As consequências do parto e nascimento industrializado


1307 Carol e Teresa2Quando falamos sobre os benefícios do parto normal fisiológico, muita gente entende e até concorda com os benefícios, mas não entende a real importância de se oferecer um modelo de assistência que seja centrado no fisiológico e menos medicalizado possível. Por isso, é necessário falar sobre as consequências do parto e nascimento não fisiológico. Do parto e nascimento industrializado.

Obviamente algumas mulheres necessitarão de cesárea ou de alguma intervenção durante o trabalho de parto. E felizmente temos esses recursos médicos avançados para serem usados quando necessário. A idéia de falar sobre as consequências de um parto e nascimento industrializado é conscientizar a todos sobre pontos  que ninguém nos conta quando nos é oferecida a possibilidade de agendar o nascimento de nossos filhos.

Precisamos urgente falar sobre essas consequências porque o modelo obstétrico vigente no Brasil além de apresentar taxas alarmantes de nascimento por cesárea, não oferece à mãe e ao bebê a possibilidade de vivenciar o parto e nascimento fisiológico, a forma mais segura e saudável segundo as evidências científicas mais recentes.

O parto agendado – indução e cesárea eletiva.

A primeira consequência de não se entrar espontaneamente em trabalho de parto é a prematuridade do bebê. Mesmo bebêsprematuro nascidos com 39 ou 40 semanas pelos cálculos do médico ou pelo exame de ultrassonografia ainda não estão preparados para nascer se a mãe não entrou em trabalho de parto. A hipótese mais aceita no meio científico do gatilho que faz a mulehr entrar em trabalho de parto é de que quando os órgãos do bebê estão maduros, a presença de substâncias que são marcadoras dessa maturidade se encontram presente no líquido aminiótico e que, através da troca placentária, o cérebro da gestante reconhece esses marcadores e dá início ao trabalho de parto. Portanto bebê nascidos de forma eletiva, seja por parto normal induzido ou cesárea, apresentam chances significativamente maiores de nascerem prematuros e necessitarem de observação em UTI, desenvolverem dificuldades respiratórias, síndrome do pulmão úmido entre outras. A separação que acontece entra a mãe e o bebê que precisou ficar em UTI traz outras consequências que abordaremos mais abaixo.

A ausência de hormônios endógenos (produzidos naturalmente pela gestante).

Quando um parto é induzido ou uma cesárea é agendada e realizada fora de trabalho de parto, a mãe não produz os hormônios responsáveis pelo trabalho de parto.

Esses hormônios facilitam a formação do vínculo entre mãe e bebê, a descida do colostro e do leite, alertam o bebê de que em breve ele nascerá. Bebês que nascem de cesárea eletiva, nascem menos ativos do que bebês que vivenciaram um trabalho de parto. Além disso as mulheres que vivenciam um trabalho de parto, mesmo que o nascimento venha a ser por cirugia cesareana, e recebem todo coquetel hormonal que é produzido durante todo trabalho de parto, parto e pós-parto parecem apresentar menos episódios de baby-blues e depressão pós parto em comparação com mulheres que não se beneficiaram desse coquetel hormonal.

Recuperação da cirurgia ou da episiotomia.

Mulheres que são submetidas à cesárea ou à espisiotomia precisam de mais tempo para se recuperar, além de serem  submetidas à drogas antiflamatórias e analgésicas que passarão para o leite materno.

A cesárea ou o parto com episiotomia são os únicos procedimentos cirúrgicos em que a pessoa que sofreu essas intervenções não tem direito ao repouso e a ser cuidada. Qualquer cirurgia por menor que seja, recomenda-se cuidados e repouso. Menos ao nascimento de um bebê. A mulher, ao invés de repousar e ser cuidada, terá que levantar a noite para amamentar, para trocar fralda, terá que estar disponível e feliz para receber visitas.

Em um parto fisiológico, a dor do parto é intensa, mas com o nascimento do bebê a mulher está alerta, inteira e pode cuidar de seu bebê e amamenta-lo sem as limitações que uma cirurgia, por melhor que tenha sido, estarão presentes.

Futuro obstétrico e ginecológico.

Uma cirurgia feita sem necessidade, seja ela uma cesárea ou uma episiotomia, compromete o futuro obstétrico, ginecológico e até sexual da mulher.

Cesáreas trazem, futuramente, mais risco de aborto, placenta prévia, aderências, acretismo placentário, ruptura uterina. Além disso, submeter uma mulher à cesárea traz 7 vezes mais risco de internação em UTI, 3 vezes mais risco de morte além de aumentar o risco de hemorragia, histerectomia (retirada do útero) e infecção.

Episiotomias de rotina trazem maior risco de infeção, fibrose, inflamação, dificuldade na recuperação se comparadas com mulheres que não sofreram episiotomia mesmo tendo lacerações espontâneas.

Futuramente uma episiotomia causa comprometimento do assoalho pélvico, dor nas relações sexuais, maior chance de laceração, de prolapso da parede vaginal, prolapso da parede do reto e incontinência urinária.

O nascimento cirúrgico.

Embora alguns bebês precisem nascer por cesárea, submeter a maioria deles ao nascimento cirúrgico traz uma série de malefícios para a saúde do bebê.

