Educação, Psicologia

A arte de contar histórias

“Se você quer que seu filho seja brilhante, conte a ele contos de fadas. Se você o quer ainda mais brilhante, conte a ele ainda mais contos de fadas.” Albert Einstein

Os belos contos de fadas capazes de instigar a imaginação das crianças e repletos de simbólicas riquezas têm perdido espaço frente aos exíguos desenhos animados. É processo versus processado ou atividade versus passividade. A criança precisa processar para aprender que na vida tudo tem começo, meio e fim. Hoje em dia, as crianças crescem achando que só existe começo e fim. Não se faz mais um suco de maracujá, compramos o suco de caixinha que já vem pronto. Não se espera pela carta de um amigo durante dias, mas sim segundos por uma resposta no whatsapp. Não se canta uma música para as crianças, aperta-se um botão e alguém canta para elas. Não se conta uma história, liga-se a televisão e o universo virtual a entretem. Ao agir desta forma além de nos distanciarmos de nossos filhos, somos exemplos vivos de que a presença e a paciência caíram em desuso. Quando mais tarde, essas crianças tornam-se jovens ansiosos, desesperançados, inseguros e agressivos, ninguém sabe por que.

Já vi pais preocupados com os trágicos conteúdos dos contos de fadas e que, no entanto, levam seus filhos ao cinema ou a peças teatrais onde os personagens são verdadeiros monstros, com semblantes tão agressivos que permanecem durante dias na mente da criança. Falta-lhes o conhecimento de que uma imagem deste nível é extremamente nociva à alma infantil, pois além de ser impactante, a criança perde a oportunidade de criar por ela mesma “aquela criatura enorme e temida por todos os habitantes da floresta”, conforme é descrita em um livro, por exemplo. Quando a criança imagina, ela decide quais serão as características daquele ser de acordo com seus próprios conteúdos anímicos e, portanto, ela não cria nem mais nem menos do que é capaz de ver. Quando o conteúdo vem pronto, ela é obrigada a engolir sem digerir, o que acaba gerando medo e ansiedade. Esses sintomas geralmente vão aparecer mais tarde e em outras circunstâncias, por isso os pais acabam não sabendo que sua verdadeira origem estava aí.

Isso serve também para personagens que viram referência, como por exemplo, as princesas da Disney. Se uma criança foi incentivada a crer que a Cinderela é loira e usa vestido azul e que a Branca de Neve é morena e tem cabelo liso, acabamos de oferecer a ela um modelo pré-definido do que é ser uma princesa. Embora não seja uma imagem agressiva, toda história acompanhada de um desenho pronto restringe a criatividade em algum nível. Portanto, levando em consideração que essa criança poderia imaginar uma princesa como sua boneca preferida ou ainda que poderia ser baixinha e rechonchuda como ela mesma, aí sim talvez possamos enxergar que ao classificar toda princesa nos “padrões Disney”, estamos limitando o potencial criativo das crianças.

As histórias dos Irmãos Grimm são uma ótima opção de leitura, já que nelas não existe esse apelo estético e o conto é integralmente preservado. Afinal de contas é cada vez mais comum hoje em dia, encontrarmos histórias antigas com seu final modificado: “Os três porquinhos” onde o lobo não é mau; “Patinho feio” onde o patinho não sofre discriminação; “Chapeuzinho vermelho” onde o lobo não devora a vovozinha e assim por diante. Há algo muito contraditório nessa ideia, que embora possa ser bem intencionada, denota o quanto a humanidade está desvinculada dos reais propósitos de um conto de fadas. Ao omitirmos o conflito de uma história, estamos retirando o lado “ruim” e transmitindo a seguinte mensagem: não tenha medo porque o mal não existe. Quando essa criança vai para o mundo, ela se depara com o trágico, com a frustração e com a tristeza, e não sabe o que fazer com nada disso. Conclusão: entra em desespero, chora, esperneia e acaba rotulada de mimada.

Muito diferente é mostrar que o bem e o mal existem concomitantemente. Mas que através da determinação, da coragem e do bem, podemos lidar com esse lado sombrio e vencê-lo. Os contos de fadas possuem uma sabedoria arquetípica e são a melhor forma de levar à alma humana verdades incômodas, mas que fazem parte do mundo. Eles são lúdicos e capazes de acessar nosso inconsciente nos mostrando que o egoísmo, a ganância, a inveja e outros atributos inferiores são comuns a toda a humanidade, mas que, entretanto, tudo tem um preço.

Fundamental é também a maneira que tais contos são transmitidos às crianças. O ambiente deve ser de silêncio, para que o ritmo da história possa ser vivenciado internamente por elas e livre de grandes interpretações para que possam criar suas próprias cenas e personagens. No caso da leitura de um livro, quanto menos ilustrações melhor, e quanto menos o livro aparecer também, a fim de preservar a vivacidade da imaginação. Se a história for “da boca” então, ou seja, improvisada, mais rica ainda será essa vivência. Crianças adoram histórias inventadas na hora ou mesmo situações verídicas da infância dos pais ou avós.

Se durante a história ou ao concluí-la você ouvir a pergunta: “Mas isso é verdade? ou “Essas fadas existem mesmo?” Seria bom um exame de consciência para avaliar de que forma você comunicou aquele conteúdo, pois se não houve identificação com o que narrou, é provável que a criança sinta esse distanciamento ou a frieza com que a história foi exposta. A criança sadia não ouve uma história com seu intelecto, como o adulto, ela ouve com o coração.

“A existência de seres encantados é perfeitamente aceitável para a psique infantil, já que a própria criança muitas vezes se sente como que encantada e afastada do mundo verdadeiro de onde ela provém.” Heydebrand

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