O DESAFIO DA MATERNIDADE

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Se existem algumas poucas certezas, a respeito da maternidade, uma delas é: não importa o que você faça, você será julgada (e, muitas vezes, condenada). Pois é! Se você parir, naturalmente, será julgada. Se quiser ter seu filho em casa, será julgada. Se precisar de uma cesárea, será julgada. Se agendar uma cesárea, será julgada. Se amamentar, será julgada. Se usar complemento, será julgada. Se fizer cama compartilhada, será julgada. Se deixar seu filho dormir no quarto, será julgada. Se contratar uma babá, será julgada. Se cuidar do filho em casa, será julgada. Se colocar na escolinha, será julgada. Se optar pela desescolarização, será julgada. Se parar de trabalhar, será julgada. Se voltar a trabalhar, será julgada. Se disser o que pensa, será julgada. Se ficar em silêncio, será julgada. Se, mesmo com tudo isso, você não estiver linda, maquiada, sarada e bem humorada, será julgada. Pode desistir de agradar a todos! Não há como escapar dos julgamentos.

Há muito tempo eu não escrevia por aqui. Muitos meses! O blog parou. O canal parou. Falta de material? Falta de ideias? Não. No meio de muitos acontecimentos que, de fato, atrapalharam a continuidade desse trabalho, eu confesso: também me desmotivei. Fiquei triste. Fiquei com preguiça. Preguiça de quem não entende a intenção disso tudo. Preguiça de quem tá aí só pra julgar (e condenar). No final do ano passado, fui chamada para dar uma entrevista e falei sobre parto humanizado. Falei sobre a minha experiência, como sempre faço. Afinal, não posso falar sobre a experiência dos outros. Eu não disse que o mundo deveria agir como eu. Apenas contei o que vivi. O resultado foi que recebi uma série de ataques pessoais. Coisas pesadas mesmo. Coisas que me entristeceram. Precisei de um tempo. Tudo o que eu divido aqui é muito valioso pra mim. Faz parte do meu processo de auto-conhecimento. Faz parte da minha vida, das minhas experiências. Divido porque acredito no poder da troca, no poder da conexão entre as pessoas. Divido porque se tivesse encontrado mais pessoas compartilhando suas experiências, meu caminho também teria sido mais fácil. Então por que não dividir? Naquele momento, senti que não queria ver esses tesouros sendo tratados de forma tão irresponsável, insensível, por pessoas que nem sequer sabiam do que estavam falando, nem sequer tinham lido a matéria, nem sequer me conheciam. Quis me calar por um tempo (e me calei). Afinal, com que direito uma pessoa agride outra, invade o espaço da outra, apenas por pensar diferente? Precisei me distanciar daquela sensação ruim, pra conseguir voltar aqui.

Algumas coisas são muito estranhas, nesse universo que gira em torno da maternidade. Parece haver um fenômeno que toma conta das pessoas, sempre que uma mulher se torna mãe. Um fenômeno que as faz pensar que sabem mais sobre você do que você mesma. Isso é chato! É invasivo. Já começa na gravidez! É como se algum aspecto do inconsciente coletivo fizesse com que as pessoas se sentissem meio donas daquele bebê. É como se o bebê pertencesse à humanidade e exigisse, portanto, tomadas de decisões coletivas. Aí colocam a mão na sua barriga, sem pedir permissão (como se a barriga não fosse mais uma parte do seu corpo), sentem-se no direito de dar todo o tipo de conselho (e até algumas ordens), acham que devem participar das suas escolhas e que você deve alguma satisfação a elas. Então o bebê nasce. Você se torna mãe. Atravessa um buraco negro, chamado puerpério. Coloca à prova sua sanidade mental, em um caminho turbulento e solitário. Tenta entender quem você é, no meio de tudo isso. E as pessoas? Julgam. Tudo o que uma mulher não precisa, quando se torna mãe, é de julgamento. Tudo o que uma mulher não precisa, quando decide se reintegrar à sociedade (depois de uma experiência tão avassaladora quanto a maternidade), é de julgamento. No fim das contas, isso tudo parece uma montanha de frustrações acumuladas, que as pessoas jogam umas em cima das outras. Não faz o menor sentido, essa falta de empatia.

