POR QUE COMPREI UMA BONECA PARA O MEU FILHO

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Essa semana chegou o casal de bonecos de pano (feitos pela querida amiga, Dona Dany) que encomendei para o meu filho. Certamente ninguém vai estranhar o fato de ter comprado um boneco, mas alguns poderão estranhar o fato de ter comprado também uma boneca. Portanto, resolvi escrever algumas linhas sobre o assunto para dizer que, sim, eu encomendei um casal. Sim, comprei uma boneca para o meu filho e achei que poderia ser uma reflexão valiosa explicar o motivo.

Comprei uma boneca para o meu filho porque não quero vê-lo crescer com preconceitos. Comprei uma boneca para o meu filho porque quero que, em suas brincadeiras, ele possa exercitar sua relação com o feminino. Para que isso não seja um tabu, para que não seja uma energia presa em sua vida. Para que ele entenda, aceite e acolha o feminino que há dentro dele e para que ele respeite o feminino quando for se relacionar com isso. Comprei uma boneca para o meu filho porque quero que ele aprenda a tratar as mulheres com carinho, porque quero que ele aprenda a demonstrar sentimentos. Meu filho tem, agora, uma boneca porque um dia, talvez, tenha uma esposa e, talvez, tenha uma filha e também porque ele tem uma mãe. Meu filho poderá exercitar seus sentimentos com essa boneca porque não podemos mais educar nossos meninos, fingindo que o feminino não existe (neles e no mundo), porque não podemos mais deixar crescer homens que não compreendam o valor das diferenças, das sutilezas, das delicadezas. Nosso mundo não comporta mais essa negligência, essa violência. Nosso mundo precisa de amor.

Dia desses, entrei em uma loja, com meu filho no colo, e disse: “Eu gostaria de ver aquele ursinho. Que cores você têm?”. Prontamente, a atendente respondeu: “Para menino, acho que só vou ter mesmo azul e marrom.” Insistindo mais um pouco no fato de que eu queria saber que cores ela tinha, descobri que, além do azul e do marrom, havia creme, branco, vermelho e rosa. Essa cena (que se repete muitas vezes, nos mais diversos tipos de loja) me fez sair dali com uma sensação de profundo desconforto: “Até quando vamos condenar nossos filhos a crescerem em uma guerra de gêneros?”.

Pode parecer bobagem, ou exagero, mas eu não acho. Penso que essa nossa forma de impor estereótipos às nossas crianças nos desvia do que, de fato, importa: a felicidade dos nossos filhos. A ditadura do status e da “auto-afirmação a qualquer preço”, parece estar sempre reduzindo nossas relações a uma competição na qual não há vencedores, mas apenas perdedores. Perdemos a solidariedade, perdemos a sensibilidade, a capacidade de empatia… Nesse caminho nos perdemos de nós mesmos. Na minha opinião, é isso o que nossa sociedade mais tem ensinado aos nossos filhos: como se perderem de si mesmos. Depois, esses novos seres pensantes passam o resto da vida tentando se reencontrar, tentando se despir do que derramamos sobre eles, desde a infância.

Nossos pequenos nascem livres de preconceitos, livres de tudo, e encontram uma sociedade preparada para atropelar a sua pureza. A maldade está no nosso olhar (não está neles) e poderá estar, ou não, nas crenças que transmitimos, a cada frase que dizemos. Nós temos o poder de escolher e devemos nos apropriar disso, tornar essas escolhas conscientes. Enchemos nossos filhos de padrões e ideias pré-determinadas, desde as pequenas coisas e, depois que os tornamos adultos preconceituosos, vemos uma sociedade falando em luta por igualdade. Estamos invertendo tudo. A luta pela igualdade (ou qualquer outra luta que a sociedade deseje começar) começa lá na base, na educação que transmitimos em casa. A luta pela igualdade está no momento em que escolhemos dizer a um menino curioso que “isso é coisa de menininha”. Está quando escolhemos dizer às nossas meninas que “uma mocinha não se comporta dessa maneira”. Precisamos quebrar esse ciclo, não parece óbvio? Mas por que é tão difícil? Do que a sociedade tem medo?

Talvez tenhamos medo de criar gerações com sexualidade “mal resolvida”, como se vestir um menino de azul e uma menina de rosa significasse alguma coisa além de mostrar à sociedade que estamos dentro do padrão que ela espera de nós. Talvez tenhamos medo de que nossos filhos se tornem homossexuais, bissexuais, transexuais, drag queens, ou seja lá o que for, como se isso fosse o importante na relação com nossos pequenos e como se dar um carrinho ao menino e uma boneca à menina fosse garantia de alguma coisa. Não há garantia de nada, quando se fala em maternidade. No entanto, se existem atitudes que nos aproximam da possibilidade de uma vida feliz e harmoniosa, elas certamente estão intimamente ligadas à compreensão, ao acolhimento, ao amor e não ao julgamento.

Acho mesmo que as respostas para essas questões que, como eu disse, parecem bobagens para muita gente são, na verdade, muito mais complexas do que se possa imaginar. De quem é o interesse em fazer meu filho acreditar que ele será menos menino se brincar de bonecas? É meu interesse? Não. É seu o interesse em fazer sua filha acreditar que se ela andar de skate será menos feminina? Pense sobre isso. Pode ser que o problema de ter uma sociedade que não ensine preconceitos às crianças seja o de desestabilizar um sistema que lucra muito bem com as coisas funcionando da forma como estão. Se criarmos filhos emocionalmente seguros, com espírito crítico, para a construção de uma sociedade mais justa, quem sairá perdendo, quem terá de se reinventar? Talvez uma máquina que sobrevive às custas das nossas inseguranças e fragilidades emocionais. Afinal, como continuar estimulando as pessoas a consumirem, cada vez mais, se o foco delas deixar de ser a necessidade de superar umas às outras, o tempo todo? Acho que vale a reflexão.

É por tudo isso, que meu filho poderá sempre brincar com os brinquedos que lhe chamarem atenção, independentemente do que a sociedade me disse que é brinquedo pra ele ou não. Ora bolas, não existe brinquedo “de menina” e brinquedo “de menino”. Brinquedo é feito para a criança. Não importa o gênero. Criança tem que brincar. Tem que brincar daquilo que ela quiser, daquilo que é genuíno para ela. Quero que meu filho se torne um homem que respeite o próximo (independentemente do sexo, da cor, ou de qualquer outra característica), quero que ele respeite a natureza, os animais, quero que ele respeite esse planeta, que é a nossa casa. Quero que ele se preocupe em dar e receber amor. Acima de tudo, quero que ele seja feliz. Na minha opinião, essa é uma construção que começa na minha forma de brincar com ele. É nas nossas brincadeiras, desde agora, que se formam as bases para o futuro emocional dos nossos filhos. Portanto, acho que devemos todos pensar, diariamente, em quem são as pessoas que queremos deixar para o mundo. Será que os estímulos que fornecemos são coerentes com o que desejamos para o futuro deles? Eis uma reflexão, um mantra, para inserirmos em nossa vida.

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