NASCIMENTO DO FRANCISCO

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Esta é uma singela contribuição para o (tão necessário) movimento de humanização do parto: meu relato. Que se fortaleça, cada vez mais, o movimento e a alma das mulheres!

Compartilho, aqui, uma parte da minha alma, do meu coração, da minha vida, em nome de algo que considero maior. Se este relato ajudar a tocar, inspirar e esclarecer, ao menos uma pessoa, já terá valido a pena.

Gratidão!

Nascimento do Francisco
ou
Uma viagem ao centro da vida: breve relato de uma experiência de parto.

Trinta e oito semanas, seis dias, quatro e meia da manhã, uma contração. Senti que algo diferente estava acontecendo. De repente, tinham se passado cinquenta minutos e, junto com eles, dezoito contrações. Parecia que o tão falado “trabalho de parto” tinha começado. Expectativa, felicidade, ansiedade, uma mistura de sensações e, sete e meia da manhã, a equipe começava a chegar. “Mas já?”. Era mesmo trabalho de parto! “Não acredito!”, “É hoje!”, “Ele vai nascer!”, “Será que é isso mesmo?”, “Pega os materiais, no quarto do Francisco!”, “Preciso avisar a minha mãe!”, “Autoriza os nomes na portaria!”, “Vou pro chuveiro!”, “Enche a banheira!”. Sim, tinha começado. Sim, meu filho ia nascer. Não, não dava pra pensar em mais nada. Só que tudo começa bem antes disso.

A primeira coisa que devo dizer sobre a minha experiência de parto é que é impossível relatar o parto, pelo menos para mim. O parto parece tão inteiramente feito para ser vivido, que não há linguagem compatível para reproduzi-lo. Nem em palavras, nem em imagens… Nada dá conta do que acontece no breve (brevíssimo) espaço de tempo entre a primeira contração e a chegada de um filho em nossos braços.

Mesmo assim, vou me esforçar. Afinal, desde que meu filho nasceu, morro de vontade de registrar o que vivi, mas estava esperando. Esperando o melhor momento, esperando as melhores palavras. Impossível! Entendi que jamais haveria momento ideal e que eu jamais encontraria as palavras certas. Decidi começar.

Não há nada neste mundo que eu tenha desejado mais do que ser mãe. Se tinha uma certeza na minha vida, desde que nasci, era a maternidade. Parecia haver uma mãe dentro de mim, desde a infância, e o tempo só fez desabrochar, mais e mais, essa mãe que eu sempre quis ser.

O tempo correu, voou, e chegou o momento. Tudo parecia conspirar a favor do meu grande sonho e assim foi. Parei de tomar a pílula e, três meses depois, lá estava uma sementinha dentro de mim. Uma semente de energia que, desde o primeiro minuto, já sinalizava que tinha vindo para mudar a minha vida. Então, se eu estava diante do maior de todos os meus sonhos, não fazia sentido viver nada pela metade. Eu tinha que mergulhar, como sempre fiz, mas dessa vez mais profundo. Precisava me entregar. Eu queria sentir, inteiramente, toda a intensidade de me tornar mãe e ninguém poderia me tirar esse direito.

Foi com a proposta clara de um “despir-se do mundo para viver o nosso mundo”, que nossa sementinha chegou e nos conduziu ao universo do parto humanizado. Embora já conhecesse o assunto, a escolha (eu sentia) era do nosso filho também! Antes mesmo de engravidar, andei vendo vídeos de parto domiciliar e sites de parto humanizado. Nada podia ser mais natural que aquilo.

O que, definitivamente, não teve nada de natural foi a postura, por vezes, disfarçada, porém absolutamente cesarista, da primeira médica que colsultei. “Ah, você quer normal…”, “Corajosa, hein!? Mas se é o que você quer, vamos tentar.”, “Vamos ver… Se você conseguir, a gente faz!”, “O problema do parto normal é que, chega na hora, as mulheres não coneguem. Elas não aguentam a dor”, “Já vi tantas como você, mas chega na hora elas imploram pela cesárea. A gente nem precisa falar nada. Tomara que você consiga!” “Parto na água? Você já viu como é nojento!? A banheira fica cheia de sangue.”, “Eu acho que doulas deveriam ser proibidas de entrar em hospitais!”. É claro que eu não ia pagar pra ver o que já estava evidente. Ela ia me conduzir a uma cesárea, usando a primeira desculpa que encontrasse, independentemente de qualquer indicação. Não dava pra confiar. Lembrei de tudo o que havia visto sobre humanização, mostrei para o meu marido e saímos correndo do consultório, para o paraíso.

