Perfil Ricardo Jones – Um obstetra humanizado 14


Como é bom saber que existem pessoas maravilhosas envolvidas na humanização do parto nos 4 cantos do Brasil! Existem parteiras, doulas, educadoras e obstetras realmente únicos que fazem a diferença na vida de muitas mulheres, casais e famílias.

Eu tive a sorte de contar com parteira e doula especiais na “vida real”. Mas houve vários amigos virtuais das listas de discussão, mães, doulas, parteiras e obstetras que foram tão importantes no meu processo de empoderamento quanto aqueles que participaram da minha “vida real”.

Já escrevi aqui e repito: O saldo positivo de toda luta para parir neste país foi conhecer pessoas que atuam na humanização do parto. Seja na vida real ou na virtual. Assim como várias mulheres que trilham este mesmo caminho, criei com eles uma relação de admiração e respeito.

 Neste caminho que trilhei, senti falta de algumas informações antes de chegar aos grupos de apoio e às listas de discussão. Quem procurar? Existem profissionais que apóiam um parto normal depois de 2 cesáreas? Perguntas como essas não tinham respostas após visitar dezenas de obstetras em busca de um parto digno.

Abro então, um espaço e divido com vocês um pouquinho desses encantadores ativistas pela humanização do parto, que doam seu tempo, que respondem emails de pessoas que nunca viram pessoalmente, que adicionam essas pessoas anônimas em suas redes de relacionamento e que participam de listas de discussão: I-N-C-O-N-D-I-C-I-O-N-A-L-M-E-N-T-E!

Pessoas como o Ricardo Herbert Jones, obstetra, ativista na humanização do parto em Porto Alegre.

Um pouquinho do Ric pra vocês!

Perfil Ric Jones

Nome: Ricardo Herbert Jones

Cidade: Porto Alegre

Fone: (51) 32283512

(51) 32266183

E-mail: rhjones@bol.com.br

Ric Jones, natural de Porto Alegre, casado com Zeza Jones (doula e parteira que também faz parte da equipe), pai do Lucas e da Bebel. No seu perfil do Facebook, se descreve como: “Sou um otimista praticante. Fiz um monte de coisas que me arrependo, mas deixei de fazer inúmeras pelas quais fico me remoendo de remorsos”. Autor do livro: “Memórias do homem de vidro” onde descreve a metamorfose pela qual passou para se tornar um obstetra humanizado. Conheça um pouquinho do Ricardo Jones, o nosso Ric.

Blog Mulheres Empoderadas (BME): Ric, como e quando você decidiu ser obstetra?

(RIC): Depois do nascimento dos meus filhos, dos quais tive a sorte de participar por ser estudante de medicina. O impacto do nascimento deles foi tão avassalador que resolvi me dedicar à atenção ao parto.

 

(BME): Para você, o que é ser um bom obstetra? Apenas a formação é suficiente?

(RIC): Para ser um bom obstetra é fundamental entender do que se trata a arte de tratar as múltiplas facetas do nascimento humano. Segundo Holly Richards, nascimento é um evento que conjuga, em um único momento, os elementos mais temidos pela sociedade: vida, morte e sexualidade. Desta forma, o obstetra é o personagem que estará acompanhando o mais intenso e significativo rito de passagem criado pela cultura, a partir de um processo milenar de adaptação ecológica. Mais do que acumular conhecimentos técnicos, é fundamental que o obstetra entenda os aspectos emocionais, psicológicos, espirituais e transcendentais envolvidos no parto. Sem este tipo de preparo, o nascimento torna-se um evento mecânico, despido de sua infinita significação e importância cultural. A formação de um obstetra, desta forma, será algo que extrapola os necessários conhecimentos técnicos, e implica em uma educação multidisciplinar e humanística, que envolve o conhecimento de áreas como a psicologia, a antropologia, a nutrição, a biologia e a ética.

 

(BME): Quando uma gestante te procura, quais são os pontos que você aborda na 1ª consulta?

(RIC): A pergunta mais importante é como ela enxerga, de uma maneira integrativa e global, o nascimento de seu bebê. Nós inicialmente questionamos qual a sua experiência pregressa com partos, quais seus medos e fantasias, quais seus objetivos, qual a sua “lenda de parto” (a história que lhe foi contada sobre seu próprio nascimento) e quais as expectativas, temores, idéias e propostas de seu companheiro, quando houver. Depois disso conversamos sobre suas opções e mostramos que tipo de trabalho realizamos. Explicamos nossa opção pelo trabalho interdisciplinar, com presença de doulas, obstetra e parteira trabalhando colaborativamente e em horizontalidade. Damos especial ênfase para a escolha do local de nascimento, desde que existam condições clínicas para tal. A utilização de vídeos é essencial para criar um vínculo entre o que acreditamos e o que efetivamente fazemos para apoiar a gestante em suas escolhas.

 

(BME): Então durante o pré-natal você usa vídeos e conversas para trabalhar os medos, incertezas e inseguranças da gestante?   Quem mais da sua equipe participa das consultas de pré-natal? Qual o papel de cada um?

