O movimento de humanização do parto no Brasil


marcha do parto em casa

Sim, a maioria das mulheres que tem seus partos domiciliares planejados são brancas e de classe média. As pobres e negras, são sim minoria dentro da pequena e quase insignificante população de mulheres que optam por um parto domiciliar no Brasil.

A população de mulheres que deseja ter um parto humanizado ou domiciliar no Brasil é tão pequena que não poderia sequer ser considerada um recorte. Mas OK. Vamos fazer um recorte. Sim, as negras e pobres são a minoria da minoria dentro dessa população. Assim como crianças negras nas escolas particulares, na natação, no balet. Assim como mulheres negras em cargos de chefia também são. Portanto, não é apenas o movimento que é branco e elitista.

Que tal então olhar por um outro lado?

1) Assim como estou fazendo minha parte apesar de ser branca e de classe média, muitas mulheres estão. Embora exista mulheres que tem seus partos com respeito e ponto final, para a maioria das mulheres é muito dificil viver uma experiência positiva de parto (ou de violência obstétrica) e ficar alheia ao que acontece. Eu vejo mulheres promovendo pequenas mudanças em seu entorno, assim como eu. Fui pra Brasilia com as milhas de outra ativista branca e de classe média. Fui e vou pra SP no congresso junto a outras dezenas de ativistas brancas e de classe média. Organizo grupos de apoio gratuitos, dou palestras voluntárias em comunidades, dei aula em curso de doula comunitária de forma voluntaria em minha cidade. Participo do conselho municipal de saúde quando a pauta é parto no SUS, aliás sou usuária do SUS e fui transferida pro SUS após meu parto domiciliar pago com vakinha na internet. Reconheço que consegui arrecadar dinheiro com a vakinha por ser uma mulher com nivel universitário, branca, de classe média que ficou conhecida por saber escrever e escrever no Blog Mulheres Empoderadas (mesmo eu tendo estudado a vida toda em escola pública cheia de problemas mas que ainda sim tive mais oportunidades por ter uma familia estruturada e de classe média).

2) Não existe mudança sem demanda!! Como acontece a demanda? Quando as mulheres percebem que elas também tem direito a ter um parto com respeito tanto quanto a artista famosa, ou a vizinha que trabalha em uma empresa que disponibiliza para seus funcionários um plano de saúde que dá direito a reembolso. Por esta lógica, quanto mais mulheres classe média e alta tiverem seus partos respeitados, maior será a demanda das mulheres de classe baixa porque elas passarão a refletir sobre o conceito de que PN não é “coisa de pobre”. E só elas, pela demanda é que provocarão mudança no SUS.  Enquanto as mulheres que tem plano de saúde continuarem tendo cesárea  limpinha e agendada, as mulheres do SUS continuarão desejando uma cesárea limpinha e agendada. Portanto, eu reconheço que o movimento é elitista, porém eu não vejo isso como um problema, neste momento, pois o nosso maior problema hoje não é o movimento (micro) ser elitista e sim a epidemia de cesáreas no país.

3) Vejo em várias cidades ações que tem provocado mudanças no sistema público. Em minha cidade começamos um movimento há 2 anos de elaboração e entrega de plano de parto nos hospitais públicos por mulheres que inclusive planejam um parto domiciliar. Esse movimento fez com que as equipes dos hospitais olhassem para essas mulheres. Não puderam mais ignorar. Começaram a fazer reuniões para entender a demanda que vinha das mulheres. Hoje, em um dos principais hospitais-escola da cidade, todos sabem o que é um plano de parto e que fazer e entregar o plano de parto é direito da parturiente. A maioria das mulheres que constroi um plano de parto tem conseguido pequenas conquistas em seus partos. E isso não é pouco. Garantir que o bebê fique com elas foi uma das mudanças. As mulheres que participam do grupo virutal no facebook contam que conseguiram evitar episiotomia. E isso não é pouco.  E isso é trabalho de formiguinha de pessoas do movimento.

