E A DOR?

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Uma das perguntas (na verdade não é uma, são várias) que eu mais ouço, quando digo que meu parto foi domiciliar planejado (portanto, natural, sem analgesia), é sobre a dor: “Mas e a dor do parto? Como você fez? É tudo isso o que dizem mesmo?”. Bem, se por “dor do parto” e por “tudo isso o que dizem” entende-se “a sensação mais intensa e incontrolável que já vivi”, a resposta é sim, dói e é tudo isso o que dizem mesmo. Só que essa seria uma resposta muito superficial para uma pergunta que merece um mergulho profundo. Portanto, vamos por partes.

Não é possível raciocinar dessa forma, objetiva e simplista, quando se fala em dor do parto, por basicamente três razões. Primeira: não é “a” dor do parto. Não é uma, mas várias e são naturalmente orquestradas pela natureza de forma a evoluir em um ritmo e em um padrão que possamos suportar. Segunda: existem meios não farmacológicos para o alívio da dor, que podem ser utilizados em um parto natural (com resultados muito eficazes), tais como massagens, música, água, entre outros. Terceira (e mais importante): essa não é a dor que você conhece como dor.

Nossa sociedade está acostumada a associar a dor a uma experiência, necessariamente, negativa. A dor, por esse ângulo, é algo que devemos evitar. Afinal, as pessoas não costumam, por livre e espontânea vontade, buscar viver experiências negativas. O que acontece, no entanto, com a dor do parto é que não temos referência para compará-la. A dor do parto é desconhecida (o desconhecido assusta) e, além disso, é chamada de dor (se é dor, é “ruim”). Então por que eu vou querer sentir? Aí vem, talvez, a verdadeira resposta para a pergunta inicial.

Acreditem ou não, a dor do parto não é ruim e, na minha opinião, não deveria sequer ser chamada de dor. Quando nos preparamos (física e psicologicamente) para o parto natural e nos cercamos de uma equipe também preparada, o que as pessoas nomeiam como “dor” passa a se chamar “aquela sensação intensa e incontrolável que está trazendo o meu filho para os meus braços”, ou “é o meu filho chegando, estamos (eu e ele) abrindo passagem e essa é toda a intensidade do trabalho que estamos realizando juntos, para nos vermos pela primeira vez”, ou ainda tantas definições quanto partos houverem no mundo (porque cada parto é único, cada mulher é única, cada bebê é único). Em suma, a dor adquire um significado e isso muda tudo. Muda a nossa relação com a dor, transforma a percepção que temos sobre ela.

Eu costumo dizer que, para mim, é como se as sensações do parto (aquelas que chamam de “dor”) ficassem armazenadas em um lugar diferente do cérebro, diferente do lugar onde ficam as dores que já senti na vida. Para dar um exemplo simples: quando bato o dedo do meu pé, no pé de uma mesa, dói infinitamente mais do que doeu para parir o meu filho. Aparentemente, não há significado positivo em bater o pé na mesa. É uma sensação desagradável que atravessou o meu caminho e que gerou um estímulo doloroso, em um momento totalmente indesejado. No entanto, um filho não é uma sensação desagradável atravessando o nosso caminho e, geralmente, não é indesejado. Há uma enorme diferença entre uma experiência dolorosa e a chegada de um filho.

As sensações do parto se revertem em satisfação, em sensação de conquista, em empoderamento, em renascimento, em amor, em uma série de sentimentos indescritíveis e até mesmo em prazer. Se eu dissesse que senti prazer com as sensações que vivi no parto, eu não estaria mentindo. É prazeroso parir! Parir, de forma natural, humanizada, inteira e ativa é delicioso, quando a gente se entrega. É a melhor experiência que já vivi. Não há nada mais maravilhoso do que as sensações do parto, nem mais gratificante. Ter o filho nos braços, no final de todo esse processo, é a coroação de um percurso lindo, pelo qual mãe e bebê passam juntos. Assim como estiveram durante toda a gravidez, dividindo energias, dividindo emoções, dividindo amor, o fazem também no momento do parto e não há nada mais lindo do que isso. É tão maravilhoso e único, que a gente termina de parir um filho e já vem a vontade de ter outro, só pra poder viver tudo isso denovo.

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17 thoughts on “E A DOR?

  1. Oi! 🙂 Essa foi a descrição mais linda e significativa que já li sobre a “dor” de parir.
    Sou lésbica, estou num relacionamento estável e planejamos ter filhos. Provavelmente vou engravidar só daqui a uns 15 anos, mas AMO passar tempo lendo sobre o parto humanizado, que é um sonho meu (assim como a maternidade).
    Descobri o blog pelo instagram na semana passada e vou começar a acompanhar!
    Beijo e obrigada por compartilhar a tua experiência. Parabéns por ser mãe!

    1. Oi, Mica! Fico muito feliz em saber que o meu texto te sensibilizou. Desejo muita sorte na sua caminhada, em direção à maternidade. Seja muito bem-vinda, por aqui! Obrigada pelo carinho.