Entendíamos que o modo como nosso filho ia nascer, muito mais que uma escolha, era o maior e melhor investimento que podíamos fazer. Um investimento no futuro dele, no futuro da nossa família. Um investimento na forma de ele se relacionar com o mundo. Um investimento no amor. Independentemente de onde fosse acontecer o parto, a decisão mais importante já tinha sido tomada: a chegada dele a esse mundo tinha que ter o mesmo amor que estava lá, quando ele foi concebido.

Marquei a consulta com o que se costuma chamar “obstetra humanizado”, mas que pra mim foi bem mais um Anjo da Guarda. Finalmente estávamos em casa! Alguém tão humano quanto nós, tratando a nossa sementinha de forma tão natural quanto ela era. Que alívio! Foi lindo! Nunca pensei que uma consulta, com a pessoa certa, pudesse ter tanto poder. Nosso Anjo da Guarda revelou a confiança que havia em nossos corações, a força que havia em nosso corpo e a natureza que estava, o tempo todo, na nossa alma.

Lá fomos nós (meu marido e eu), renovados e cheios de energia, estudar, conversar, buscar toda a informação possível, para que eu pudesse protagonizar o momento que era meu, para que pudéssemos viver com plenitude as emoções que eram nossas. Quanto mais líamos, quanto mais estudávamos, mais se tornava clara, natural e segura a opção pelo parto domiciliar.

Com uma gestação leve, saudável, tranquila, esclarecidos, bem informados e cercados de profissionais qualificados, não tínhamos mais dúvidas. Queríamos que nosso filho fosse recebido em um ambiente de amor, da forma mais acolhedora, humana, familiar, natural e inteira possível. Queríamos viver intensamente essa experiência e estávamos certos de que a nossa natureza e os nossos instintos estariam ao nosso lado, para isso.

Escolhemos o parto domiciliar, porque não dava pra imaginar um ambiente melhor para o nascimento de uma família, da nossa família. Embora estivéssemos conscientes de que, na vida, nem sempre as coisas acontecem do jeito que planejamos, uma certeza era maior: fizemos tudo (tudo mesmo) para garantir, a nós três, o nascimento mais humano de todos. Por isso, estávamos tranquilos para viver e aceitar a nossa experiência, como ela tivesse que ser.

Eu estava com 38 semanas e 6 dias de gestação e já vinha sentindo contrações, havia pouco mais de uma semana, mas às 4:30 do dia 8 de julho de 2014 tudo ficou bem diferente. Começava a poesia da vida, assim mesmo, como momentos de poesia acontecem, de coração para coração. Sem aviso prévio, sem planejamentos (por mais planejamento que se tivesse feito), sem controle, sem racionalidade. Entrei numa viagem sem volta, cujo percurso me trouxe o meu maior tesouro: meu filho.

Contrações intensas, todas muito próximas. Uma intensa experiência de parto, um intenso momento de vida. Eu não pensava, apenas respirava, me entregava, movia meu corpo conforme sentia a direção. Era tudo entre eu e meu filho. Uma comunicação direta, sem intermediários, sem palavras. Ninguém podia nada, mais do que eu, naquele momento.

Meu filho me convidava para a nossa última dança, ainda como partes de um mesmo corpo. Éramos, por mais alguns instantes (eu não sabia quantos), um só. Depois, seríamos dois, seríamos três, mas ainda assim continuaríamos sendo um (só que de outra forma): seríamos família. Quem pode negar o pedido sincero, do coração de um filho?

