professor
Educação

O professor do seu filho forma ou deforma?

Ao ser questionada sobre o significado da palavra “professor”, Maria José Garcia, uma menina de 8 anos, respondeu: “é uma pessoa que não se cansa de copiar”. Existe definição mais apropriada quando olhamos para o cenário da educação escolar de hoje em dia? Infelizmente não.

O ensino está tão massificado, que ao invés de nutrir crianças e adolescentes oferecendo a possibilidade de troca e questionamento, acaba provocando uma desnutrição generalizada que instrui através da imposição e da repetição. Não há espaço para a formação, que permite a criatividade e a construção de ideias. Só cabe a informação, que como bem disse Maria José, não passa de uma incansável reprodução intelectual, que oprime, automatiza e deforma os alunos.

Embora a informação seja importante, não deve ser transmitida singularmente. Junto com ela, é preciso haver flexibilidade para que uma troca saudável entre mestre e discípulo aconteça.No entanto, para que isso seja viável, a postura do professor precisa ser revista. Quando esta figura parte do pressuposto de que é responsável pelo saber e que o aluno é um mero receptáculo, o intercâmbio torna-se impraticável, pois existe a crença de que um possui o conhecimento e o outro apenas o recebe. Mas quando um professor se coloca na posição de eterno aprendiz, ele abre caminho para que o novo surja, e o aluno passa a sentir que também é agente desta relação. Desta forma pode cooperar e o trabalho deixa de ser unilateral.

A Pedagogia Waldorf descarta conhecimentos desvitalizados, que constam em qualquer arquivo morto. Prioriza o dinamismo que promove liberdade e criatividade, pois somente um espírito livre é capaz de expressar todo seu potencial. A grande diferença nesta forma de ensinar, é que onde existe troca, existe entusiamo, existe confiança e existe amor. Enquanto onde existe imposição, reina o autoritarismo, o medo e a dor. E a condição sine qua non para que o aprendizado efetivamente ocorra, é o amor. Se uma criança aprende matemática sendo punida a cada cálculo errado, além de não assimilar o conteúdo de maneira completa, no futuro, terá dificuldades com questões que envolvam a área de exatas pois sua memória ficará impregnada do medo que sentiu durante o aprendizado. Mas se essa mesma criança ao invés de punição, receber acolhimento e compreensão, ou ainda, se a matéria lhe for apresentada de maneira leve e descontraída, seu conteúdo será conectado não somente à mente, mas também ao coração: combinação perfeita para um registro saudável e duradouro.

Rudolf Steiner sempre alertou a respeito da importância da autoridade amada. O aprendizado está diretamente relacionado à qualidade do vínculo entre mestre e discípulo, portanto, é amando que se aprende. Por isso, nas escolas Waldorf os alunos tem um professor de classe que os acompanha durante oito anos consecutivos, favorecendo uma relação profunda que cria laços indissolúveis.

Autor de diversos livros antroposóficos, Rudolf Lanz nos lembra que um professor que usasse um livro didático durante a aula seria incogitável numa escola Waldorf, pois a regra é que ele exponha a matéria com suas próprias palavras. Os alunos tampouco recorrem aos livros didáticos para estudar, eles fazem seus próprios “livros”, isto é, cadernos bem caprichados e ilustrados, contendo o essencial da aula dada. Como o texto, via de regra, é redigido por eles, com base na memória e em anotações, cada caderno, além de ser uma pequena obra de arte, leva a marca da personalidade de seu autor.

Da mesma forma que os filhos são sintomas dos pais, uma criança ou um jovem em idade escolar também é sintoma do seu professor. Tal relação interfere profundamente no seu comportamento e na formação de sua personalidade, o que sugere, portanto, que são os alunos que devem avaliar a aptidão de seu professor em educá-los, e não o contrário.

Chá de Bebê
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2 Comments

  • Reply Ricardo Leme 12 de abril de 2016 at 11:52

    Olá Maria!

    Lendo o artigo, recordei do ilustre brasileiro Paulo Freire, pensador incansável da transformação da escolarização em educação; do depósito de informações (educação bancária) em emancipação do pensar crítico dos alunos.

    Pessoalmente, acho que deixar ao professor a responsabilidade de formar ou deformar é questão delicada. Quem sabe, no sentido de transcender a forma e seus inconvenientes temporários, TRANSFORMAR não seria opção interessante?

    Acho que o Rudolf faria uma bela parceria com Paulo.

    Obrigado

    • Reply Maria Inez A. Leme Guimarães 12 de abril de 2016 at 13:34

      É isso mesmo! Como diria Raul Seixas: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

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