Obstetra, pra que te quero?


Doctor with pregnant woman    De vez em quando, uma leitora do blog ou da fanpage do blog me envia um print de páginas que levantam uma verdadeira guerra ao parto normal, onde eu e outras ativistas somos citadas em tom de deboche (quanta honra!).

     E a curiosidade matou o gato, ja dizia o ditado. Vou até a página e há muitas informações falsas. Tenho a impressão de que muitos prints que a “autora” da página coloca também são falsos visto que são recortados (ou seja, ela diz que viu tamanha baboseira em página de ativista, mas como é recortado pode ser ela mesma quem tenha postado e recortado para usar em sua página apenas para incitar o ódio e causar polêmica).

     Mas nem foi por isso que comecei a escrever este post.

    Comecei a escrever porque, muitas vezes, os comentários que vejo nesses posts (especialmente quando são sobre parto em casa) é de médicos dizendo:

     – Esperam dar o problema depois corre pro médico!!!

     – Ficam aí insistindo no parto normal (ou parto domiciliar) e depois o médico é quem tem que resolver!

     – Quer ter paro em casa, então que morra em casa em vez de procurar um médico!

     E outras pérolas como essas…

     Bom amiguinhos. O que eu quero saber é: Pra que serve um obstetra se não for pra resolver problemas?

    O Brasil é um dos poucos países que tem a atenção obstétrica toda centrada no médico obstetra. Países que tem bons indicadores obstétricos (baixa morbidade materna-fetal, pouco tempo de internação, baixo índice de interação em UTI, etc) tem a atenção obstétrica centrada na midwife (parteira – aqui no Brasil obstetriz ou enfermeira obstétrica).

    Nesses países, que inclusive incentivam o parto domiciliar e subsidiam o parto domiciliar para gestantes de baixo risco os médicos são sim acionados apenas quando há intercorrências ou quando a gestação passa a ser de alto risco*.

    Parteiras (enfermeiras obstétricas e obstetrizes) são capacitadas para atenderem partos de baixo risco e para prestarem os primeiros socorros em caso de intercorrência. Sabem estabilizar uma situação adversa (bebê que nasceu com apgar baixo ou hemorragia materna por exemplo)  até que mãe e/ou bebê sejam transferidos em segurança para o hospital (que é o local que, pasmem!, deve atender emergências.

     Então queridos obstetras, pra que as mulheres informadas te querem?

     – Para atender pré-natal de alto risco

     – Para pedir exames específicos

     – Para atender partos hospitalares (visto que no Brasil parteiras não podem internar uma gestante) QUANDO e SE a gestante, mesmo de risco habitual, optar por parto hospitalar – e de preferência aqui, com equipe multidisciplinar que aumenta as chances dessa gestante ter um parto normal com o menor número de intervenções.

     – Para receber trasnferência de parto domiciliar que precisa de intervenção ou cuidado específico que não pode/deve ser prestado em casa.

     Ahhh e parto domiciliar? Médico não deve atender parto domiciliar?

    Essa é uma polêmica que é fomentada pelos conselhos de classe. A mulher tem o direito (deveria ter na verdade) de escolher onde quer ter seu bebê e quem é o profissional que vai atende-la.

     Se os médicos que atendem parto domiciliar entenderem muito bem o seu papel, verão que lugar de médico é no hospital. E se você, médico, pratica a medicina baseada em evidências, e informar a mulher sobre a capacitação dos profissionais que atendem parto domiciliar, ela se sentirá segura em ter uma equipe de parteiras e ter você como backup em caso de trasnferência.

     Então, deixo aqui um convite para uma reflexão:

    Será que uma mulher que só se sente segura com um médico atendendo o parto domiciliar, está realmente informada, ciente e preparada para um parto domiciliar? Será que ela entendeu que você, o médico, não poderá fazer nada de diferente do que a parteira poderá fazer no domicílio? Será que ela entendeu que qualquer necessidade de intervenção deverá ser feita no hospital após transferência?

