Relato de parto domiciliar após duas cesáreas – Gisele e Sophia 4


(Parte I)

Gisele Piscina

Poderia começar este relato contando sobre os pródomos  intermináveis que dessa vez duraram mais do que 6 semanas. Poderia  começar contando sobre a decisão de não saber o sexo. Ou poderia começar contando sobre meu momento de vida.

Não é segredo pra ninguém o quanto um bebê quatro foi desejado. Tanto que nem foi tanta surpresa quando anunciei. Foi comemoração por parte de muitos, e crítica por parte de alguns. Algumas críticas veladas (principalmente por parte da família que se afastou). Sim, não sou ingênua. Não acredito em compromissos  intermináveis de trabalho que não permitiram em nove meses uma visita sequer.

Mas o fato é que essa gestação foi mais do que desejada. Foi combinada. Combinada: “A partir de janeiro tentamos um novo bebê”. Era outubro. Atravessávamos uma fase financeira difícil e o meu companheiro acreditava que a partir de janeiro estaríamos mais estáveis. Bebê 4 resolveu vir em outubro mesmo. Afinal já havíamos aceitado sua vinda, que assim seja!

Decidi e comuniquei a todos em casa que não saberia  o sexo. Já havia tentado fazer isso antes, mas cedi à  pressão do Cesar e da Beatriz. Portanto faria  o mínimo de ultrassons. Aliás, o pré-natal seria pelo SUS e algumas consultas com a  parteira. Escolhi a mesma parteira que havia assistido o parto da Catharina, por um motivo mais do que óbvio. O vínculo. Pra mim equipe de parto tem que ter vínculo. Tem que ter mais do que uma simples equipe. Tem que  ter carinho, entrega, cumplicidade.

Demorei a fazer a primeira consulta com a parteira. Fazia algum tempo que não nos víamos, e no primeiro mês de gravidez eu dormia 20 hs por dia qdo não estava na USP. Mesmo lá eu dormia boa parte das aulas. Comer e dormir me rendeu 4kg a mais na balança. Não queria levar uma bronca logo de cara…. Engravidei mega acima  do peso, e ainda engordei 4kg no primeiro mês! “onde eu vou parar desse jeito????”. Conversei com algumas amigas que me tranqüilizaram: “Calma Gi, nessa fase a gente só dorme mesmo, é normal. Depois vc regula! Take it easy girl!”. A Jé Bonizzi me passou uma dieta que ela fez qdo engravidou. Perdeu 16 kg em 9 meses e qdo a Tina nasceu estava 16kg mais leve! Uai! Se ela conseguiu também consigo! Não tinha como meta emagrecer os 16kg, mas manter um peso que me permitisse ter mobilidade e disposição para chegar até as 42 semanas se fosse necessário e parir.

Me bateu um desespero. Mãe de 4! Será que dou conta? Conversei muito com a Larissa Hernandes, que tem 5! A Larissa foi minha confidente em diversos momentos dessa gestação.

Não tinha nos meus planos iniciais a presença de um pediatra no meu parto, mas aos poucos, uma amiga querida, que foi minha inspiração para buscar meu primeiro VBA2C (parto normal após 2 cesáreas) foi entrando na história. Fazia todo sentido aquela que tinha me incentivado tanto a conseguir meu primeiro  VBA2C estar no meu parto domiciliar. Mas eu gostava taaaaaaaaaanto da pediatra que tinha estado no parto da Cacá…. foi bem difícil decidir. Mas novamente decidi pela questão do vínculo.

Equipe formada, chegou janeiro, passou janeiro, e nada da tal melhora financeira. Como vou pagar meu parto? Eu tinha esperança de receber o imposto de renda retido, mas fui parar na malha e adeus. E agora? Bom, ainda há tempo, vamos  esperar, tentar guardar o dinheiro das doulagens para pagar o parto.

