Doulas proibidas nos centro-obstétricos. E daí?


ericaHa 4 anos, doulas foram proibidas de entrarem no centro-obstétrico da maior e mais tradicional (sic) maternidade da cidade de Campinas.

Ha 3 anos, doulas foram proibidas de entrarem no centro-obstétrico de duas grandes maternidades particulares em São Paulo.

E desde então, outras cidades e Estados vem proibindo a permanencia da doula (ou de mais de um acompanhante) nos centros obstetricios com as mais diversas justificativas, como vocês podem ver aqui.

Desde 2012, projetos de lei que garantem às gestantes e parturientes serem acompanhadas por doulas de sua livre escolha foram escritos e encaminhados para aprovação. E é claro, que nos estados e cidades conservadoras esses projetos de lei foram engavetados.

Pois amigas doulas, eu venho aqui pra dizer pra vocês que isso não impede o nosso trabalho. E venho falar pra vocês, gestantes, que durante esses anos nós descobrimos formas de continuar dando o apoio contínuo à vocês durante a maior parte do trabalho de parto. Essas decisões das instituições por proibirem a entrada de doulas nos centro-obstétricos, na tentativa de fazer extinguir essa profissão tão bonita e importante, não funcionou. E também não desempoderou as mulheres nem as fez desistir de um parto mais fisiológico e respeitoso. Pelo menos não aqui.

As gestantes que eu acompanho, estão cientes de que doula não entra em centro obstétrico. Mesmo nos hospitais que ainda permitem a entrada de doulas elas se preparam para estarem apenas com seu acompanhante no momento do parto. E essa é uma questão que é conversada várias vezes. Porque mesmo nos hospitais que permitem a presença da doula, essa regra pode mudar da noite pro dia. E é em cima dessa condição, que trabalho durante toda gravidez junto às gestantes, para a preparação para o parto e nascimento.

Trabalhamos sua auto-confiança, seu empoderamento, sua certeza de que, apesar da doula ficar do lado de fora do centro-obstétrico, ela e seu companheiro são plenamente capazes de exercer seu protagonismo. Durante esse trabalho, muitos casais entendem que o hospital talvez não seja o local mais adequado para eles, e optam por um parto domiciliar planejado e assistido por parteiras profissionais.

Para os casais que se sentem mais seguros em receber seu bebê no hospital, construimos um plano de parto bem estruturado. E principalmente, durante a fase mais dificil do trabalho de parto, que é a fase de dilatação do colo uterino, fico junto com a gestante e seu acompanhante. Em sua casa. Acompanhada por uma obstetriz, que irá avaliar a vitalidade fetal através da ausculta dos batimentos cardíacos do feto.

Uso todo meu conhecimento e experiência para promover conforto pra essa gestante. Ofereço todos os métodos não farmacológicos para alívio da dor. Na casa da gestante. No aconchego do seu lar. E quando a obstetriz avalia que a dilatação está quase completa, vamos para o hospital escolhido. Na chegada ao hospital, enquanto o acompanhante (na maioria das vezes o companheiro) faz a ficha, o cadastro e cuida das burocracias, acompanho a gestante durante os exames de admissão. Dali pra frente, ela segue com seu acompanhante para o centro obstétrico para os momentos finais do trabalho de parto e para o parto propriamente dito.

Quando a mulher não deseja ficar em casa durante o trabalho de parto, ou não pode contratar uma obstetriz, acompanho essa mulher no pre-parto do hospital. Já que na grande maioria das vezes o companheiro é impedido de acompanha-la por “ser homem e tirar a privacidade das outras mulheres em trabalho de parto.” (Vale ressaltar, que quando esta proibição acontece, a instituição está descumprindo a lei federal 11.108/2005). Da mesma forma, quando o parto se aproxima e a mulher é encaminhada ao centro-obstétrico, troco de lugar com o acompanhante e este ficará com ela até o nascimento do bebê.

Após a mulher e seu bebê estarem estabelecidos no quarto, e se assim ela desejar, eu retorno ao hospital para ajudar com amamentação e cuidados com o recém-nascido, dentro do horário de visitas. E esse acompanhamento pode se estender até depois, na casa da família, caso eles sintam necessidade e me acionem.

Ou seja, esse bla bla bla de que doula não pode entrar no centro-obstétrico, não prejudica em nada o trabalho da doula. No começo, causou sim muito desconforto para os casais. No entanto, ao mudar a minha forma de trabalhar, os preparo para que eles desenvolvam essa independência emocional no momento que for necessário estar no hospital. Afinal, o parto é da mulher. :)

À vocês que cerceiam o direito das parturientes terem suas doulas dentro dos centro obstétricos: Vocês estão nos deixando mais fortes. Mais seguras. Mais empoderadas. As mulheres não temem estarem sozinhas lá dentro. Elas conhecem os seus direitos. E seus companheiros também. Sinto informar. Foi um tiro no pé.

Às incríveis mulheres empoderadas que acompanhei, e que muitas vezes chorei na recepção por não poder estar lá no centro-obstétrico com vocês: vocês me enchem de orgulho. E admiração. Vocês sim, estão mudando a história da obstetrícia em nosso país.


sobre Gisele Leal

Sou Bióloga, formada pela Puc Campinas em 1997. Minha primeira filha, Beatriz, nasceu em 1998, e m 2007 nasceu o Arthur ambos de prováveis cesáreas desnecessárias. Em 2010 me vi grávida novamente, e inconformada com a notícia de que teria que agendar minha cesárea. Busquei informações, me preparei, me empoderei e assim, nasceu Catharina de um parto natural maravilhoso após 2 cesáreas, após 42 horas de bolsa rota e com parteira e doula num hospital em São Paulo. A experiência do parto mudou minha vida. Em apenas um mês do nascimento da Catharina escrevi um livro e publiquei o blog Mulheres Empoderadas. Menos de um ano após, larguei carreira de 14 anos na indústria onde eu atuava como gerente de qualidade, e vivia dividida entre as pontes aéreas e viagens internacionais e minha família. Então me capacitei como Doula pela ANDO – Associação Nacional de Doulas em abril de 2011, embora já acompanhasse eventualmente a gestação e parto de amigas e primas desde Outubro/2010, tamanha era a minha vontade de estar nesse meio. Ainda em 2011, inconformada com o modelo de assistência obstétrica no nosso país, reuni doulas, parteiras, mães e simpatizantes do movimento de humanização e juntas fundamos o MAHPS – Movimento de Apoio á Humanização do Parto em Sorocaba, elaborei o projeto Doula Social para ser implementado no SUS e comecei a atuar voluntariamente em um hospital público de Sorocaba. Em apenas 14 meses de MAHPS, idealizei e coordenei a organização de 2 encontros voltados à Humanização do Parto e Nascimento e um Encontro Nacional de Parteria Urbana, além de mais de 22 encontros do grupo de apoio à gestantes. Em 2012 fiz o curso de Formação em Parto Ativo com a Janet Balaskas, inglesa, precursora do conceito Parto Ativo e ingressei no curso de Obstetrícia da USP. Em julho de 2013 nasceu a Sophia, em casa nas mãos do pai, cercada pelos irmãos. Diferente da história da Catharina que foi uma história de empoderamento e superação, o parto de Sophia foi uma história de entrega, fé e aceitação.

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