É extremamente importante para o pulmão do bebê passar pelo canal de parto. A passagem pelo canal de parto, promove no tórax do bebê uma pressão vigorosa que auxilia no processo de eliminação de qualquer resídulo de líquido aminiótico no pulmão do bebê. Por isso bebês que nascem de cesárea especialmente eletiva, normalmente nascem gementes e vão pra UTI para serem observados por algumas horas, porque apresentam a síndrome do pulmão úmido.

O parto asséptico.

Existe um ritual de assepsia da vagina da mulher pouco antes do bebê nascer. Além disso, algumas  instituições mantem em seus protocolos o enema (lavagem intestinal) e a tricotomia (raspagem dos pêlos pubianos). Permitir que o bebê entre em contato com as bactérias que formam a flora bacteriana na vagina da mãe é poupa-lo de ser colonizado pelas bactérias boas da mãe que vão contribuir para a formação da flora intestinal do bebê.  O bebê que não recebe essas bactérias da mãe, será colonizado pelas bactérias hospitalares presentes nas salas de parto e centros-obstétrico. Esses bebês apresentam 120 vezes mais problemas respiratórios, chance de desenvolverem obesidade e de desenvolverem alergias alimentares graves.

Separação do bebê da mãe.

Algumas insituições mantém funcionando até hoje os berçarios. Berçarios separam o bebê da mãe, dificultam a formação do vínculo e reduzem as chances de sucesso do aleitamento materno. Muitos berçarios introduzem leite artificial ou fórumulas o que aumenta significativamente a chance dos bebês desenvolverem alergia alimentar grave e obesidade, além de contribuir de forma significativa para o desmame e a introdução de mamadeiras e chupetas.

Quero fazer aqui um reforço a este ultimo item. MANTER mãe e bebê juntos, o tempo todo influencia e muito na saúde do parto-humanizado1bebê.

Eu tive uma filha alérgica alimentar. Apenas quinze anos depois, fui entender que essa alergia alimentar foi causada pela péssima assistência obstétrica e neonatal que tivemos. Alem dela ter nascido desnecessariamente de cesárea, foi alimentada com leite artificial nas 16 horas em que ela ficou no berçário antes que eu pudesse amamenta-la. Essa separação retardou a descida do colostro e do leite, o que fez com que eu mantivesse a complementação com leite artificial. Ela foi alérgica por 6 anos. Apresentou otite de repetição, meningite (duas vezes) e perda auditiva. Assim como nós, tenho várias amigas que passaram histórias semelhantes e que tiveram filhos com graves alergias. Não deixem que levem seu bebê. Mantenham seu bebê com você. é recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria, da Organização Mundial da Saúde e do Minsitério da Saúde. E é lei.  Alojamento conjunto e imediato. Lugar de bebê é no colo da mãe. Essa simples ação, vai garantir que as futuras gerações sejam mais saudáveis do que as gerações atuais.


sobre Gisele Leal

Sou Bióloga, formada pela Puc Campinas em 1997. Minha primeira filha, Beatriz, nasceu em 1998, e m 2007 nasceu o Arthur ambos de prováveis cesáreas desnecessárias. Em 2010 me vi grávida novamente, e inconformada com a notícia de que teria que agendar minha cesárea. Busquei informações, me preparei, me empoderei e assim, nasceu Catharina de um parto natural maravilhoso após 2 cesáreas, após 42 horas de bolsa rota e com parteira e doula num hospital em São Paulo. A experiência do parto mudou minha vida. Em apenas um mês do nascimento da Catharina escrevi um livro e publiquei o blog Mulheres Empoderadas. Menos de um ano após, larguei carreira de 14 anos na indústria onde eu atuava como gerente de qualidade, e vivia dividida entre as pontes aéreas e viagens internacionais e minha família. Então me capacitei como Doula pela ANDO – Associação Nacional de Doulas em abril de 2011, embora já acompanhasse eventualmente a gestação e parto de amigas e primas desde Outubro/2010, tamanha era a minha vontade de estar nesse meio. Ainda em 2011, inconformada com o modelo de assistência obstétrica no nosso país, reuni doulas, parteiras, mães e simpatizantes do movimento de humanização e juntas fundamos o MAHPS – Movimento de Apoio á Humanização do Parto em Sorocaba, elaborei o projeto Doula Social para ser implementado no SUS e comecei a atuar voluntariamente em um hospital público de Sorocaba. Em apenas 14 meses de MAHPS, idealizei e coordenei a organização de 2 encontros voltados à Humanização do Parto e Nascimento e um Encontro Nacional de Parteria Urbana, além de mais de 22 encontros do grupo de apoio à gestantes. Em 2012 fiz o curso de Formação em Parto Ativo com a Janet Balaskas, inglesa, precursora do conceito Parto Ativo e ingressei no curso de Obstetrícia da USP. Em julho de 2013 nasceu a Sophia, em casa nas mãos do pai, cercada pelos irmãos. Diferente da história da Catharina que foi uma história de empoderamento e superação, o parto de Sophia foi uma história de entrega, fé e aceitação.

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