Capítulo III – Relato de parto domiciliar – Gisele e Sophia


Você pode ler o capítulo I e o capítulo II antes de começar a ler este capítulo.

Ufa! Até que enfim. A primeira. Forte. Rasgando. Dor cortante no púbis. Ou será na lombar? Peraí. Uma contração dói o púbis, a outra a lombar. Eita bebê cabeçudo. Ô dor da morte. Mas peraí. Estão espaçadas apesar de muito doloridas. Fase latente. Ahhhh vou dormir… Onde eu estava com a cabeça quando desejei sentir essa dor de novo? Sou maluca. Aliás, bando de xiitas malucas.”, pensei.

Fiquei ali deitada sentindo contrações a cada 10 minutos ou mais, ao lado do Cesar, por uma hora eu acho. O que era aquilo? Não dava pra ficar deitada. Dor-Da-Morte! Levantei, rebolei, fui pro chuveiro de novo. Saí do chuveiro depois de um bom tempo.

– Luuuuuuuuuuuu me ajuda. Pega bolsa de água quente.

Lu pegou forro pro sofá, sentei, colocou uma cadeira pra eu esticar as pernas, cobertor e bolsa de água quente. E ali dormi entre as contrações por umas 3 horas eu acho.  Foi quando a Kelly acordou com o celular tocando. Outro trabalho de parto.

– Gi, vou ali correndo, está adiantado, já volto.

Vai lá Kel. Acho que vc não vai conseguir fotografar os dois.”, pensei

– Vc vai ver. Bb4 vai me esperar.

Foi. Ela saiu e eu voltei pro chuveiro.

Vou morrer. Vou morrer. Que dor é essa. O parto da Cacá não doeu desse jeito. Preciso atravessar essa fase”.

– Cesar devo estar com 7 pra 8. Liga pras parteiras. Liga pra pediatra. Sim, tenho certeza. Agora é trabalho de parto!

doulasTransição filha da puta. Que dor lazarenta. Vou quebrar no meio. Não lembro de doer assim. Ai meu púbis. Ai meu sacroooooooo. Que dor é essa????? Deixa vir Gisele. Respira. Não briga com a dor. Respira… A mesma respiração que a Lu te ensinou pra pressão. Que pressão? Cadê todo mundo? Dor, dor, dor. Quem vai ligar? Já ligaram?

– CESAAAAAAAAAAAAR VAI BUSCAR A BIA! EU QUERO A BIA! QUERO AS CRIANÇAS AQUIIIIIIIIIIIIII.

Cadê as crianças????, Cadê???

– Luuuuuuuuuuu quero uma analgesia, não vou aguentar. Que  dor é essa????????????

– Magê liga  pra Bá. Telefone da Tim. Pergunta pra ela se é menino ou menina. Preciso saber, e tem que  ser agora. Barbara Parteira. Ela estava no meu ultrassom. Ela sabe. Ligaaaaaaaaaa. Não sei se quero saber. Liga. Quero saber. É menino ou menina…????????????

– Gi, as parteiras estão vindo.

Dor  da morte. Vou morrer. Renascer. Entrego. Aceito. Confio. Agradeço.”.

Cesar

– Tá acabando. Tá acabando. Eu sei  que está. Cesaaaaaaaaaaaaaaar. Magêeeeeeeeeeeeeeeee. Esquenta a banheira.

Preciso da banheira. Socorro. Preciso. Preciso.”

Começaram a tirar água da banheira, com baldes e jogar no vaso. Esvaziaram rapidinho. Saí do chuveiro:

– Lu me ajuda a ascultar esse bebê.

– 140bpm Gi.

– Ótimo. Vou pra banheira.  “Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh hhhhhhhhhh que alivio. Água quente. Não acredito. Posso boiar. Eu com esse tamanho todo posso boiar nessa piscininha de criança? Boiar? De barriga pra baixo? Ahhhhhhhhh saiu toda dor do púbis! Que deliciaaaaaaaaaa. Vou ficar aqui pra sempre.

Ouvi as crianças chegando.

– BIAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA.

BiaBia veio, me deu um beijo.

“Ai que delicia ver vcs”.

–  Arthuuuuuuuur, Cacáaaaaaa!

Me beijaram.

– Nossa vcs estão fedidos. Vão tomar um banho!

Magê foi dar banho nos dois.

“Ahhhh agora posso parir. Nem acredito que eles  chegaram!”

 

 

Arthur Crianças doulando Cacá

 

(Continua….)


sobre Gisele Leal

Sou Bióloga, formada pela Puc Campinas em 1997. Minha primeira filha, Beatriz, nasceu em 1998, e m 2007 nasceu o Arthur ambos de prováveis cesáreas desnecessárias. Em 2010 me vi grávida novamente, e inconformada com a notícia de que teria que agendar minha cesárea. Busquei informações, me preparei, me empoderei e assim, nasceu Catharina de um parto natural maravilhoso após 2 cesáreas, após 42 horas de bolsa rota e com parteira e doula num hospital em São Paulo. A experiência do parto mudou minha vida. Em apenas um mês do nascimento da Catharina escrevi um livro e publiquei o blog Mulheres Empoderadas. Menos de um ano após, larguei carreira de 14 anos na indústria onde eu atuava como gerente de qualidade, e vivia dividida entre as pontes aéreas e viagens internacionais e minha família. Então me capacitei como Doula pela ANDO – Associação Nacional de Doulas em abril de 2011, embora já acompanhasse eventualmente a gestação e parto de amigas e primas desde Outubro/2010, tamanha era a minha vontade de estar nesse meio. Ainda em 2011, inconformada com o modelo de assistência obstétrica no nosso país, reuni doulas, parteiras, mães e simpatizantes do movimento de humanização e juntas fundamos o MAHPS – Movimento de Apoio á Humanização do Parto em Sorocaba, elaborei o projeto Doula Social para ser implementado no SUS e comecei a atuar voluntariamente em um hospital público de Sorocaba. Em apenas 14 meses de MAHPS, idealizei e coordenei a organização de 2 encontros voltados à Humanização do Parto e Nascimento e um Encontro Nacional de Parteria Urbana, além de mais de 22 encontros do grupo de apoio à gestantes. Em 2012 fiz o curso de Formação em Parto Ativo com a Janet Balaskas, inglesa, precursora do conceito Parto Ativo e ingressei no curso de Obstetrícia da USP. Em julho de 2013 nasceu a Sophia, em casa nas mãos do pai, cercada pelos irmãos. Diferente da história da Catharina que foi uma história de empoderamento e superação, o parto de Sophia foi uma história de entrega, fé e aceitação.

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