AQUI E AGORA

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Hoje é meu aniversário. 34 anos. Resolvi passar em uma praia, com poucas pessoas e muita conexão. Conexão comigo mesma, com a natureza, com aqueles que o universo conspirou para que estivessem ao meu lado, nesse dia. Decidi que queria estar presente, nessa passagem. Totalmente presente. E é de presença que esse momento me fala. A praia me lembra muito a minha infância, mas me lembra também do que me incomodava nos adultos. Então, hoje, falo a partir do ponto de vista da minha criança. A criança que eu fui.

Estar na praia me lembra do quanto me soava agressiva a pressa dos adultos em sempre se ocupar de tudo o que não estava no presente. Da imensa dificuldade que, aos meus olhos de criança, os adultos pareciam ter em se entregar para o momento. Conseguir a atenção de um adulto, ou conseguir brincar com um adulto parecia sempre requerer um imenso protocolo de “Primeiro eu tenho que arrumar isso…” ou “Vai brincando aí que eu já vou!” ou “Vou só fazer aquilo e já venho…”. Muitas vezes, esse “já venho” nunca chegava.

Ser espontâneo também parecia difícil. “Cuidado com isso!”, “Cuidado com aquilo”, “Isso tá cheio de areia!”, “Tá molhado!” e tantas observações, preocupações que tiravam o foco de qualquer experiência que pudesse acontecer espontaneamente, genuinamente. O mundo dos adultos parecia sempre precisar de método, hora marcada, formalidades que nada conversavam com a energia vital pulsante de uma criança.

A liberdade perturba. A espontaneidade das crianças parece incomodar os adultos e a falta de presença dos adultos parece ir matando a espontaneidade das crianças. Lembro bem do quão triste era quando recebia respostas vagas. Lembro do quanto isso me roubava alegria, do quanto me roubava infância. Uma criança, quando não consegue contagiar um adulto, perde um pouco da sua energia vital, murcha, entristece. Vai entendendo que o mundo não é assim tão receptivo e vai perdendo a confiança de que pode fazer algo para melhorar isso.

Tento manter sempre vivas em mim as memórias dessas sensações e percepções que eu tinha a respeito do mundo adulto. Tento manter vivo o modo como eu me sentia. Penso, lembro, reflito, para não repetir com meu filho o que acho que não é construtivo. Para que meu filho sinta que entre seres humanos pequenos e seres humanos grandes podem haver mais pontes do que abismos. Quero que ele sinta a minha presença, inteira, pulsante, assim como a dele. E se tem algo de decisivo na vida de uma criança é o nosso estado de presença. Se tem algo que os filhos nos dão a oportunidade de aprender é uma grande lição de sobre como ser presente.

Meu filho me ensina sobre observar as folhas secas, gravetos pelo chão e sobre quanto potencial há em cada uma dessas coisas. Elas se transformam em aviões, borboletas, pássaros, corações, flores e muito, muito mais. Ele me ensina sobre ouvir cada som que há na natureza. Sobre perceber os ciclos do dia, da vida. O nascer e o pôr do sol. O desabrochar das flores. As nuvens que se transformam em chuva. Ele me ensina sobre ver a lua, as estrelas. Sobre imaginar todas as histórias possíveis, em qualquer cenário. Meu filho me ensina sobre a vida e eu vivo mais porque ele existe. Busco minha melhor qualidade de presença, aprendo com a presença dele e sempre que estamos juntos o mais importante é estar ali.

 

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