Dancei, dancei, dancei com meu filho, como se ninguém estivesse vendo. A cada novo passo, a cada respiração, a cada movimento, tudo ficava ainda mais intenso. Eu ficava, pouco a pouco, de frente com a minha animalidade, até fundir-me a ela. Quanto poder, quanta plenitude eu pude sentir em encontrar a minha fera, em ser animal. Mais do que no discurso, mais do que no intelecto, naquele momento, eu, meu filho e o universo éramos uma coisa só. Nós éramos universo!

Muito provavelmente nenhuma experiência jamais me dará aquele instante, aquela sensação de expansão total, de ocupação de espaço, de harmonia, de natureza, de animalidade. Muito provavelmente nenhuma experiência jamais me dará tamanha sensação de humanidade, porque nada poderia me trazer mais humanidade do que me sentir tão animal.

Depois de muita dança, de muita música, de muita intuição, de alguns sons que jamais saberei reproduzir, chegou o meu menino, meu filho, minha vida. 16:03. Na água, como sempre sonhei (e sem nenhuma gota de sangue!). “Meu filho!”, “Eu não acredito!”, “Como você é lindo!”, “Eu te amo!”, “Você viu, filho, como você nasceu assim, suave!?”. Entre lágrimas e sorrisos (tudo ao mesmo tempo), eu, uma nova mulher.

Assim, como num piscar de olhos, de repente, meu coração estava fora de mim. Eu mesma o aparei. Peguei meu coração e ele retornou imediatamente ao meu peito, só que agora fora do meu corpo. Ali ficamos, colados, grudados, numa continuidade única, que só se pode sentir ali. Meu filho nasceu, mas nunca saiu de mim. Que benção! Se eu achava que sabia o que era plenitude, descobri (naquele instante) que eu não sabia mesmo de nada. Plenitude era aquilo. Plenitude éramos nós. Plenos de vida, plenos de amor, plenos de entrega.

É por tudo isso que, como disse lá no começo, não posso relatar o meu parto, embora saiba da importância que isso tem. O que posso fazer é apenas o que, de forma singela, tentei aqui: ser, sentir, estar (novamente e sempre). Porque o parto não é só o parto. O parto é o ponto de convergência entre tudo o que você já foi e tudo o que você pode vir a ser. O parto é tudo. É vida, é morte, é renascimento. Como eu disse para o meu marido: “parece que eu atravessei um portal!”. O parto é um portal, para ser atravessado por toda a família. Como abrir mão do parto? Aquelas horas todas, a dor, a entrega, tudo tem um significado, um sentido. Tudo no parto tem uma razão de ser e se eu não tivesse vivido isso, tenho certeza de que muita coisa estaria incompleta.

O parto é entrega, é a total falta de controle sobre tudo. É permissão, é confiança (em si mesmo e na natureza, que é perfeita). Não se trata de fazer nada. Trata-se de permitir, deixar acontecer. Quando nos entregamos à “não ação”, quando nos fundimos à sensação, o parto simplesmente acontece e acontece rápido, fluido (mas que exercício é “não fazer”, que exercício é não pensar!). Não importa quantas horas dure um parto, ele sempre será rápido. Será sempre um piscar de olhos, para o tamanho da passagem que ele representa. Não há o que temer, não há com que se preocupar. A entrega é garantia de satisfação.

Como é bom ter vivido isso! Como é bom parir! Como é bom parir apenas sob efeito dos hormônios do amor! Poucas coisas podem ser tão gratificantes quanto isso!

Gratidão eterna! Agradecerei, até o fim, por ter tido pessoas tão especiais perto de mim, no momento mais importante da minha vida. Pessoas que souberam, com toda a sensibilidade, extrair a essência do meu Plano de Parto e coloca-lo em prática. Pessoas que sabiam “não fazer” (e como isso é importante no parto!). Nunca me senti tão profunda e inteiramente respeitada, nunca! Isso não tem preço.

O meu mais sincero agradecimento ao meu Anjo da Guarda (obstetra, que me devolveu tudo o que eu precisava para viver o meu parto: a confiança), à minha obstetriz (cujo olhar me fortaleceu mais do que qualquer palavra poderia ter feito), à minha doula (que tão generosamente me emprestou sua mão, que eu certamente machuquei), ao pediatra (que tão amorosamente cuidou do meu tesouro, sem nunca separá-lo de mim), mas acima de tudo ao meu marido (que embarcou nessa comigo, que apoiou minhas escolhas e que tão generosamente me emprestou também sua mão, junto com a minha doula).