4) Informação é o caminho. Não haverá mudanças se as mulheres não se informarem. Eu participo de todos os convites que recebo para palestrar sobre humanização do parto e violência obstétrica. E fico particularmente feliz quando esse convite vem de uma comunidade carente. Porque eu não posso chegar na periferia e impor minha presença e minhas verdades. Mas eu posso ir sim, a convite de quem já está na periferia falar sobre o assunto.  Pois eu sei que informação  é o caminho. De NADA adianta ter doulas voluntárias para atender as mulheres carentes se elas não conhecem os benefícios de ter uma doula. Precisamos falar sobre violência institucional, precisamos mostrar que elas podem ter um parto diferente. Que não existe apenas o parto violento que é forçado até o ulitmo no SUS e a cesárea agendada no convenio. Ahhhhhhhhhh! mas a passeata foi na Av Paulista, e o manifesto foi em frente ao hospital mais chique de SP. OK. Foi. E você acha que teria imprensa se a passeata fosse num bairro X? Teve imprensa, mais gente teve acesso à informação. Precisa olhar o contexto todo e parar de criticar sem fundamentos.

5) Escrever num blog que o movimento é elitista é fácil. Muito fácil, até porque é verdade. Fazer parte do movimento elitista é dificil. Porque precisa sair de traz da tela e trabalhar. Quem está chegando agora (!!!) no movimento e fica apenas atrás da tela realmente pode ter a percepção de que não há nada sendo feito para políticas públicas. Convido vocês a se envolverem de verdade no movimento e verão que o   movimento é feito de muitos tipos de pessoas, inclusive as mulheres brancas de elite que lutam pelos seus próprios partos.

Apontar o dedo para quem faz, dentro de suas possibilidades, algo para mudar a realidade obstétrica de todas as mulheres dizendo que o movimento é branco e elitista, não traz melhoria para a assistência das mulheres. Esculhambar o movimento, faz com que ele se enfraqueça. Um movimento que ainda é pequeno e jovem precisa de força, de engajamento, de credibilidade. Precisa de mulheres unidas, que ao identificarem uma lacuna dentro do movimento, arregacem as mangas e convide outras mulheres a se unirem para preencher essa lacuna. Apontar problemas sem propor soluções e executa-las para minimizar os problemas é TÃO humano que nem deveria ter me motivado a escrever esse texto. Mas sentei e escrevi, porque as pessoas precisam entender que nossa luta não é contra o movimento, não é contra mulheres, não é contra os médicos. Nossa luta é contra o modelo hegemônico que industrializa o parto e nascimento e engorda as estatísticas de morte materna e neonatal e as estatísticas de mães e bebês em UTI’s pelo excesso de cesáreas e intervenções desnecessárias.


sobre Gisele Leal

Sou Bióloga, formada pela Puc Campinas em 1997. Minha primeira filha, Beatriz, nasceu em 1998, e m 2007 nasceu o Arthur ambos de prováveis cesáreas desnecessárias. Em 2010 me vi grávida novamente, e inconformada com a notícia de que teria que agendar minha cesárea. Busquei informações, me preparei, me empoderei e assim, nasceu Catharina de um parto natural maravilhoso após 2 cesáreas, após 42 horas de bolsa rota e com parteira e doula num hospital em São Paulo. A experiência do parto mudou minha vida. Em apenas um mês do nascimento da Catharina escrevi um livro e publiquei o blog Mulheres Empoderadas. Menos de um ano após, larguei carreira de 14 anos na indústria onde eu atuava como gerente de qualidade, e vivia dividida entre as pontes aéreas e viagens internacionais e minha família. Então me capacitei como Doula pela ANDO – Associação Nacional de Doulas em abril de 2011, embora já acompanhasse eventualmente a gestação e parto de amigas e primas desde Outubro/2010, tamanha era a minha vontade de estar nesse meio. Ainda em 2011, inconformada com o modelo de assistência obstétrica no nosso país, reuni doulas, parteiras, mães e simpatizantes do movimento de humanização e juntas fundamos o MAHPS – Movimento de Apoio á Humanização do Parto em Sorocaba, elaborei o projeto Doula Social para ser implementado no SUS e comecei a atuar voluntariamente em um hospital público de Sorocaba. Em apenas 14 meses de MAHPS, idealizei e coordenei a organização de 2 encontros voltados à Humanização do Parto e Nascimento e um Encontro Nacional de Parteria Urbana, além de mais de 22 encontros do grupo de apoio à gestantes. Em 2012 fiz o curso de Formação em Parto Ativo com a Janet Balaskas, inglesa, precursora do conceito Parto Ativo e ingressei no curso de Obstetrícia da USP. Em julho de 2013 nasceu a Sophia, em casa nas mãos do pai, cercada pelos irmãos. Diferente da história da Catharina que foi uma história de empoderamento e superação, o parto de Sophia foi uma história de entrega, fé e aceitação.

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