POR QUE DECIDI PARAR E FICAR COM MEU FILHO

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Existe (pelo menos eu percebo) uma cobrança social muito grande, para que a mulher seja uma mulher-maravilha. Para que ela dê conta de todas as coisas. Que cuide do bom funcionamento da casa, do casamento, dos filhos, trabalhe fora e ainda consiga se manter sempre linda. Quando isso não é possível (e quase sempre não é), começam os mais diversos tipos de comentários e perguntas, destilando sobre a mulher (o que eu sinto como) uma espécie de perversão social. Algo do tipo “quero ver se você está fazendo sua lição direitinho”, parece estar por trás de muitas das manifestações julgadoras que vejo por aí, quando uma mulher demonstra qualquer tipo de fragilidade. É quase como se todas as conquistas (importantíssimas) das batalhas femininas, em anos e anos, (de repente) se voltassem contra nós, em forma de aprisionamento.

A primeira pergunta que ouço, de grande parte das pessoas, é “E aí, já voltou a trabalhar?”. Não me perguntam como eu estou, como é lidar com os dilemas da maternidade, como tem sido cuidar de tudo sozinha (já que meu marido e eu moramos distantes de nossas famílias e, portanto, não podemos contar com uma rede de apoio mais presente – tão importante num momento como esse). Enfim, a maioria das pessoas não quer saber sobre a mulher, a mãe Carol, nem tampouco sobre o meu filho. Elas querem saber se eu estou “dando conta do recado” de ser uma mulher “moderna”. E se eu não quiser ser uma mulher moderna? Ou pelo menos não nesses moldes que se estabeleceram aí fora. E se modernidade, pra mim, for outra coisa? Bem, aí entram os olhares tortos e os julgamentos, que não partem apenas das pessoas que não têm filhos e não podem supor o que estamos vivendo. Pasmem, os julgamentos partem também de outras mães. Foi observando esse cenário todo, mais alguns acontecimentos recentes (que são assunto para outro post) e outros nem tão recentes assim, que comecei a iluminar essa questão e refletir melhor sobre os motivos que me levaram a dar uma pausa na vida, para me dedicar ao meu filho.

Ter uma gravidez planejada me permitiu uma aproximação, bastante precoce, com temas que acabariam mudando completamente o meu rumo. Desde o início da gestação, eu já busquei o parto humanizado e, muito rapidamente, soube que queria que fosse domiciliar. A partir daí, muito estudo e dedicação exclusiva à gestação e à preparação para o parto, fizeram com que eu, gradativamente, fosse ampliando a minha visão sobre maternidade. De uma coisa eu tinha certeza: o modo como chegamos ao mundo é decisivo para o modo como vamos ver o mundo. Portanto, se eu desejava que meu filho fosse uma pessoa que vibrasse na energia do amor, eu precisava recebê-lo dessa forma. Partiu daí todo o meu processo de busca por um parto que fosse o mais natural, respeitoso e amoroso possível. Mas e depois? Depois, os bebês crescem e trazem outras demandas. Depois do parto, eu teria o meu filho comigo, pelo resto da vida. Que tipo de mãe eu queria ser (para além do óbvio e das coisas que eu já sabia)? A visita do pediatra neonatologista, à minha casa, começaria a me conduzir a algumas das respostas para reflexões que, certamente, serão eternas.

Lembro como se fosse ontem, do dia em que o pediatra que acompanhou o nascimento do Francisco esteve aqui em casa, pela primeira vez. Ele veio para conversar comigo e com meu marido, antes do parto, saber um pouco mais sobre a gente, sobre o percurso que trilhamos na escolha do parto domiciliar e também para conhecer o caminho da nossa casa. No final da conversa ele nos parabenizou, pelo cuidado que estávamos tendo com o nascimento do nosso filho, e complementou: “Desejo, a vocês, que consigam manter uma coerência com o parto que estão escolhendo. Que vocês consigam manter essas escolhas, na criação do Francisco.”. Aquilo veio pra mim como um insight, altamente revelador, que iria se potencializar ainda mais, após o nascimento do meu filho. O comentário só tinha feito iniciar o aprofundamento (que mais tarde se tornaria uma queda livre), em direção ao desconhecido universo da maternidade.