Obrigada, universo, por ter me permitido viver no meu parto muito mais do que eu pedi! Foi lindo! Foi único! Foi meu!

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6 thoughts on “NASCIMENTO DO FRANCISCO

  1. Nossa, que sensibilidade para falar do seu parto. No fim das contas, eu acho que o meu foi bom também, mesmo não saindo do jeito que eu esperava. Deus sabe das coisas. Minha gravidez foi tranquila, mas eu queria que meu marido estivesse junto nesse momento, embora ele estivesse trabalhando na África. Fiquei feliz que ele chegou exatamente algumas horas antes de induzirem meu parto e pôde estar presente. Acho que meu bebê demorou cinco dias pra nascer justamente para esperar o papai. E conseguiu. 🙂

  2. Emocionada *–* completamente lindo, espero que quando me tornar mãe eu encontre pessoas que me ajudem a realizar meu sonho do parto humanizado. Meus parabéns! Espero que mais mães sintam vontade de realizá-lo <3

    1. Obrigada, Kethleen! Com certeza, você também vai conseguir. Continue buscando informação. Essa é a melhor forma de garantir a realização do seu sonho. Muita luz pra você!

  3. Lindo seu relato! Chorei! Emocionada com sua trajetória em busca de um parto lindo como foi, parabéns! Mas chorei também de frustração…Sonhei com um parto assim desde antes de engravidar, e quando me vi diante da realização do maior sonho da minha vida, fui conduzida a uma cesária que até hoje não entendo bem o motivo…Sinto-me ultrajada, roubaram de mim o que mais desejava sem me explicarem nada do que estava acontecendo…confiei na palavra de uma pessoa que por usar um jaleco branco intimida tanto…Hoje depois de pensar analisar, ler a respeito, penso que talvez realmente pudesse ter sido diferente. Mas a frustração é tão grande! Me sinto culpada, penso que talvez pudesse ter corrido atrás de outras formas, mas nem sei quais…Cheguei a visitar reuniões em um grupo de apoio ao parto humanizado, mas o custo para ter um parto domiciliar era tão alto que meus padrões financeiros não me permitiram realizar este sonho. É muito triste saber que no Brasil para conseguir fazer algo tão natural como parir você precisa ir contra tudo e todos e ainda assim encontrar dilemas como o meu que era a falta de recursos para ter o tão sonhado parto domiciliar…Pensei que quando chegasse na maternidade em trabalho de parto (como aconteceu comigo) iriam me conduzir a um parto normal pelo menos, mas mesmo assim fui desrespeitada, contrariada sem que me dessem uma explicação plausível para uma cesariana e me tiraram um dos maiores sonhos da minha vida, parir.
    Lamento que para conseguir parir a mulher brasileira precise sofrer tanto, e nem é a dor do parto em si, é toda essa trajetória de dificuldades, que você conseguiu enfrentar com sucesso, mas que eu não cheguei até o fim. A falta de recursos financeiros me bloquearam no meio do caminho e não pude pagar pelo parto domiciliar…
    Descobri que neste mundo os sonhos tão simples também tem preços e que muitas vezes não podemos pagar…

    Espero ainda poder vivenciar todo esse universo do parto em minha próxima gravidez que estamos planejando…

    1. Olá, Maressa! Gratidão pelo carinho e pela confiança. Gratidão por compartilhar, aqui, um pouco da sua história. Infelizmente, histórias como a sua ainda são muito comuns, aqui no Brasil. Estamos caminhando, estamos evoluindo, mas essa caminhada é lenta e gradual. Muita coisa já mudou, mas muito ainda precisa mudar. Não se culpe pelas coisas que não ocorreram do jeito que você sonhou. Cada mulher tem uma história para viver com o seu parto. Tenho certeza de que você saberá encontrar um sentido para tudo o que aconteceu. Se você sonha em ter outro filho e ressignificar sua experiência com o parto, certamente desbravará os caminhos necessários para isso. Não desista dos seus sonhos! Um beijo grande! Carol

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