SOBRE MATERNIDADE E AUTOCONHECIMENTO

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Há algum tempo, eu não consigo escrever. Comecei dezenas de textos e não consegui finalizar nenhum. Seja porque meu filho entrou no período de ansiedade de separação e eu mergulhei com ele, acordando mais de 8 vezes por noite, seja porque estive me dedicando ao projeto do canal no YouTube, seja porque simplesmente há momentos em que a maternidade nos convida a gestar (novamente) ideias, percepções, emoções, e nem sempre é possível falar sobre elas, enquanto acontecem. Algumas vezes é preciso simplesmente viver. Parar um tempo, aquietar a mente, sentir o que se passa dentro de nós mesmas, para só então transformar isso em algo que se possa devolver para o mundo.

Quando comecei o blog, minha única pretensão era compartilhar vivências para, quem sabe, ajudar outras mães que também estivessem vivendo situações semelhantes. O que eu não sabia é que o próprio blog também se tornaria um caminho, em si, de descobertas e transformações. Isso porque enquanto as ideias, as reflexões, estão apenas na minha cabeça, mesmo que eu faça algo com elas, ou simplesmente as deixe passar, elas continuam apenas em mim e, portanto, é como se não existissem. Nós e nossas ideias só existimos, de fato, “em relação”. É no encontro com o outro que eu me constituo, enquanto ser humano. Desse ponto de vista, o blog passou a ser, em meio à solidão (tantas vezes comum) da maternidade, esse lugar de encontro, de troca, de transformação. Um lugar de encontro com outros, comigo mesma e com outras de mim mesma.

Quando decido expor, aqui, uma experiência, uma ideia, um ponto de vista, eu não apenas me revelo para o mundo, mas me revelo também a mim. Tenho a oportunidade de me ler, quando escrevo. Posso, portanto, ter outras visões sobre a mesma ideia e sobre mim, que já sou outra, com novas complexidades, no minuto seguinte ao minuto em que postei um novo texto. Então me reescrevo.

Digo tudo isso para começar a explicar, e também a entender, que de todos os caminhos e processos que a maternidade me trouxe o mais profundo foi, sem dúvidas, o do autoconhecimento. Eu sempre fui uma pessoa interessada nos processos de evolução do ser humano. Sempre busquei me observar e transformar as questões que me impediam de crescer. No entanto, nenhum dos meus esforços voluntários em direção a essa jornada, jamais, me proporcionou o que a maternidade me proporciona diariamente. Isso porque meu filho me dá, a todo o minuto, a oportunidade de perceber as minhas limitações e as minhas potencialidades.

É no contato diário com ele que vejo, em um enorme espelho, tudo aquilo que já conquistei (enquanto ser humano) e tudo o que ainda preciso aprender. Ele me mostra os meus medos, as minhas inseguranças, as minhas histórias mal resolvidas e exalta também as minhas qualidades, o meu esforço em buscar uma maternidade cada dia mais humana e humanizada. Essa troca toca fundo, tão fundo, que é impossível ignorar, ficar indiferente. No momento em que sinto algo meu refletido no meu filho, não tenho como fingir que não vi (como tantas outras vezes, na vida, fazemos) e estive refletindo sobre isso. No fundo, acho que esse contato nos atravessa, nos vira do avesso, nos transforma tanto e tão intensamente, porque estamos ali, despidos de todas as máscaras, livres de qualquer armadura. O contato com nossos filhos se dá de criança para criança. É com a minha criança que meu filho se comunica e é a minha criança que traz à memória as lembranças do que é cuidado, do que é amor, do que é maternidade, para que eu possa, como mãe, devolver o que meu filho precisa.

Como é curativo esse processo! A cada dia, a cada manifestação, a cada troca, a cada contato, quanto crescimento, quanto aprendizado! Para maternar é preciso, primeiro, curar-se (assim como para parir). Curar-se das feridas, dos tombos, das dores, das vergonhas, dos receios, das expectativas, das frustrações, dos abandonos, das rejeições… É preciso curar a nossa criança de tudo aquilo que, eventualmente, ela ainda necessite chorar. É acolhendo a minha criança que consigo me reinventar, melhor e mais forte, como mãe, para o meu filho. E é também dividindo um pouco disso tudo, aqui, que consigo renovar as forças para acolher, novamente, a minha criança e denovo, então, reinvertar-me.

Por isso, por tudo isso, é que esse texto é, na verdade, um grande agradecimento. Agradecimento ao meu filho, por me mostrar tantos caminhos e tantas possibilidades para ser melhor. Por me permitir (em sua generosidade involuntária) maternar também a mim mesma, a cada minuto em que me ajuda a entender mais um pouco sobre o que é ser mãe, sobre o que sou enquanto mãe. Agradecimento ao universo, por ter conspirado para que eu criasse esse espaço, o blog, que hoje me traz tantas gratificações e me ajuda a crescer ainda mais. Agradecimento às pessoas que passam por aqui e que me leem, às que me escrevem e às que não escrevem também, às que se sentem tocadas de alguma forma e às que não encontram sentido algum no que eu falo. Agradeço, profundamente, a todas essas pessoas, a vocês, porque de alguma forma essa energia chega aqui e se torna mais um elemento para produzir a força necessária para outras tantas reflexões e outros tantos aprendizados.

Isso tudo, esse processo, é só o que importa. Somos todos processo, estamos em processo. Eternamente. A vida trata de nos trazer circunstâncias, espelhos, caminhos, possíveis insights. Resta a cada um de nós aproveitar, ou não, as oportunidades à nossa frente. Oportunidades de crescer, de transformar, de melhorar a nós mesmos para quem sabe, lá na frente, vermos que melhoramos o mundo, ou para que pelo menos nossos filhos vejam e se orgulhem e se inspirem e respirem em nossos processos, para enfrentar os processos que esperam por eles.

Gratidão.

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4 thoughts on “SOBRE MATERNIDADE E AUTOCONHECIMENTO

  1. Muito bom seu texto, achei lindo essa percepção de cura da criança interior. É uma percepção que imagino nos dá mais força é equilíbrio nesse momento de muitas transformações que é a maternidade. Estou grávida de sete meses, e na busca desse conhecimento interior parei tudo, e estou bem, vivendo cada mudança, é o mínimo que posso fazer por mim e.por minha filha, quanto mais me conheço e me dou esse momento melhor me sinto.
    Obrigada!!! 😄

    1. Gratidão pelo carinho, Loide Regina! Fico muito feliz em saber que você gostou do texto. Realmente, é maravilhosa a sensação de respeitar o nosso tempo e o tempo de nossos bebês. Um caminho de evolução e muito aprendizado. Tudo de bom pra você e sua filha! Um beijo! Carol

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