes com a possibilidade de criar, de gerar e de reconhecer nossas capacidades. Hoje vejo que essa coragem é tão fácil de encontrar…

Planejei novamente: montei quartinho, comecei Yoga e drenagem. Estudei as possibilidades de parto, fiz pré-natal com um médico que confirmava minhas verdades humanitárias. Tinhas muitas certezas e muitas vontades!

Aos dois meses de gestação, já sabia da menina que esperávamos. Eu e Rafael nos olhamos e sabíamos que a Alice estava por vir e mudar nossas vidas. Realmente, Alice mudou tudo! E, como a Alice da história, foi uma menina que nos mostrou um novo mundo. Nos apresentou o mundo real, com as loucuras, alegrias e tristezas da vida normal.

Já um pouco mais tranqüilos com as novidades, decidimos dividir as alegrias com a família e amigos. Ao finalizar os cinco meses de gestação, já com todos os exames em dia e tudo 100% perfeito, resolvemos comemorar o aniversário do Rafaelem nossa cidade natal com o primeiro chá de fraldas: o chá da Alice.

Um dia antes da viagem, com tudo pronto, algumas dores no tórax começaram. Achei que fossem gases. Fiquei quietinha. Acordei bem e fomos comemorar. A festa foi linda, cheia de amigos, presentes e homenagens. Tudo com muito amor!

Alice, minha companheira, foi mais uma vez surpreendente: segurou, junto com seus papais, acabar a festa para mostrar seu sofrimento. Ao final da festa, as dores voltaram mais fortes. No outro dia, voltamos para a cidade que moramos e procurei o médico, pois, pelo menos uma vez ao dia, as dores apareciam.

E, a partir desta conversa, não paramos mais a comunicação. Dores que vem e vão. Dores no tórax?! O que pode ser isso?

A gravidez muda todo o corpo da mulher e começamos a desconfiar dos sinais que ele nos dá. Ainda mais em uma primeira gestação. Será que isso é normal? O médico examinou, examinou…e nada. Dois dias depois a dor veio forte junto com vômito e corri para o hospital.

A pressão arterial estava alta e a placenta era insuficiente, pequena demais. Alice crescia e o mundo dela continuava muito pequeno.  Quando ouvi isso, foi impossível não pensar na personagem crescendo ao comer parte de um pequeno cogumelo.E logo descobri que, na vida real, não há poções mágicas para ficar pequenininha de novo. O furacão em nossas vidas tinha nome: Síndrome Hellp! O que? O que é isso??Socorro!!

Começaram muitas duvidas, mas uma certeza: o tempo não era mais amigo. Eu estava morrendo e, em breve, Alice começaria a sofrer demais.

Síndrome Hellp, de forma bem simplificada, é da família da pré-eclâmpsia e da eclâmpsia; porém, em estágio grave. Pré-eclâmpsia é algo um pouco mais comum que se caracteriza, prioritariamente, por pressão arterial alta durante a gestação; na eclampsia, podem ocorrer convulsões. Na Síndrome Hellp, o corpo da mãe começa a entrar em falência em função da própria gravidez. Nesse momento, só existe um tratamento: a indução do parto.

Indução do parto no período de 23/24semanas de gestação significa a não possibilidade de amadurecimento do bebê fora do útero. Se não houver a indução do parto, o corpo da mãe não suporta e os órgãos (fígado, rim e coração) entram em falência.

O meu fígado estava entrando em falência!Alice e eu não poderíamos viver mais no mesmo corpo. Ela deveria ir e eu ficar? Nós deveríamos ir juntas?


Nosso suor sagrado
É bem mais belo que esse sangue amargo
E tão sério, e selvagem
Selvagem, selvagem

 

Escolher por esta separação foi a coisa mais difícil que já fiz em toda a minha vida. Eu fiquei e ela foi. Eu fiquei? Eu fiquei aonde? Onde estou?

A experiência dilacerante tanto do corpo quanto da alma só ameniza na relação com as pessoas que aparecem nas cenas após a “escolha”. Enfermeiros, médicos, técnicos de enfermagem que vivenciam a humanização do cuidado na atuação profissional fizeram do pesadelo algo suportável, algo possível de vivenciar apesar da dor. E companheirismo do Rafael que sofria e estava ali sempre presente…Segurando minha mão…Dividindo as dores e as incertezas. A dor do parto ficou tão pequena, tão minúscula… Como pude achar, em algum momento da vida, que a pior dor seria a dor do parto?

Veja o sol dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega é da cor dos teus olhos
Castanhos

Então me abraça forte
E me diz mais uma vez que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo

Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes acesas agora
O que foi escondido é o que se escondeu
E o que foi prometido, ninguém prometeu

A grande certeza da vida, a grande imperadora: a morte. Descobri, nesse momento, que não precisamos nascer para morrer. Ela é muito mais poderosa do que isso, ela não dá recado, ela não faz jogos neuróticos, ela não espera. Ela chega e, aceitando ou não a sua presença, ela está ali.

Agora sabia o que era estar com medo, sabia o que era coragem, sabia o que era dor e sabia que não podemos ter tantas certezas! Agora sabia o que era ser mãe, sabia qual é a dor da maternidade, sabia muito mais e ao mesmo tempo não sabia de nada, não planejava minha próxima respiração, não conseguia mais pensar, mais entender, mais viver da mesma forma. Tudo se transformou no momento em que fui mãe.

Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens
Tão jovens, tão jovens

A vida após a morte: a maternidade interrompida

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe?
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Nada sei.

Os dias que passaram após a perda da Alice foi de abraços e lágrimas. Dizem que reconhecemos os amigos quando as situações ruins acontecem. Nesse momento, descobri quem são meus amigos. Amigo-família, amigo-colega, amigo-vizinho, amigo-profissional de saúde, amigo-amigo. Amigo é aquele que estende a mão sem querer saber se você estenderá a sua mão para ele no minuto seguinte.

Acordar era um tormento, mas sempre encontrei um sorriso ou um abraço, seja do Rafael ou de outro alguém que também demonstrou amor por mim. Sentia-me partida, frustrada, dolorida…

Novos medos iniciaram: Como enfrentar o mundo fora do hospital? Eu queria sair de lá, mas voltar pra casa era algo também ameaçador. O quarto da Alice estava lá, os milhares de presentes que ganhamos estavam lá, as pessoas que me viram grávida estavam lá fora.

A cada inspiração, um enfrentamento; a cada expiração, um tormento. Como diz Camila Goytacaz: “Nunca tinha reparado quantas vezes ao longo do dia respondemos a esta pergunta. Tão simples, tão cotidiana, e agora tão difícil para mim: Tudo bem?”. Ela faz este relato, que faz todo o sentido para mim, no livro “Até breve, José!”. Importante ferramenta de transformação para toda mãe que perde um filho (www.atebrevejose.com).

A perda de um filho é algo tão maluco que pode acontecer sem o bebê ter existido de fato. O fato de uma mãe não poder ter um bebê já é um luto, a perda do sonho de ser fértil. As perdas invisíveis nos abortos são perdas reais nos sentimentos maternos. A perda durante a gestação, como foi no meu caso, tem a dor da saudade do que não vivi. Assim, como nas mães que tem seus filhos que se vão dias depois. A perda de um filho de 20 anos é cheia de dor e lembranças. Não existe dor maior, melhor ou pior. A pior dor é a da perda!

Penso que cumprir a vida seja simplesmente 
Compreender a marcha e ir tocando em frente 
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou.

Enfrentar o olhar do outro era minha possibilidade de seguir a vida, foi a minha luta diária pela sobrevivência. A cada encontro, um enfrentamento, um reviver. Lidar com esse olhar que fazia, a todo o momento, eu olhar para dentro era sufocante.

 Em outra perspectiva, quando se conta uma história dessas a alguém, este alguém também é mexido com suas histórias e emoções. Teve momentos em que eu precisei consolar o outro. Ao identificarem-se, no reconhecimento de sentimentos, pessoas contam de suas perdas para mim. Parece que uma mãe que perdeu reconhece a outra no olhar. E um número grande de mulheres desabafou sobre as perdas de seus filhos. E fui me dando conta, que as coisas podem acontecer… Não acontece somente com o vizinho, com o outro. Aconteceu comigo!

Todo mundo ama um dia, todo mundo chora, 
Um dia a gente chega, no outro vai embora 
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz 
De ser feliz.

O tabu social gerado, que esconde as mulheres que perdem seus filhos, entristece ainda mais a alma. Um casal sem filhos é uma família? Uma mulher que não tem filhos é menor, pior, desqualificada sobre aquela que possui os seus? Como uma mulher que não mantém a gravidez ou que não pode ter filhos é vista socialmente?

Perguntas essas que fazem milhares de mulheres se calarem! Sofrer em silêncio e somente abrir-se a outras que viveram a mesma dor é o normal-adoecedor de nossa sociedade da beleza e da alegria. Não senti vontade de calar, senti vontade de falar. Falar é difícil, mas cura. Falar o que o outro não quer ouvir não é fácil, pois aprendemos que precisamos agradar. Cada vez mais compreendo a importância de saber que coisas difíceis e doloridasacontecemcom qualquer um. Saber lidar com nossas dores e saber nos colocarmos no lugar do outro é o que nos faz humanos.

Ando devagar porque já tive pressa 
E levo esse sorriso porque já chorei demais 
Cada um de nós compõe a sua história, 
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
de ser feliz.

Conhecer as manhas e as manhãs, 
O sabor das massas e das maçãs, 
É preciso amor pra poder pulsar, 
É preciso paz pra poder sorrir, 
É preciso a chuva para florir.

Com o passar dos dias, eu vou costurando um pedacinho com o outro, e assim como uma colcha de retalhos, a vida vai acobertando e acalentando os sentimentos. São sentimentos que vão e voltam. É como uma saudade que chega e vai embora.

E a vida nunca mais será a mesma. Éa transformação permanente que alguns acontecimentos fazem na nossa história. É o mistério da vida que se faz presente. Essa compreensão da vida é o que a Alice, minha filha, me trouxe de melhor. Acredito ser a compreensão da vida em sua plenitude o ensinamento de qualquer filho aos seus pais.”

Paula – mãe da Alice

(mundodaalice2015@gmail.com)