(RIC): As consultas de pré-natal têm a duração mínima de 60 minutos, sendo que 50 minutos são destinados a uma conversa franca e aberta com o obstetra e a parteira, e os restantes 10 minutos para a avaliação médica necessária (peso, pressão, medidas, avaliação laboratorial, etc.). A doula é acrescentada a este grupo nas consultas do último mês, para que o vínculo se estabeleça de forma mais intensa. Também são convidados familiares e outros amigos que porventura tenham sido convidados pelo casal a participar do parto. Cada membro da equipe explica suas ações e funções durante o nascimento, enfatizando seus critérios, suas características e seus limites. Durante o tempo em que a conversa se desenvolve o casal é estimulado a dar sua opinião e manifestar suas dúvidas. O objetivo é que nenhuma dúvida importante chegue até o momento do parto sem ter sido respondida. A função dos vídeos é mostrar a ação da equipe no “mundo real”, objetivando deixar o casal mais seguro do que os espera no momento do nascimento.

(BME): Em que momento do trabalho de parto e parto você atua? Sua atuação varia de parturiente para parturiente?

(RIC): Somente atuo quando alguma coisa foge do normal e a minha experiência de 28 anos atendendo partos possa ser de auxílio à parteira, ou quando chegamos à conclusão de que a intervenção é essencial e minha capacitação como cirurgião é mandatória. Caso contrário, permito que o parto flua dentro da fisiologia natural e que a parteira mantenha-se à frente do processo.

 

(BME): Você aceita realizar cesáreas eletivas? Porque?

(RIC): Não. Minha idéia é de que existe excesso de profissionais nesta comunidade que aceitam este tipo de trabalho, e ele não precisa ser feito por um ativista da humanização que não aceita este tipo de intervenção injustificada.

 

(BME): Você se considera um “parteiro”?

(RIC): De certa forma, sim. Entretanto, eu me considero um ativista da humanização que dá apoio ao atendimento interdisciplinar, oferecendo suporte técnico para as intervenções necessárias para a segurança do evento, e que acredita que a atenção ao parto deve priorizar a fisiologia e o trabalho de profissionais especializados no parto normal, e não em cirurgiões focados na patologia e na intervenção.

 

(BME): O que é imprescindível para o sucesso de um parto domiciliar?

(RIC): Para o parto domiciliar existe uma sér5e de questões fundamentais, que devem ser abordadas desde a primeira consulta. Para que um parto domiciliar possa acontecer ele precisa ser, primeiramente, planejado. Em segundo lugar, ele deve obedecer certas exigência, que podem variar entre os profissionais, mas dificilmente fugirão de certos princípios básicos

1-     Contato livre e fácil com a equipe de assistência durante o período pré-natal;

2-     Ausência de qualquer patologia significativa na gestação ou anterior a ela;

3-     Equipe capacitada, experiente e com equipamento adequado;

4-     Planos alternativos (parto hospitalar, parto instrumental, cesariana);

5-     Conhecimento de rotas de acesso ao hospital;

6-     Equipe de suporte de sobreaviso (anestesista, auxiliar cirúrgico, pediatra);

7-     Apoio incondicional do parceiro sobre as escolhas da gestante;

8-     Postura positiva e confiante, sem jamais descuidar de eventuais problemas.

 

(BME): Você ainda sente preconceito quando fala sobre partos domiciliares? Na sua opinião, porque isso acontece?

(RIC): Uma mistura de desconhecimento dos profissionais, interesses econômicos envolvidos e o milenar preconceito contra as mulheres. Uma mulher parindo em liberdade e sem o controle rígido e opressor do sistema médico é algo ameaçante ao sistema dominante na cultura. Desta forma, muitos esforços são feitos no sentido de desmerecer tais capacidades, e de reforçar a dependência feminina da tecnologia e da autoridade exagerada dos profissionais que controlam o nascimento humano. Nos dias atuais o que governa o parto é o sentimento de medo, ao invés da confiança.

 

(BME): Como você vê o movimento pela humanização do parto? Você acredita que o movimento está ganhando espaço?

(RIC): Basta olhar onde estávamos há 24 anos, quando comecei a trabalhar com partos humanizados, para ver o progresso que atingimos. Evidentemente existe muito a fazer, porque o nível de violência institucional praticada em hospitais ainda é assustador, mas já avançamos bastante nas conquistas por um parto mais digno e respeitoso. Ao contrário do que acontecia há apenas 10 anos, temos hoje uma legião de mulheres no Brasil quer tiveram seus partos em casa, no aconchego do lar e com a presença da família, e que são testemunhas vivas da possibilidade de que um “outro nascimento” é possível, basta que queiramos. A lei do acompanhante e as discussões recentes sobre as agressões sofridas por mulheres em hospitais vão colocar o debate sobre a humanização do nascimento na ordem do dia, e teremos hospitais muito mais humanos e respeitosos no futuro.