     Com tudo que listamos acima, vocês acham pouco para o médico?

     Sério?

     Esse é o verdadeiro papel do médico. Prestar assistência em caso de intercorrência. Em caso de urgência. Em qualquer especialidade.

     Especialmente na obstetrícia, que todos sabemos significa “estar ao lado”.

   Eu, particularmente, não compactuo com a idéia de que a “formação médica tem que mudar”. Obviamente a formação médica tem que acompanhar os avanços e as evidências científicas mais atualizadas (e isso não acontece, visto que ainda se usam livros super antigos nas universidades, ao invés de usarem artigos científicos). Um médico é (e tem que ser) formado e preparado para atender emergências. Precisa sim saber fazer uma cesárea muito bem feita no menor tempo possível. Locar um fórceps corretamente e rapidamente. Estabilizar e sulfatar uma gestante que está com hipertensão antes de decidir a via obstétrica. É pra isso que queremos os obstetras. Para serem os heróis quando necessário. Não queremos obstetras que tratem 100% das gestantes e parturientes como alto risco e portanto, que as tratem com todos os tipos de intervenção em um processo que é fisiológico e que vem se aperfeiçoando ha 195 mil anos. Ao invés disso, queremos obstetras que saiam de seus pedestais e trabalhem com equipes multidisciplinares (parteiras, doulas, fisioterapeutas, nutricionistas, terapeutas).

     E se você, se formou médico e não quer atender apenas emergências, sinto lhe dizer que está na profissão errada :)

     * Gestação de alto risco  – quando a gestação é acompanhada de patologia ou morbidade (pressão alta, diabete, cardiopatia, trombofilia, etc).


sobre Gisele Leal

Sou Bióloga, formada pela Puc Campinas em 1997. Minha primeira filha, Beatriz, nasceu em 1998, e m 2007 nasceu o Arthur ambos de prováveis cesáreas desnecessárias. Em 2010 me vi grávida novamente, e inconformada com a notícia de que teria que agendar minha cesárea. Busquei informações, me preparei, me empoderei e assim, nasceu Catharina de um parto natural maravilhoso após 2 cesáreas, após 42 horas de bolsa rota e com parteira e doula num hospital em São Paulo. A experiência do parto mudou minha vida. Em apenas um mês do nascimento da Catharina escrevi um livro e publiquei o blog Mulheres Empoderadas. Menos de um ano após, larguei carreira de 14 anos na indústria onde eu atuava como gerente de qualidade, e vivia dividida entre as pontes aéreas e viagens internacionais e minha família. Então me capacitei como Doula pela ANDO – Associação Nacional de Doulas em abril de 2011, embora já acompanhasse eventualmente a gestação e parto de amigas e primas desde Outubro/2010, tamanha era a minha vontade de estar nesse meio. Ainda em 2011, inconformada com o modelo de assistência obstétrica no nosso país, reuni doulas, parteiras, mães e simpatizantes do movimento de humanização e juntas fundamos o MAHPS – Movimento de Apoio á Humanização do Parto em Sorocaba, elaborei o projeto Doula Social para ser implementado no SUS e comecei a atuar voluntariamente em um hospital público de Sorocaba. Em apenas 14 meses de MAHPS, idealizei e coordenei a organização de 2 encontros voltados à Humanização do Parto e Nascimento e um Encontro Nacional de Parteria Urbana, além de mais de 22 encontros do grupo de apoio à gestantes. Em 2012 fiz o curso de Formação em Parto Ativo com a Janet Balaskas, inglesa, precursora do conceito Parto Ativo e ingressei no curso de Obstetrícia da USP. Em julho de 2013 nasceu a Sophia, em casa nas mãos do pai, cercada pelos irmãos. Diferente da história da Catharina que foi uma história de empoderamento e superação, o parto de Sophia foi uma história de entrega, fé e aceitação.

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