Até então eu estava tão completamente imersa nas questões relativas à gestação e ao parto, que era como se tudo se resumisse a isso. Só que, de repente, abriu-se a porta de um imenso caminho, a partir daquele comentário. O que, afinal, era ser coerente com o tipo de parto que eu estava buscando? Como seria a criação do meu filho? Que tipo de mãe eu queria ser? Eu percebi que precisava começar a buscar essas respostas, o quanto antes. Não podia esperar o meu filho nascer, para pensar sobre isso. Senti uma urgência em me preparar, porque percebi que tudo o que eu estava fazendo para garantir uma chegada acolhedora (ao mundo) para o meu pequeno, era (sim) fundamental, mas que havia uma parte gigantesca do meu envolvimento como mãe, à qual eu ainda não tinha dado a devida atenção.

Eu achava que, em pouco tempo, voltaria a trabalhar. Que quando meu filho tivesse, mais ou menos, um ano eu já conseguiria colocá-lo em alguma escolinha (como a maioria das mães que eu conhecia) e que então, aos poucos, a minha vida iria voltando a ter rotinas mais semelhantes às que eu tinha antes da gravidez. Até que o Francisco nasceu e mostrou que o meu caminho, como mãe, era o de um mergulho ainda mais profundo e muito mais intenso, do que eu jamais poderia supor.

Comecei a perceber que para ser coerente com tudo o que eu estava fazendo na minha gestação, eu teria que pensar e repensar sobre muitos dos meus conceitos e também sobre a minha vida. Eu precisava refletir sobre o que eu desejava para o meu filho, mas também sobre o que eu desejava para o mundo e para a humanidade. Em uma sociedade que quer simplesmente encaixar os nossos filhos no mundo, eu decidi me perguntar sobre como preparar o meu filho para construir o mundo que eu desejo para ele, mais do que isso, o mundo que ele desejar? Em uma sociedade que está mais preocupada em transformar nossos filhos no que ela quer que eles sejam, do que em perceber quem eles (de fato) são, eu optei por andar na contramão. Colocar um ser humano nesse planeta, e criá-lo, é das “aventuras” mais arriscadas que se pode viver. É uma responsabilidade gigantesca, não apenas com o ser que está em formação, mas também com o próprio mundo. Ser mãe é também uma responsabilidade social. Afinal, essa pessoinha será, no futuro, um agente transformador de realidades, assim como cada um de nós.

Portanto, se eu acredito que a humanidade precisa de mais amor e de pessoas cada vez mais abertas a se relacionar umas com as outras, na busca de uma sociedade mais justa, eu precisava descobrir o meu próprio caminho, como mãe, para mostrar ao meu filho que o mundo pode, sim, ser bom, amoroso e justo. Eu entendia que, para que meu pequeno pudesse buscar um mundo melhor, ele deveria ter referências reais de um mundo melhor. Esses exemplos tinham que começar dentro de casa. Assim, quando ele chegar lá fora, vai saber onde buscar seus sonhos e seus desejos, porque carregará dentro de si a segurança que só o verdadeiro amor é capaz de construir. Senti então que o melhor caminho para tudo isso era o caminho do respeito. Garantir que, acima de tudo (desde o primeiro instante de vida, até as pequenas rotinas diárias), o meu filho se sentisse respeitado. Que fosse respeitada a sua essência, o seu tempo, as suas necessidades, os seus limites. Queria que ele tivesse espaço e acolhimento para ser ele mesmo, para manifestar as suas potencialidades.

Foi aí que comecei a perceber que talvez eu não fosse voltar a trabalhar tão logo, quanto imaginei e, assim que peguei meu filho nos braços, eu nem estava mais interessada em saber quando isso ia acontecer. A última coisa que eu poderia querer, era me afastar dele. Assim que meu filho nasceu, eu senti claramente que se eu queria garantir todo aquele amor e respeito a ele, eu teria que me entregar inteiramente à maternidade. O mundo em que vivemos anda visivelmente determinado a “adestrar” nossas crianças, a condicioná-las a determinados comportamentos, fazê-las repetir padrões e se tem uma coisa que eu não gostaria de ensinar ao meu filho, é como perpetuar a realidade em que vivemos hoje. Ao contrário, quero mostrar a ele que é possível transformá-la.

Naquele momento, eu entendi (na prática) que não é à toa que a natureza nos faz tão inacabados. Os bebês precisam desse acolhimento incondicional para o pleno desenvolvimento de suas habilidades. Os bebês precisam de mãe. É claro que precisam de pai também e do amor de todas as pessoas queridas, mas precisam, acima de tudo, de mãe. Precisam do nosso cheiro, do nosso calor, da nossa voz, do nosso toque, do nosso leite, do nosso colo. Se não fosse assim, nasceríamos prontos. O amor de mãe é um verdadeiro superpoder. Mães são heroínas reais. Não por darem conta de tudo (porque não dão e nem precisam dar), mas porque há coisas no mundo, que só uma mãe é capaz de sentir, de fazer e de transmitir para um filho.