Mas o dinheiro que ganhei com as doulagens, foi pra colocar comida na mesa. Pagar contas básicas. A coisa estava feia pro nosso lado. Contas acumulando…. ninguém merece passar uma gestação com tanta tensão. Chega a hora de nos mudarmos para Campinas, retornarmos à nossa cidade natal. Mas com que dinheiro? O universo conspirou e conseguimos nos mudar. Sofri, chorei. Deixar 9 anos de muita realização e construção em Sorocaba, família que cresceu e fortaleceu, a nossa casa, nosso jardim, nossa primavera. O quintal onde nossos filhos cresceram, correram pelados, dançaram na chuva. Como chorei. Mas precisava desapegar, não estávamos  conseguindo progredir ali. E há 9 anos, o Cesar havia apoiado minha mudança de Campinas pra Sorocaba devido a um convite profissional. Essa era minha vez de apoia-lo.

Decidi então trancar a USP…. outra grande dor. Mas não tinha condições financeiras de ir  pra USP todo dia, e nem físicas. Toda essa carga emocional me fez vomitar as 3 refeições até a 25ª. semana de gestação. Eu que nunca havia “passado mal” em nenhuma gestação, que adorava dizer que “adorava ficar grávida” passando uma gravidez de cão, vomitando, sem energia. “OK, mas logo passa, não vou vomitar a gravidez inteira”, pensava.

Realmente. Com 25 semanas nos mudamos pra Campinas e magicamente parei de vomitar. Uma semana maravilhosa, sem nenhum sintoma desagradável. Nem parecia que eu estava grávida. UMA SEMANA. No final da 25ª semana, levei um escorregão no consultório onde eu atendia em Sorocaba, e desde então comecei a ter dores horríveis na virília, púbis, lombar e sacro. “OK, foi só um escorregão. Vai passar”. Acupuntura que tal? Maravilha, melhorou muito. Até a próxima doulagem. Cada doulagem que eu fazia, no dia seguinte eu não conseguia andar. Quem é mesmo que “adorava estar grávida”. Eu não agüentava mais. Não tinha mais posição pra dormir, e olha que  o 3º trimestre nem havia  começado.

Passei com a obstetra backup em Campinas. Estava com 29 semanas. Conversamos muito. Bom, e aí? Como vou ter uma obstetra humanizada de backup se eu não tenho convenio médico para me internar num hospital em que ela possa me atender? Pagar pela internação? Fora de cogitação. Foi nessa consulta, e junto com ela, que decidimos que meu plano B infelizmente não continha um parto hospitalar humanizado. Meu plano B era o SUS mesmo. Ou eu paria em casa, ou iria pro SUS. Me submeter a uma assistência desumana ou até mesmo a uma cesárea, afinal de contas duas cesáreas anteriores, nenhum doutor ia  arriscar a me deixar parir. Comecei a panicar. Ô vida ingrata. Quarta gestação. Tudo o que eu queria era um mar de rosas, uma gestação cercada de paz, tipo Alice no país das maravilhas. Será que eu não ia ter nunca uma gestação assim?

A Patricia Damico, a primeira mulher que doulei particular e que virou uma grande amiga, abriu uma Vakinha pra ajudar a receber doações para pagar o parto. Muitas amigas  ativistas doaram produtos para rifar e conseguirmos juntar dinheiro pra pagar o parto. Senti muito apoio das amigas do movimento. E só tenho a agradecer. Gratidão.

O blog Mulheres Empoderadas foi premiado em 2º lugar no premio top blog. Depois foi convidado para integrar o maior portal de maternidade ativa: O Vila Mamífera. Queria tanto ter escrito mais, mas tive vários períodos de introspecção total nessa gestação, o que me trazia vários temas em mente pra desenvolver, mas sem nenhuma vontade de colocar no papel. Escrevi sobre parto desassistido e sobre parto de lótus. Dois temas que mexem demais comigo e com várias outras grávidas e que tinham tudo a ver com essa gestação. Parto de lótus era algo que me fazia perder noites de sono J.

A obstetra me recomendou usar uma faixa pra ajudar nessas dores pélvicas. Acabei não comprando nenhuma. Falta de grana, falta de acreditar que a faixa realmente ajudaria. Fui na parteira, mais acupuntura. Me recomendou exercitar 5x na semana. Como eu ia me exercitar com esse peso todo? Ok não tinha engordado mais quase nada até então, mas e aí? Acho que já  estava com uns 95kg. Como alguém com quase 100 kg vai se exercitar? Bora tentar natação. Sempre me dei muito bem com água. Liguei no SESC, no SESI pra ver valores. Afinal a grana estava curta. Curta não, inexistente. Não rolava. Só tinha 2x por semana. Pra fazer 5x eu tinha que pagar 2 atividades diferentes. Arrumei uma academia de natação por um valor bem bacana. A Magê, uma das minhas doulas, me incentivou demais. Além de doula ela é personal trainer, e foi muito bom ter o apoio de alguém que manja muito de exercícios.