O que mais me assusta, no entanto, é que (muitas vezes) o julgamento venha de quem tem filhos. Pessoas que sabem exatamente o que você está passando. Pessoas que, muitas vezes, sofreram e sentiram (por diversos motivos) os mesmos incômodos que você. Por quê? Por que diabos grande parte das mulheres prefere competir, a criar uma rede de apoio e de troca de experiências? Por que diabos grande parte dos homens prefere se distanciar desse universo, ao invés de mergulhar nele e se empoderar também, enquanto pai? Por que diabos as pessoas acham que impor aos outros aquilo que é (ou foi) bom para elas, vai levar a algum lugar? Por que não podemos simplesmente trocar, dividir, compartilhar e crescer com as experiências de todos? Essas e tantas outras perguntas que não querem calar (entre outras coisas), fazem parte das motivações que me levaram a criar um blog para contar um pouco do que tenho vivido, desde que ingressei nessa jornada da maternidade. Esse blog, aqui! Sabe onde eu quero chegar com essa conversa? Simples! Abra seu coração, toda a vez que estiver diante de uma mãe, ou de um pai, ou de uma família. É disso que precisamos: escuta atenta e coração aberto. Precisamos de troca sincera. Precisamos de acolhimento. Precisamos de visão, além do alcance.

Um tempo atrás eu aceitei um “desafio da maternidade”, que provocou muita polêmica na internet. Eu, que nunca entro nessas correntes de Facebook, decidi compartilhar a tal brincadeira. Sabe por quê? Porque me senti menos “invisível”. As pessoas que me desafiaram não eram pessoas óbvias. Não foram mães da minha convivência diária. Pelo contrário, algumas delas eram pessoas com quem não falo pessoalmente há anos, mas que me acompanham pelas redes sociais e que eu também acompanho. Pessoas por quem tenho um carinho especial, mas com as quais não convivo. Foi mais um momento de perceber a força da conexão com o feminino, com a maternidade. Aquelas mulheres, aquelas mães (assim como eu) sentem a imensa alegria da maternidade, mas também podem se sentir sozinhas, em muitos momentos. Também podem se sentir perdidas e confusas, em muitos momentos. Também podem se sentir tristes e incompreendidas, em muitos momentos. Só que elas se fortalecem, na troca com outras mulheres. E foi isso o que eu senti, quando me desafiaram. As pessoas que me marcaram no desafio, não tinham nenhuma obrigação de me elogiar, nem de me marcar ali. Fizeram isso com um sentimento sincero, de admiração. Eu tive vontade de retribuir. Tive vontade de dizer a outras mulheres que também as admiro. Que elas não são invisíveis e que o trabalho que fazem, todos os dias, da hora que acordam até a hora de (nunca) dormir, é muito importante.

Por isso, eu tenho um hábito que gostaria de compartilhar (e incentivar) aqui. Eu elogio as mães (desde antes de eu ser mãe).  Sempre que vejo uma criança que me cativa, uma família que admiro, eu elogio também a mãe. Já parou pra pensar em como a maioria das pessoas age? Normalmente, se a criança é educada, alegre, feliz, as pessoas falam como se fosse um fenômeno da natureza, uma sorte, algo do além. A mãe não existe. A família não existe. O contexto não existe. Por outro lado, se a criança é “mal educada”, a culpa é (toda) da mãe. Os olhares (julgadores) se voltam para a mãe. Já observaram isso? Já pensaram no quanto pode ser difícil? Portanto, não feche seu coração, não mate a sua sensibilidade. Olhe no olho de cada mulher que encara, diariamente, os desafios de ser responsável por outra vida. Na próxima vez que encontrar uma criança, lembre-se de que ao lado dela há uma família e que existe uma mãe que dá a vida para que essa criança possa ser o melhor que puder ser.

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2 thoughts on “O DESAFIO DA MATERNIDADE

  1. Que bom que você voltou sei que não só eu mas muitas pessoas sentiram falta da inspiração que nos dá,
    sempre com suas palavras e ações tão carregadas de boas intenções, e quanto as outras pessoas que preferem perder tempo julgando mas não fazem nada de melhor sei que é difícil mas ignora elas não merecem sua atenção. sucesso e amor na sua vida sempre beijos.

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