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Educação

Mesmos pais, mesmos filhos? – A origem dos temperamentos

Todos já se surpreenderam com o fato de filhos de um mesmo casal e criados no mesmo núcleo familiar, serem completamente diferentes entre si. É comum ouvirmos: “Como podem ser tão diferentes se o pai e a mãe são os mesmos?”

Em primeiro lugar a palavra “mesmo” deve ser repensada quando se trata de seres humanos. Tudo se modifica, a idade não só altera nossa aparência física, como também nos transforma internamente. Portanto o tempo não contribui para que um casal que tenha dois filhos ou mais dentro de um certo intervalo, seja o mesmo nem antes, nem durante e nem depois desse períodoAlém do mais, é impossível dar educação similar a dois irmãos, independente de idades próximas ou iguais.  As reações maternas podem variar a cada segundo: quando um chora, a mãe talvez esteja em um momento tranquilo e por isso consiga acolhê-lo com todo o seu amor. No minuto seguinte ela pode receber um telefonema desagradável e ficar irritada; neste instante o outro começa a chorar e seu cuidado já não será mais o mesmo que o primeiro recebeu. Se os dois chorarem ao mesmo tempo então, nem se fala! Além disso, pelo infeliz costume da comparação, logo um pode ser rotulado como “mais manhoso”, enquanto o outro como “mais paciente”. Mais tarde não saberemos mais se o primeiro realmente era manhoso ou se a falta de paciência de sua mãe “coincidia” justamente com os momentos em que ele a requisitava.

Isso ilustra que ao nos basearmos apenas nas possíveis origens externas do comportamento de cada criança, nos deparamos com possibilidades que apesar de muitas, são limitantes. Acima de todas elas, reina soberana a razão original, o leitmotiv  que está realmente por trás de todas essas particularidades presentes em cada um de nós.

Segundo a Ciência Espiritual ou Antroposofia, ao defrontar-nos com um ser humano na vida, nós devemos sempre levar em consideração que o que percebemos dele exteriormente é apenas uma parte, um membro (ou parcela) da entidade humana. Uma visão superficial, materialista do homem considera como sendo o homem inteiro só o que percebemos dele externamente. Porém, este guarda no seu íntimo, muito mais do que apenas os olhos podem ver, muito além do que o intelecto pode perceber. Seu interior espiritual está oculto, mas tão presente quanto tudo aquilo que se pode ver. E o mais incrível, é que é justamente esse seu lado invisível, o grande responsável por todas as suas atitudes externas. É como se fôssemos marionetes do espírito; este age e nosso corpo simplesmente expressa sua atitude.

O ser que está prestes a nascer traz consigo sua bagagem cósmica, sua organização anímico-espiritual. Para que possa expressar tal conteúdo, ele precisa de um casal de progenitores através do qual receberá sua corrente hereditária, o corpo físico de que necessita para que seja possível manifestar-se na Terra*. A fusão daquilo que trazemos do mundo espiritual, com aquilo que recebemos hereditariamente no mundo físico, dá origem à nossa expressão terrena. É o que Rudolf Steiner nomeou de temperamento. “Assim como o azul e o amarelo se unem formando o verde, as duas correntes se unem, no ser humano, formando o que se denomina temperamento.”

Portanto, voltando ao início do texto, talvez agora fique mais claro compreender porque filhos dos mesmos pais possam apresentar diferenças tão marcantes. Embora expressem semelhanças a nível hereditário, cada um carrega dentro de si a mais pura essência de sua individualidade, a representação daquilo que só aquele ser é capaz de realizar. Este fator está intimamente ligado à missão de vida, que é única e insubstituível.

A natureza de cada ser humano vai influenciar mais ou menos cada um de seus membros constitutivos (eu, corpo astral, corpo etérico e corpo físico). Essa influência determinará qual dos quatro tipos de temperamento se sobrepujará aos demais em determinado indivíduo: colérico (eu – elemento fogo), sanguíneo (corpo astral – elemento ar), fleumático (corpo etérico – elemento água) ou melancólico (corpo físico – elemento terra).  A melhor fase para a observação destas influências, é a partir do segundo setênio (7-14 anos). Isso porque nos primeiros sete anos, a criança é pura imitação, e muito do que ela apresenta a nível comportamental é mero reflexo das pessoas de seu convívio mais próximo.

Uma criança (ou adulto) colérica é aquela que faz prevalecer sua vontade pela ira, pela força. A criança sanguínea gosta de vivenciar novidades, ela possui uma certa dificuldade de ancorar e perseverar. Já a fleumática é despreocupada; apatia é a característica dominante, é do tipo que prefere permanecer comodamente dentro de seu interior. E por fim, a criança melancólica é aquela mais apreensiva e observadora; é comum utilizarem a reclamação e a dor como canais de expressão.

Uma das grandes dicas com relação aos temperamentos é que os mesmos não devem ser “combatidos”, e sim acolhidos. Isso significa que não adianta obrigar uma criança melancólica a pular e cantar no meio de uma festa, porque isso a deixará além de mais inibida, irritada com tal imposição. Ao invés disso, é fundamental respeitar sua introspecção e lhe promover momentos de silêncio e calmaria.  Histórias dramáticas, através das quais ela possa sentir que o sofrimento existe também no exterior, podem trazer-lhe alívio. É uma atitude complacente, que respeita ao invés de impor.

Além disso, crianças de temperamentos semelhantes devem conviver com proximidade. Já que é através do espelhamento que elas podem aprender a trabalhar suas características, de maneira a não apresentarem comportamentos unilaterais. Nas Escolas Waldorf, os professores procuram organizar as salas de acordo com os temperamentos; é um instrumento a mais para que a educação se dê de maneira integral. Uma criança colérica é imponente demais para uma criança melancólica, já no contato com outra colérica, ambas terão que ajustar seu nível de força para que a relação se estabeleça. Desta forma, o comportamento ganha equilíbrio ao invés de extremos não saudáveis.

Existem inúmeras considerações a respeito da educação e inclusive da auto-educação a partir do conhecimento dos temperamentos. Aos interessados, sugiro a leitura do livro “O mistério dos temperamentos” de Rudolf Steiner. É uma sabedoria que se aplica também aos adultos e pode, sem dúvida, contribuir para relações mais plenas.

“O temperamento equilibra o eterno com o passageiro”. R. Steiner

* Maiores detalhes em: http://vilamamifera.com/maternidadepresente/brinquedo-amigo-ou-inimigo-da-crianca/

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