Gravidinha? Mãezinha? Oi? 4


mulher criança

Entenda porque tratar as mulheres com termos diminutivos, não faz parte do vocabulário de ativistas e de profissionais humanistas que levantam a bandeira da humanização do parto e nascimento e mude de uma vez por todas o seu vocabulário também. :)

Pois é, gente! Tratar as gestantes, as parturientes, por mãezinha ou gravidinha é uma questão de neurolinguistica. Não que o termo esteja sendo usado de forma intencional, não acho que seja isso, imagino que queremos ser carinhosos até… mas as vezes as palavras tem poder!!!

Chamar minha paciente, minha doulanda, é de certa forma tomar posse dela e da gestação dela… Ela não é nossa, nós é que acompanhamos aquela pessoa, que é dona de si, de seu corpo e de sua gestação.

Chamar de qualquer coisa “inha”, é infatilizar. Isso é algo que vem sendo estudado pela antropologia, faz parte das coisas que foram introduzidas na assistência o parto para tirar o parto da mulher, diminuí-la e infantilizá-la, assim como a tricotomia. REPITO: Não que isso seja feito de forma intencional de jeito nenhum, mas é algo que nos foi passado e que perpetuamos, mas que faz mal!! Eu mesma, quando ensinada no modelo tradicional, falava dessa mesma forma, chamava de maezinha, dizia que tinha feito o parto de fulana, chamava de minha paciente… Mas quando comecei a “enxergar a luz”, vi que além de mudar práticas, precisamos também mudar a forma de falar, pois na verdade, a mudança das práticas em nós mesmos e nos outros, passa pelo nosso discurso e como nos refirimos as coisas e  também!
Outro exemplo disso que combato diariamente é aquele vicio de dizer “eu fiz o parto de fulana”.
Hoje, exatamente como forma de ensinar aos outros, eu faço a correção: você não faz parto de ninguém ao não ser o seu (se for mulher), nós profissionais de saúde podemos fazer uma cesárea, aplicar um fórceps, fazer uma indução. Mas quem faz o parto é a mulher!!!
Quando faço essas correções, alguns reagem assim: Ah, é a mesma coisa, é isso mesmo. Mas não é!!! Porque até a forma como você se refere a o que acontece, interfere no que acontece!
Então entendam, modificar esses termos parece uma coisa secundária e usá-los parece ser inócuo, mas não é…
E quando alguém abordar isso, não se ofenda! Garanto a vocês  que essa pessoa, assim como eu e tantas outras pessoas formadas dentro do modelo tradicional de assistência ao parto e que despertaram para a humanização do nascimento, também luta para humanizar a  forma de falar  e devolver o protagonismo à mulher!

Por Leila Katz, Obstetra, doutora em tocoginecologia pela UNICAMP, trabalha em Recife/PE no Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (IMIP) coordenando a UTI Obstétrica e o setor Aconchego (o setor aconhego é um setor no IMIP de parto humanizado, que atende apenas baixo risco num sistema PPP atendido por Enfermeiras Obstetras). É ativista e militante pela Humanização do Nascimento e muito, muito envergolhada! :)


sobre Gisele Leal

Sou Bióloga, formada pela Puc Campinas em 1997. Minha primeira filha, Beatriz, nasceu em 1998, e m 2007 nasceu o Arthur ambos de prováveis cesáreas desnecessárias. Em 2010 me vi grávida novamente, e inconformada com a notícia de que teria que agendar minha cesárea. Busquei informações, me preparei, me empoderei e assim, nasceu Catharina de um parto natural maravilhoso após 2 cesáreas, após 42 horas de bolsa rota e com parteira e doula num hospital em São Paulo. A experiência do parto mudou minha vida. Em apenas um mês do nascimento da Catharina escrevi um livro e publiquei o blog Mulheres Empoderadas. Menos de um ano após, larguei carreira de 14 anos na indústria onde eu atuava como gerente de qualidade, e vivia dividida entre as pontes aéreas e viagens internacionais e minha família. Então me capacitei como Doula pela ANDO – Associação Nacional de Doulas em abril de 2011, embora já acompanhasse eventualmente a gestação e parto de amigas e primas desde Outubro/2010, tamanha era a minha vontade de estar nesse meio. Ainda em 2011, inconformada com o modelo de assistência obstétrica no nosso país, reuni doulas, parteiras, mães e simpatizantes do movimento de humanização e juntas fundamos o MAHPS – Movimento de Apoio á Humanização do Parto em Sorocaba, elaborei o projeto Doula Social para ser implementado no SUS e comecei a atuar voluntariamente em um hospital público de Sorocaba. Em apenas 14 meses de MAHPS, idealizei e coordenei a organização de 2 encontros voltados à Humanização do Parto e Nascimento e um Encontro Nacional de Parteria Urbana, além de mais de 22 encontros do grupo de apoio à gestantes. Em 2012 fiz o curso de Formação em Parto Ativo com a Janet Balaskas, inglesa, precursora do conceito Parto Ativo e ingressei no curso de Obstetrícia da USP. Em julho de 2013 nasceu a Sophia, em casa nas mãos do pai, cercada pelos irmãos. Diferente da história da Catharina que foi uma história de empoderamento e superação, o parto de Sophia foi uma história de entrega, fé e aceitação.


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4 thoughts on “Gravidinha? Mãezinha? Oi?

  • Maria Célida de Freitas Paz

    Acredito que tomar o poder nas mãos,respondendo com propriedade a essas pessoas,fará com que revejam seus conceitos e palavras.As pessoas repetem o que ouvem sem a menor observação.É responder indagando – você sabe o que está dizendo? – eu não quero epsio, não quero enema, não quero toque,não quero ficar deitada, etc. Diante de questionamentos e atrevimentos, é garantido que o outro vai no mínimo parar e pensar.

  • Denise Arcoverde

    Sempre ODIEI esse “mãezinha”, brigava muito contra isso, quando trabalhava com amamentação, no Brasil. É impressionante como algumas pessoas não conseguem entender o quanto essa linguagem condescendente é desempoderadora para a mulher.

  • Juliana Bolanho

    E não é apenas durante a fase de gestação ou pós-parto.
    Durante a maternagem, seremos muitas vezes tratadas como “mãezinhas”.
    Infelizmente…

  • Kelly Stein

    A forma como são colocadas as palavras dizem muito do que as coisas realmente são. Quando um médico diz que ‘fez’ o parto de uma mulher realmente ele ‘fez’. Ele foi lá, interferiu, fez as coisas andarem como ele desejou e não como a natureza quis que fosse. Ao se colocar como um ser observador, ele deixa que as coisas fluam por si só. E suas palavras irão refletir seus atos… “eu assisti a um parto” “eu acompanhei”. Quando as parturientes ouvem “mãezinha” daqui, “mãezinha” dali, acredito que a coloca numa posição de pessoa frágil, indefesa. E, no momento do parto, a última coisa que uma mulher pode ser é exatamente isso, indefesa. Ela está ali lutando para suportar suas dores, suas ondas de contrações intermináveis, que lhe trarão mais força, mais garra, mais vida. Nesse momento ela é um mulherão, que é capaz de gerar e trazer ao mundo mais uma vida. É assim que ela deve ser vista e não cuidadosamente chamada por qualquer coisa que a torne um ser frágil. Pelo menos eu acredito que assim deveria ser.