Carta para minha amiga grávida


Há muito tempo tenho vontade de falar com as minhas amigas que ficaram grávidas e se afastaram. Mas não consegui. E antes que  uma outra fique, e eu trave novamente, publico a carta que gostaria de ter entregue  para cada uma das minhas amigas queridas que engravidaram nos ultimos quatro anos.

pregnant women

Carta para minha amiga grávida.

Querida amiga,

desde que comecei a minha intensa busca pelo  meu parto normal após as duas cesáreas, muitas amigas engravidaram.

Muitas mesmo. Você não é  a primeira.

E eu confesso que eu travei  com a maioria delas. E provavelmente eu trave com você também. Há alguns anos, quando a Cacá nasceu, talvez eu não tenha  travado. Naquela época que eu falava e falava e falava sobre o parto para todas que estavam grávidas. Depois de um tempo, amenizado o êxtase, fui me calando e ficando quietinha. Parabenizava pela gestação e me colocava à disposição.

Acho que quase 20  amigas tiveram filhos nesses anos após o nascimento da Cacá. Talvez mais… E apenas duas delas tiveram um parto normal bacana e com respeito. E eu fui doula das duas. Todas as outras, me evitaram boa parte da gestação, mal conversaram comigo sobre trivialidades, muito menos sobre gestação, parto e maternidade. E muitas delas eu não tive sequer notícias de como foi o nascimento.  Algumas eu nem soube que estavam grávidas. Isso me deixa uma tristeza profunda. Porque no meu entender se há silêncio é porque as experiências de nascimento não foram transcedentais.  E eu me culpo, porque poderia ter falado, poderia ter ajudado a ter uma  experiência maravilhosa. Mas me calei. Em respeito ao silêncio delas.

Ao contrário, eu sempre fiz de conta que nada estava acontecendo. Em respeito ao silêncio dessas amigas. Apenas conversava sobre algum assunto, se a amiga me perguntasse. E quando havia um telefonema, um inbox no face, um email perguntando coisas sobre gravidez e parto,  ou mesmo sobre qualquer outro assunto, a felicidade transbordava em mim! Como eu vibrava! Podia novamente ser a amiga daquela pessoa  tão querida. Mas foram raros os telefonemas e mensagens. Poucos mesmo. E eu respeitei. Fiquei quietinha, apenas torcendo para  que as informações chegassem até elas. Fosse através do blog, através da minha página no facebook, através de alguma notícia no jornal. É tão irônico poder ajudar, como Doula, mulheres que eu nunca vi na vida, e não poder estar ao lado de amigas tão queridas e especiais. Acho que é o ônus de ser ativista…

Então aproveito  para escrever você minha  amiga que  ainda vai engravidar. Ou pra você que já engravidou, mas não me contou ainda, com medo de que eu despeje um quilo de informações sobre gestação, parto e maternidade: Não sinta medo. Não se afaste. Eu não vou despejar informação em você. Não vou discursar sobre parto e cesárea. Eu sinto falta de você. Eu estou aqui, inteirinha para te ouvir, e se você quiser informação, para te passar. Não a minha opinião pessoal.  Informação. Baseada em evidências. Estou aqui. Pronta para transmitir um pouquinho do que aprendi nesses anos de ativismo e muito estudo. Pronta para lhe ouvir, acolher, escutar e, se for do seu desejo, ajudar.

Não tenha medo ou vergonha de me dizer que prefere a cesárea. Eu juro que te entendo. E não te julgo. Neste país onde a assistência ao parto normal é violenta e ultrapassada, eu juro que te entendo. Mas, o que eu gostaria de te dizer é que talvez, exista um milhão de possibilidades entre o parto normal violento que nós conhecemos e a cesárea agendada e não tão segura quanto parece.

Estou aqui. Ontem, hoje e sempre. Sem julgar. Não julgo as mulheres, especialmente amigas queridas. Minha crítica, minha luta é contra o sistema. Não contra você.

E se você não quiser falar sobre gravidez, parto ou maternidade, eu estou aqui mesmo assim. Como amiga, como mãe e como mulher. Para tomarmos um café juntas, rirmos e chorarmos outra vez.

Com amor.

Gisele


sobre Gisele Leal

Sou Bióloga, formada pela Puc Campinas em 1997.
Minha primeira filha, Beatriz, nasceu em 1998, e m 2007 nasceu o Arthur ambos de prováveis cesáreas desnecessárias.
Em 2010 me vi grávida novamente, e inconformada com a notícia de que teria que agendar minha cesárea. Busquei informações, me preparei, me empoderei e assim, nasceu Catharina de um parto natural maravilhoso após 2 cesáreas, após 42 horas de bolsa rota e com parteira e doula num hospital em São Paulo.
A experiência do parto mudou minha vida. Em apenas um mês do nascimento da Catharina escrevi um livro e publiquei o blog Mulheres Empoderadas.
Menos de um ano após, larguei carreira de 14 anos na indústria onde eu atuava como gerente de qualidade, e vivia dividida entre as pontes aéreas e viagens internacionais e minha família. Então me capacitei como Doula pela ANDO – Associação Nacional de Doulas em abril de 2011, embora já acompanhasse eventualmente a gestação e parto de amigas e primas desde Outubro/2010, tamanha era a minha vontade de estar nesse meio.
Ainda em 2011, inconformada com o modelo de assistência obstétrica no nosso país, reuni doulas, parteiras, mães e simpatizantes do movimento de humanização e juntas fundamos o MAHPS – Movimento de Apoio á Humanização do Parto em Sorocaba, elaborei o projeto Doula Social para ser implementado no SUS e comecei a atuar voluntariamente em um hospital público de Sorocaba.
Em apenas 14 meses de MAHPS, idealizei e coordenei a organização de 2 encontros voltados à Humanização do Parto e Nascimento e um Encontro Nacional de Parteria Urbana, além de mais de 22 encontros do grupo de apoio à gestantes.
Em 2012 fiz o curso de Formação em Parto Ativo com a Janet Balaskas, inglesa, precursora do conceito Parto Ativo e ingressei no curso de Obstetrícia da USP.
Em julho de 2013 nasceu a Sophia, em casa nas mãos do pai, cercada pelos irmãos. Diferente da história da Catharina que foi uma história de empoderamento e superação, o parto de Sophia foi uma história de entrega, fé e aceitação.

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