  2. Adorei seu relato. E parabéns! Admiro a forma como vê esse momento. Espero que, se eu tiver outro filho, minha experiência possa ser parecida. No meu caso, tive meu primeiro filho de parto normal, mas eu não me preparei tanto para o que poderia vir. Fiquei cinco dias sentindo contrações fortíssimas com intervalos de 5min. Não conseguia nem dormir. Fazia caminhadas, agachava e fazia forças a cada contração, tomei banho quente diversas vezes, bola suíça, mas acabei tendo meu parto induzido por causa do tempo (41 semanas e três dias) e eu estava tão fraca que, depois de seis horas de indução, implorei por anestesia, porque já estava desmaiando de tão fraca. Dormi assim que me deram a anestesia e, 1h depois, acordei já sentindo aquela pressão para fazer força e o bebê nasceu logo. Fui fraca e poderia ter aguentado um pouco mais sem precisar de anestesia, o que me deixou com uma baita dor de cabeça por uma semana depois do parto. Mal conseguia fazer nada. Espero que a próxima vez seja melhor.

    1. Obrigada, Ariane! Não se culpe por ter precisado de anestesia. Cada experiência de parto é única e é sempre um grande aprendizado. Felicidades para você e sua família!

    2. Ariane, quando nasce uma mãe, nasce uma culpada (ou um sentimento – zinho ou zão – de culpa). Você nutriu, acarinhou, embalou seu bebê por 41 semanas e 3 dias! Passou quase uma semana em trabalho de parto. Acha que foi fraca? Poderia ter aguentado mais? Talvez sim, talvez não. Mas com certeza você fez o seu melhor naquela hora! Cada ser humano, cada corpo, tem um limite. Não se deixe levar por essa sensação! Você fez o SEU MELHOR.

  3. Meu sonho é ser mãe. Eu e meu marido estamos tentando engravidar a três anos mas sem muita sorte.
    Gostaria muito de que minha gravidez e o trabalho de parto fossem especiais e únicos, como o o que você descreveu. Leio muito, estudo muito sobre partos domiciliares e humanizados, que foi a minha escolha. Já arrumei tudo, ate a banheira já tenho..hehehe, parece loucura, porque nem gravida estou ainda. Mas a minha maior preocupação é que onde moro os médicos não compartilham de nossas ideias e nem há doulas disponíveis. A cidade mais próxima que possui essa estrutura fica a 450km. Mas sigo com esperanças de conseguir, engravidar e que meu parto seja da forma que eu e meu marido sonhamos.

    1. Olá, Mariana! Não desanime! Tenho certeza de que você encontrará uma forma de viver o seu parto, da melhor forma possível, quando chegar a hora. Muita luz pra você, nessa caminhada!

  4. Que sua descrição, que materializa exatamente o que eu sinto, sirva de respostas àquelas pessoas que criticam o parto natural. O meu foi no hospital mas, foi sem anestesia nenhuma. Maior lembrança levada pelo resto da vida. Parabéns!!!

  5. Meninas optei por parto natural, fiquei 12 horas em trabalho de parto, fácil não é, mas a recompensa de ter o filho nos braços vale a pena. Meu marido assistiu e disse que nunca vai esquecer essa emoção. Momento único em nossas vidas. A gente pensa que não vai conseguir quando chega no final mas consegue sim. Mulheres corajosas as que optam por esse tipo de parto como diz a minha médica.

  6. Infelizmente não consegui ter um parto natural nas minhas duas gestações, por motivo de risco de morte, tive pré eclampsia. É uma sensação que não tive o prazer de sentir, digo prazer, porque apesar de ser assustador para muitas mulheres, acho que como seu texto define bem, essas sensação, que passa longe de ser comparada com dor ;porque tive contrações e tentei convencer o médico a fazer o parto natural, mas ele me explicou que o trabalho de parto podia ser muito exaustivo e aumentar mais ainda minha pressão, não tive escolha, mas parabéns a todas as mulheres que são corajosas, fortes, decididas e maravilhosas ao ponto de escolher o parto natural

    1. Essas coisas fazem parte da vida, Suzan. Cada mulher tem uma história com seu parto e nada, na vida, é por acaso. Tudo é aprendizado. Você fez o que podia e deve se orgulhar disso. Luz pra você!

  7. Tenho um sonho de ser mãe um dia e junto com esse sonho vem o sonho de ter um parto humanizado, acho a coisa mais linda do mundo e mesmo que exista essa “dor” eu quero senti-la. Obrigada por compartilhar suas experiências conosco, acabei de descobrir o blog por um post no facebook e pode ter certeza que acompanharei de agora em diante, adoro ler sobre o mundo da mamãe e bebê e esse blog é lindo demais! Um beijo :*

    1. Obrigada, Jéssica! Fico muito feliz em saber que minhas experiências, de alguma forma, tocaram você. Muito feliz também em saber que você gostou do blog. Obrigada pelo carinho. Muita luz na sua caminhada!

  8. Rs…Então encontrei uma chamada de “doida”como eu. Também usei mentalmente a frase: ” Isso não é dor, é o momento mais importante pra mim, e o momento que traz meu filho, o que é mais importante pra mim”. E assim, ele chegou cheio de luz e muita saúde a quase 7 anos atrás. E durante todos os anos , no seu aniversário, vem a tona o sentimento de quero mais. Parabéns e obrigada por compartilhar essas palavras para que outras mulheres possam entender e trabalhar o seu psicológico. Gratidão!

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