 

(BME): Como é trabalhar com a doulas? Você trabalha apenas com a Zeza ou trabalha com outras Doulas também?

(RIC): Zeza é doula, mas na nossa equipe trabalha como parteira profissional. Trabalhamos sempre com doulas, porque nos auxilia muito. A presença da doula é um grande diferencial do nosso trabalho. Hoje em dia trabalhamos com um grupo de seis doulas na cidade, mas um número maior seria adequado. Orientamos os casais da importância de ter uma doula de livre escolha da mulher para que os níveis de apagamento neocortical sejam atingidos e ela consiga “mergulhar” no oceano de ocitocina. Este mergulho lhe permitirá acessar a “partolândia”, que lhe oferecerá as condições ótimas para um trabalho de parto tranqüilo e efetivo.

 

(BME): Já partejou fora da sua cidade/estado? Como foi a experiência?

(RIC): Eu já atendi partos em cidades como São Paulo e Temixco, no México, mas foram exceções, decorrentes de trabalhos que estava realizando nestas cidades. Temos uma regra geral sobre os nascimentos distantes: atendemos pacientes num raio de 3h de automóvel. Mais do que isso o risco se torna maior do que os benefícios. Temos uma boa experiência de partos nas cidades ao redor de Porto Alegre, mas estes partos necessitam de um nível muito maior de debate sobre planos alternativos, hospitais próximos, rota de acesso ao hospital, liberação por parte do diretor médico, etc.

 

(BME): Você trabalha com pediatras neo-natais em PD? Quais considerações?

(RIC): Não acredito que um pediatra seja fundamental para o atendimento ao parto normal sem intercorrências, desde que os profissionais envolvidos tenham experiência na atenção ao RN em partos de baixo risco e em manobras de ressuscitação. Entretanto, os pediatras “humanizados” seriam sempre bem vindos, desde que houvesse interesse por parte deles. Infelizmente em minha cidade não há nenhum profissional interessado em oferecer suporte ao parto domiciliar. Talvez no futuro, quando os preconceitos forem amainados pela torrente de experiências positivas e pela consolidação das pesquisas, estes colegas queiram participar deste evento.

 

(BME): O que você tem a dizer para aquelas mulheres que desejam um parto domiciliar mas ainda não tem certeza se é seguro?

(RIC): Procurem informação de qualidade sobre os riscos relativos de parto de baixo risco em casa e nos hospitais. Freqüentem grupos de discussão na Internet sobre o tema. Encontrem grupos de mulheres para encontros ao vivo (como o Ishtar no Rio, Nascer Sorrindo em Porto Alegre, Bem Nascer em BH) e conversem demoradamente com o seu obstetra e/ou parteira sobre as reais possibilidades de ter um parto em casa. O único antídoto contra o preconceito é a informação.


sobre Gisele Leal

Sou Bióloga, formada pela Puc Campinas em 1997. Minha primeira filha, Beatriz, nasceu em 1998, e m 2007 nasceu o Arthur ambos de prováveis cesáreas desnecessárias. Em 2010 me vi grávida novamente, e inconformada com a notícia de que teria que agendar minha cesárea. Busquei informações, me preparei, me empoderei e assim, nasceu Catharina de um parto natural maravilhoso após 2 cesáreas, após 42 horas de bolsa rota e com parteira e doula num hospital em São Paulo. A experiência do parto mudou minha vida. Em apenas um mês do nascimento da Catharina escrevi um livro e publiquei o blog Mulheres Empoderadas. Menos de um ano após, larguei carreira de 14 anos na indústria onde eu atuava como gerente de qualidade, e vivia dividida entre as pontes aéreas e viagens internacionais e minha família. Então me capacitei como Doula pela ANDO – Associação Nacional de Doulas em abril de 2011, embora já acompanhasse eventualmente a gestação e parto de amigas e primas desde Outubro/2010, tamanha era a minha vontade de estar nesse meio. Ainda em 2011, inconformada com o modelo de assistência obstétrica no nosso país, reuni doulas, parteiras, mães e simpatizantes do movimento de humanização e juntas fundamos o MAHPS – Movimento de Apoio á Humanização do Parto em Sorocaba, elaborei o projeto Doula Social para ser implementado no SUS e comecei a atuar voluntariamente em um hospital público de Sorocaba. Em apenas 14 meses de MAHPS, idealizei e coordenei a organização de 2 encontros voltados à Humanização do Parto e Nascimento e um Encontro Nacional de Parteria Urbana, além de mais de 22 encontros do grupo de apoio à gestantes. Em 2012 fiz o curso de Formação em Parto Ativo com a Janet Balaskas, inglesa, precursora do conceito Parto Ativo e ingressei no curso de Obstetrícia da USP. Em julho de 2013 nasceu a Sophia, em casa nas mãos do pai, cercada pelos irmãos. Diferente da história da Catharina que foi uma história de empoderamento e superação, o parto de Sophia foi uma história de entrega, fé e aceitação.


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