SOMOS TODAS MÃES

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Estou acostumada a receber muitas mensagens de mães que buscam um parto humanizado, ou que tiveram um parto natural, assim como eu. Só que, alguns dias atrás, fui surpreendida. Recebi uma mensagem, que me emocionou profundamente, de uma mãe cuja experiência de parto (e de pós-parto) foi completamente diferente da minha. No entanto, ela me escrevia para dizer que mesmo tendo vivido algo tão distante do que costumo descrever por aqui, ela se identificava muito com o que escrevo. Ela me disse que o que nos unia era o amor que temos pelos nossos filhos e que ela não se sentia excluída do meu blog (ao contrário, se sentia encorajada, motivada por ele), porque se identificava, sobretudo, com a minha forma de ver a maternidade. A mensagem rendeu uma linda conversa, muita emoção e a inspiração para refletir e escrever para essas mães, que tiveram experiências diferentes da minha, diferentes da que elas desejavam, mães que em algum momento se viram frustradas, mães que se viram induzidas a questionar suas próprias habilidades, mas que são tão mães quanto qualquer outra mãe, que ame seus filhos.

Não defendo verdades absolutas, simplesmente porque não acredito que elas existam. Tudo o que é, é diante de, é em relação a, é dentro de um contexto. Ninguém deve pregar um jeito certo de ser mãe, nem tampouco para condenar um jeito errado. Não há certo e errado, quando se fala em amor de mãe. É o amor que move essa engrenagem. Se houver amor, tudo encontra um rumo, mais cedo ou mais tarde. Todas as mães, que amam seus filhos e que amam ser mães, fazem suas escolhas desejando o melhor. Todas as mães deveriam se sentir livres para seguir os seus instintos, mas nem sempre é isso o que acontece. Sabemos bem que, no Brasil, viver a gravidez, o parto e o pós-parto dos sonhos, muitas vezes, ainda fica só no sonho. Na grande maioria das vezes, as mulheres atravessam esses momentos (que deveriam ser de profundo mergulho interior, paz e acolhimento) tentando atender às expectativas da sociedade, ou então sendo bombardeadas por todo o tipo de conselhos, oferecidos por seus próprios médicos, ou por pessoas que “já viveram isso” e “querem ajudar”.

Acontece que, em primeiro lugar, nem sempre é de ajuda que uma mulher precisa, nessas horas (ou, pelo menos, não desse tipo de ajuda); em segundo lugar, não, essas pessoas não viveram isso, elas não estão na sua pele. A mulher grávida, a mulher recém-mãe, a mulher emocionalmente fragilizada, acaba sendo um prato cheio para aqueles que anseiam por defender a “verdade”. Que verdade? Qualquer verdade. A verdade da vez. A verdade que gostariam que tivesse sido sua. A verdade que querem entornar sobre a cabeça de uma mãe feliz, como um balde de água fria. A verdade que acham mais bonitinha. A verdade que couber melhor, dentro da caixa. Chovem conselheiros, de todos os lados, cheios de orientações que, muito provavelmente, nem eles mesmos conseguiram, ou conseguiriam, seguir. O que essas pessoas esquecem é que a experiência de cada um é única, especialmente quando o assunto é maternidade. A minha experiência é diferente da sua, que é diferente da que a sua vizinha teve, que é diferente do que a tia dela viveu e, assim, sucessivamente.

Em meio a tantos hormônios e no meio de tanta confusão, fica fácil entender porque muitas mulheres acabam por se perder de si mesmas, desistir de seus sonhos, sucumbir a conselhos nos quais não acreditam, ou acabam sendo levadas por médicos (pouco interessados nas reais necessidades da mãe e do bebê) a viver uma experiência de parto e de maternidade cheia de frustrações. Tanta linha cruzada confunde a mulher que, assim, não consegue buscar o mais importante: informações baseadas em evidências científicas, que possam embasar suas escolhas.

O resultado acaba sendo fruto de uma equação na qual a mulher e o bebê, via de regra, pagam o preço mais alto. (Desne)cesárias, violência obstétrica, partos “roubados”, dificuldades para amamentar, dificuldades para estabelecer o vínculo com o bebê, ansiedades, tristeza, sentimento de culpa, são apenas alguns exemplos. A sociedade atordoa a mulher, durante toda a gestação, até que ela (exausta e confusa) perde a comunicação com seus instintos e se vê impedida de exercer o seu protagonismo (situação bem mais comum do que se pode imaginar). Como se tudo isso não fosse suficiente, após o parto (quando mais precisamos da rede de apoio), todas as culpas de possíveis problemas recaem, novamente, sobre a mulher. A mãe olha em volta e vê um cenário muito diferente do que ela idealizou. Busca justificativas para se consolar. Tenta convencer a si mesma de que “foi melhor assim”. Busca forças para seguir em frente. Fantasia realizar suas vontades no próximo filho. Adia seus sonhos, adia seus instintos. Parece justo? Não é justo. No fundo, todas nós sabemos que não é.

Por isso, digo às mães que tiveram que viver uma experiência diferente da que gostariam de ter tido (seja pelo motivo que for), às mães que se culpam, que sofrem, que choram porque acham que não são as mães que deveriam ser, às mães que não podem mudar o passado, mas que lutam para fazer um presente e um futuro mais próximo do que realmente sonharam: somos todas mães! Sigam seus instintos! Confiem na natureza! Sintam seus filhos! Sigam o seu coração! É o seu momento, é a sua experiência de maternidade, é o seu filho. Tudo isso é único e é seu, de mais ninguém. Cada minuto que passa não volta mais. O segundo que você usou para ler a frase anterior jamais voltará. Pensem nas suas escolhas. Apropriem-se do direito à escolha. Empoderem-se. Nunca é tarde para fazer o que a gente acredita que é certo, independentemente do que tenha acontecido até agora e independentemente do que todas as outras pessoas pensem, ou digam. Nunca é tarde para fazer as coisas do nosso jeito. Afinal, no fim das contas, é tudo entre nós e nossos filhos e, como diziam nossas avós, bisavós, tataravós (e essas sabiam o que estavam dizendo): coração de mãe não se engana.

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5 thoughts on “SOMOS TODAS MÃES

  1. Obrigada! Apenas obrigada. Meu bebê fez 1 ano na última semana. Não consegui, um dia sequer, até hoje, parar de lembrar o porque de não ter tido forças para seguir com a decisão de ter o parto que idealizei; e também por ter me deixado afastar do meu instinto para seguir os conselhos, cheios de “boas intenções”, durante o início de vida do meu pequeno. Sinto que isso me acompanhará pro resto da vida… Esse texto me “acolheu”.

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