Durante a gestação, eu me propus a viver cada dia como se fosse o primeiro e o último, acompanhando cada transformação do meu filho, que se refletia também em mim. Quando ele nasceu, eu percebi que os dias continuavam sendo os primeiros e os últimos. Que a intensidade que um bebê vive, nos primeiros anos de vida, potencializa uma série de questões que necessitam de muita atenção. Exatamente como acontece com a mãe. Também a mãe se descobre, a cada dia. Será por acaso? A natureza é tão perfeita que coloca mãe e filho na mesma situação, apenas em perspectivas diferentes. Ambos estão desbravando um novo mundo, vivendo crises e aprendendo, juntos, como é que as coisas funcionam nesse lugar diferente. Tudo para que possa haver empatia, entendimento, acolhimento. A natureza nos abre a possibilidade de um novo caminho. Um caminho de entrega, de auto-conhecimento, de transformação. Cabe a nós decidirmos de que forma vamos trilhá-lo.

Eu decidi entrar de cabeça nessa viagem, com meu filho (e trabalhei, desde a gestação, para viabilizar isso). Decidi que queria ver o primeiro sorriso, a primeira vez em que ele se virasse, a primeira vez em que ele rolasse, os primeiros treinos da fala, as primeiras tentativas de se locomover, a primeira vez que ele sentasse, os primeiros dentinhos, a primeira vez em que engatinhasse, as primeiras palavras… Decidi que queria cuidar da alimentação do meu filho. Que (além da livre demanda), após os seis meses de amamentação exclusiva, queria eu mesma cuidar da introdução alimentar dele, eu mesma escolher e preparar os alimentos, porque para mim a alimentação é também nutrir a alma. Eu decidi que queria brincar com meu filho, que queria garantir a ele o contato com o chão, com a natureza, experimentar texturas, sons, cores, cheiros e dar a ele a possibilidade de dividirmos tudo isso. Decidi trilhar um caminho de escuta atenta e de troca intensa, pois sabia que se não fosse assim eu me arrependeria, em um futuro próximo, de não ter aproveitado cada minuto de um tempo que voa bem mais rápido do que gostaríamos.

Isso não faz de mim uma mãe melhor, nem pior do que qualquer outra. Cada mulher vai descobrir o seu jeito de desbravar a maternidade, de se relacionar com seu filho. No entanto, penso que todas devemos ser respeitadas em nossas escolhas. Acredito que toda a mulher deva se reservar o direito de se libertar das expectativas, convenções e pré-determinações sociais, para poder respeitar o seu próprio tempo e sentir o tempo do seu bebê. Eu não julgo mães que fazem escolhas diferentes das minhas, então por que mães que agem como eu deveriam ser julgadas? Foi partindo desse princípio que decidi ficar com o meu filho, enquanto eu sentir que devo. Foi assim que decidi respeitar o meu tempo e também o dele. Assim começou a minha busca por entender quem é o meu filho e por entender que mãe eu sou (e que mulher eu me tornei, após a maternidade). Um caminho que se constrói (e nos reconstrói), diariamente. Um caminho árduo, cansativo, caótico e profundamente transformador, mas (sem sombra de dúvidas) a escolha mais gratificante que já fiz.

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6 thoughts on “POR QUE DECIDI PARAR E FICAR COM MEU FILHO

  1. Concordo com cada palavra que disse, e desejaria que todas as mulheres tivessem condições reais de poder fazer essa escolha, que sem dúvida, é uma das mais preciosas. Parabéns!

  2. Perfeita sua descrição! Cada um precisa respeitar a escolha do outro. O importante é seguirmos rumo a nossa felicidade. E cada um deve ter a coragem de descobrir o caminho que te faz feliz!

  3. É exatamente isso! Também penso desta forma e decidi estar com meu pequeno em todos os momentos para não perder nenhum primeiro ato dele (sorriso, engatinhar pdgar objetos sozinho….) e sofro uma certa pressão para voltar a trabalhar fora, mas hoje esta é minha última preocupação, quero mesmo é curtir muito meu bebê, pois sei que não poderei te-lo nos braços eternamente bem como sei que não serei o centro de seu universo por muito tempo!

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