Eu achava que não conseguiria atravessar uma vez a piscina…. mas fui tentar a aula experimental. Ahhhh se arrependimento matasse….. Porque não comecei antes???? Aguentei a aula inteira, me senti leve dentro d’água. Saí extremamente bem disposta e relaxada. Porque não comecei antes?? Porqueeeeeeee??? Grávidas! Nadem!!! Nadem!!! Nadei até 40 semanas! Foi muito bom!

Para não dar sorte pro azar, mudei radicalmente minha alimentação. Tirei totalmente carne vermelha, embutidos, frios, sal e investi nos integrais, proteínas vegetais e carne branca. Tudo o que eu não precisava era de um diagnóstico que me tornasse “não elegível” ao parto domiciliar. Isto não estava nos meus planos.  Valeu a pena a mudança na alimentação e a natação. Minha cabeça mudou também. Senti que não bastava eu estar empoderada para o parto. Eu tinha que me sentir bem. E a verdade é que toda aquela dor que eu tinha na pelve me fazia sentir doente. Eu tinha que me sentir bem, disposta e capaz. Quando percebi que eu podia nadar, algo mudou dentro de mim.

Foram semanas em que conversei muito com minhas doulas. As doulas  que eu escolhi, também fazem obstetrícia na minha sala e temos  uma afinidade absurda. As escolhi pelo vínculo que temos e por nossas diferenças nos completarem. Elas são da Capital, achei que poderiam nem chegar para o parto. Mas eram elas que tinham que estar comigo nessa empreitada. Sempre me apoiaram muito, fizemos altas terapia em grupo. Um dia a Lu me disse: “Gisele. Não pressione a si mesma. Vc não tem que ter um PD. Vc vai ter o parto que vc tiver que ter, e vai ser a sua experiência, e vai ser linda. O PD é o que vc idealiza, mas não quer dizer que ele vai acontecer. Vc fez as melhores escolhas, agora relaxa. Tire essa pressão de cima de vc mesma!!!”. Quando tomei consciência disso aceitei que a história poderia ser diferente do que eu planejava, do que eu desejava. Conversei muito com o Cesar e com a Bia sobre isso. Sobre coisas que poderiam acontecer, e que precisávamos estar preparados para tudo. Eu mais do que eles. E que não era o local do parto que mudaria o desfecho se algo tivesse que acontecer.

Mil imprevistos aconteceram e depois das 35 semanas não fiz mais nenhuma consulta com as parteiras.

Acompanhamos mais um PD juntas, após esse PD uma das parteiras veio em casa aproveitou e fez o pré-natal e prossegui com o pré-natal no posto de saúde. Alguns exames de 3º trimestre foram solicitados, peso, pressão, tudo OK. Aliás das 35 semanas até as 40 semanas não engordei uma só grama. Perdi inclusive um pouco de peso.

Junto com a natação, minha amiga Tonia que é osteopata, me deu a dica para entrar para um programa de osteopatia no hospital  Ouro Verde (SUS). Aliás, não só  a dica. Conversou com um dos professores de lá. Liguei e consegui ser incluída no programa. Osteopatia e natação me trouxeram muito alívio para as dores pélvicas. Não vou dizer que tiraram 100% mas me deram muita mobilidade, muita disposição, e as dores praticamente não me limitavam mais. Comecei a cuidar da casa melhor, das crianças, voltei a dirigir. Enfim, tive um final de gestação muito bom! Tanto que nem estava assim com tanta pressa em parir..rs

Quando completei 39 semanas, a minha amiga de barriga Carolina Darcie pariu! Estávamos com a mesma idade gestacional e trocamos figurinhas durante toda a gravidez. Foi muito legal ter uma amiga de barriga para conversar. Fiquei muito feliz pelo partaço da Carol, que resolveu nos 45 do segundo tempo que teria um PD. E com a mesma equipe que eu. A mulher lá, com 8cm e me mandando mensagem. E eu doulando à distância..hehe.

