É preciso se preparar para o parto?


Foto: Michele Pampanin  Pamela, Igor e o pequeno Davi :)

Foto: Michele Pampanin
Pamela, Igor e o pequeno Davi :)

Se uma mulher busca um parto mais natural possível, faz sentido ela se preparar para o parto?

Nós não somos apenas corpo e hormônios. Por trás de um ser biológico existe toda uma construção social, emocional, cultural. Criamos expectativas. Se fosse apenas corpo e hormônios, realmente não faria o menor sentido nos prepararmos para a primeira menstruação, para a primeira transa, para o parto… Não faria sentido toda a discussão sobre gênero.

Hoje vi um post no Facebook que me lembrou um atendimento que fiz no início deste ano. O companheiro de uma gestante que eu estava acompanhando e iria acompanhar o parto, me perguntou:

– Gisele, se nós queremos um parto natural, porque precisamos nos preparar para o parto? O parto não é um evento fisiológico? As mulheres não sabem parir? Não foi assim desde sempre?

E então, nós conversamos longamente e divagamos sobre a necessidade da preparação pro parto. E chegamos à conclusão que até chegar o dia do parto, existe um longo caminho a ser percorrido.

Onde estamos?

Vivemos em uma sociedade onde, nós mulheres, somos ensinadas a nos desconectar de todos os nossos processos fisiológicos. Recebemos orientação para nos medicalizar já na primeira menstruação – para regular o ciclo. Para corrigir os ovários policísticos. Para suspender os ciclos menstruais.

Quando engravidamos recebemos orientação para fazer repouso, para tomar hormônios.

Quando chega próximo ao nascimento do bebê recebemos orientação para agendar a cesárea.

Quano temos nossos bebês nos braços, recebemos informação de que nosso leite é fraco, e portanto somos orientadas a dar mamadeira e fórmula infantil.

Quando entramos na menopausa recebemos orientação para medicar os sintomas, e não vivenciar o fim do nosso ciclo reprodutivo.

Estamos numa sociedade onde somos lembradas o tempo todo que temos que nos desconectar de nosso corpo.

Estamos num país onde o parto é a exceção, e não a regra. Estamos num país onde uma mulher nunca viu outra mulher parir. Não sabe o que é uma contração, não sabe o que é um puxo, um gemido, um urro. Não sabe que parto sangra.

Estamos num país onde a maioria dos bebês nascem por via cirúrgica. Onde a maioria dos bebês são separados da suas mães ao nascerem. Onde a maioria das mulheres e bebês recebem intervenções médicas sem necessidade.

Estamos num país que diz que dar colo acostuma mal os bebês. Que coloca os bebês deitados em quarto separado. Estamos num país onde não sabemos carregar um bebê, não sabemos amamentá-lo. Porque não vemos bebês sendo amamentados.

Por tudo  isso, a preparação para o parto e nascimento é uma ferramenta de resgate.

O que podemos fazer?

A boa preparação para o parto, não ensina a mulher a parir. Seu corpo sabe como fazer isso. Assim como sabe respirar, como sabe digerir, como sabe eliminar.

A boa preparação para o parto é um convite  para a mulher se conectar, se conhecer, entender o modelo que ela vai ter que enfrentar. Olhar para o lado social, cultural e emocional do parto e nascimento.

Uma boa preparação para o parto, fornece ao casal as ferramentas necessárias para que eles se empoderem e conheçam os pontos que necessitam trabalhar. Os seus medos. Suas dúvidas. As ferramentas necessárias para que eles construam uma experiência de parto e nascimento que eles julgam a melhor para eles. Que não será igual ao de outro casal.  Não há certo e errado. Não há melhor ou pior. Um casal bem informado é capaz de fazer as próprias escolhas.

Quando fazer a preparação para o parto?

Não há uma época melhor ou pior para se preparar. Enquanto a mulher ainda está gestando, sempre há tempo.

Na primeira turma de preparação para o parto que fiz na minha cidade, entre os casais presentes, havia um casal com 38 semanas. Essa mulher teve que enfrentar a familia que a pressionava para fazer uma cesárea. Segundo ela, o curso a fortaleceu para isso. Ela deixou o convênio e escolheu ter seu bebê no SUS. Gabriel nasceu de um parto fisiológico, sem intervenções, no SUS com 42 semanas e um dia.

No ultimo curso de preparação pro parto que eu dei para 8 casasis, chegou um casal com 37 semanas que tinha a certeza que teria um parto normal no hospital particular mais cesarista da minha cidade. E por participar destas 12 horas de preparação, este casal teve a CHANCE de conhecer o modelo obstétrico vigente, as estatísticas da cidade em que eles vão ter o seu bebê, e puderam tomar novas decisões com relação ao parto.

Eu atendi uma mulher no começo deste ano com 35 semanas que me pediu para ajuda-la pois ela não tinha tido, até então, acesso à informações importantes para ela, como preparação para o períneo e plano de parto. Fui até a casa dela as 23h e lá fiquei até a uma da manhã. Ela queria saber sobre preparação para o períneo e lá fui eu, ouvir e fornecer as informações que ela precisava. Eu viajaria no dia seguinte pela manhã mas não poderia deixar de atender o pedido de uma mulher que queria se preparar para o parto. Durante o trabalho de parto, essa mulher, sempre verbalizava sensações que ela experimentou durante a preparação do períneo. E isso facilitou muito sua entrega. A conexão com ela mesma. Ela pariu em casa, um bebê com mais de 4,200. Sem laceração.

Um casal que fez preparação para o parto recentemente, com apenas 12 semanas de gestação, me disse o quanto tinha sido importante fazer essa peparação. Pois, segundo me contaram, muitas equipes e doulas”, dizem: “Conecte-se com você. Confie em seu corpo. Você sabe parir. Não precisa se preparar. Não precisa de plano de parto”. Eles me questionaram: “Qual a diferença entre esse discurso e o discurso do cesarista? O cesarista diz: “Deixe comigo.  Cuide do enxoval”. Mas no final das contas, é a mesma coisa“. Eu ? Fiquei sem resposta.

Assim como essas, tenho dezenas, centenas de outras histórias e depoimentos sobre importância de participar dos grupos de apoio ao parto e de encontros de preparação para o parto. Esses encontros são uma oportunidade ímpar da mulher se conectar com ela própria. Com seu companheiro. Com seu bebê.  São a oportunidade da mulher e seu companheiro buscarem informação, empoderamento e construirem a experiência de parto e nascimento que eles desejam e, inclusive, de se preparar para desfechos indesejados.

Para algumas mulheres basta conhecer as estatísticas.
Para outras, conhecer a realidade dos hospitais de sua cidade.
Para outras, será necessário fazer a preparação do períneo.
Para outras, ajuda para construir o plano de parto.
Para outra, experimentar uma massagem, uma posição.
Para outra, apenas o fato de estar em contato com outras gestantes já a fortalece para que ela se conecte com ela mesma.

Não há certo ou errado. Cada mulher sabe da própria necessidade. E pode e deve usar as ferramentas que dispõe para buscar essa conexão consigo mesma, e deixar que a natureza siga seu curso e seja soberana.


sobre Gisele Leal

Sou Bióloga, formada pela Puc Campinas em 1997. Minha primeira filha, Beatriz, nasceu em 1998, e m 2007 nasceu o Arthur ambos de prováveis cesáreas desnecessárias. Em 2010 me vi grávida novamente, e inconformada com a notícia de que teria que agendar minha cesárea. Busquei informações, me preparei, me empoderei e assim, nasceu Catharina de um parto natural maravilhoso após 2 cesáreas, após 42 horas de bolsa rota e com parteira e doula num hospital em São Paulo. A experiência do parto mudou minha vida. Em apenas um mês do nascimento da Catharina escrevi um livro e publiquei o blog Mulheres Empoderadas. Menos de um ano após, larguei carreira de 14 anos na indústria onde eu atuava como gerente de qualidade, e vivia dividida entre as pontes aéreas e viagens internacionais e minha família. Então me capacitei como Doula pela ANDO – Associação Nacional de Doulas em abril de 2011, embora já acompanhasse eventualmente a gestação e parto de amigas e primas desde Outubro/2010, tamanha era a minha vontade de estar nesse meio. Ainda em 2011, inconformada com o modelo de assistência obstétrica no nosso país, reuni doulas, parteiras, mães e simpatizantes do movimento de humanização e juntas fundamos o MAHPS – Movimento de Apoio á Humanização do Parto em Sorocaba, elaborei o projeto Doula Social para ser implementado no SUS e comecei a atuar voluntariamente em um hospital público de Sorocaba. Em apenas 14 meses de MAHPS, idealizei e coordenei a organização de 2 encontros voltados à Humanização do Parto e Nascimento e um Encontro Nacional de Parteria Urbana, além de mais de 22 encontros do grupo de apoio à gestantes. Em 2012 fiz o curso de Formação em Parto Ativo com a Janet Balaskas, inglesa, precursora do conceito Parto Ativo e ingressei no curso de Obstetrícia da USP. Em julho de 2013 nasceu a Sophia, em casa nas mãos do pai, cercada pelos irmãos. Diferente da história da Catharina que foi uma história de empoderamento e superação, o parto de Sophia foi uma história de entrega, fé e aceitação.

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