Depois que Carol pariu, comecei a desejar que meu parto acontecesse. Não queria chegar à 41 semanas novamente. Ciclos gravídicos são como ciclos menstruais. E eu tinha tido um ciclo gravídico longo na última gestação (41s e 1d) mas o capurro da Catharina havia sido 39+4. Então comecei a desejar que esses ciclos gravídicos fossem sobre o capurro e não sobre a idade gestacional.

No domingo, véspera de eu completar 40 semanas, perguntei pra Bia se ela podia ficar com os  irmãos para que eu saísse um pouco com o Cesar. Disse à ela: Hoje é a ultima vez que eu saio com a barriga. Ela deu risada e disse que sim. Que não tivéssemos pressa em voltar. Fomos ao shopping assistir um filme. Não tinha nada que prestasse passando (nada que eu gostasse) mas o Cesar pirou ao ver que o homem de aço estava em cartaz. Vamos lá né? O que vale é o passeio e o homem de aço desta versão é lindo. Então no máximo eu ia ficar babando no garotão. Que horror de filme…. um filme barulhento até não poder mais. O BB ficou super agitado na barriga de tanto barulho. Saí diversas vezes, fui ao banheiro, tomar ar. Péssimo. Até o Cesar que adora esse tipo de filme detestou haha.  Mas valeu o passeio. Saimos tarde do shopping, não tinha mais nada aberto pra comer, e eu verde de fome. Fomos ao Giovanetti do centro, e eu já  imaginando comer uma salada com toda a fome que eu estava. Acabei  ganhando um lanche mega light, sem sal, cheio de folhas de todos os tons de verde. Caprichei no azeite e no limão. Baladinha com marido, às vésperas de completar 40 semanas era tudo o que eu precisava. Queria chegar em casa e namorar…ô coisa boa. Namorar. Aproveitar, porque logo BB resolve sair e  vai rolar um período sem namoro.

Chegamos em casa era mais de 23:30. Crianças ainda acordadas. Pilhadas. Eu incomodadíssima porque não conseguia fazer xixi. Fazia de pouqinho em pouquinho, sensação horrível. Desisti de fazer xixi e fui deitar com a Cacá na minha cama pra ver se ela dormia e o Cesar foi deitar com o Arthur na cama dele. Ainda falei pro Cesar: Precisamos colocar o lençol de plástico na nossa cama. Era meia noite, deitada com muito sono, senti um estalo na barriga e ouvi um “ploc”. Pensei: Será que é a bolsa? Deve ser uma ruptura alta. E continuei deitada, o sono era muito. Cochilei por alguns minutos. O Cesar chegou no quarto, Cacá tinha dormido, pegou-a e levou-a para a cama dela. Instintivamente coloquei a mão no meu períneo. Estava muito molhado. Pensei, deve ser mesmo um rotura alta. Levantei para ver se tinha molhado o lençol, e tinha uma rodinha com do tamanho de um limão. Chamei o Cesar pra ver, e mal mostrei a rodinha no lençol da cama, muito liquido começou a escorrer pela minha perna, molhando muito o chão. Era a bolsa! Uma sensação de euforia tomou conta de mim. Ao mesmo tempo, um pouco decepcionada. Não queria novamente um trabalho de parto com bolsa rota. Mas enfim, assim como não escolhemos como vai começar um trabalho de parto, também não escolhemos como e onde ele termina.

(continua…..)

 

 

 


sobre Gisele Leal

Sou Bióloga, formada pela Puc Campinas em 1997. Minha primeira filha, Beatriz, nasceu em 1998, e m 2007 nasceu o Arthur ambos de prováveis cesáreas desnecessárias. Em 2010 me vi grávida novamente, e inconformada com a notícia de que teria que agendar minha cesárea. Busquei informações, me preparei, me empoderei e assim, nasceu Catharina de um parto natural maravilhoso após 2 cesáreas, após 42 horas de bolsa rota e com parteira e doula num hospital em São Paulo. A experiência do parto mudou minha vida. Em apenas um mês do nascimento da Catharina escrevi um livro e publiquei o blog Mulheres Empoderadas. Menos de um ano após, larguei carreira de 14 anos na indústria onde eu atuava como gerente de qualidade, e vivia dividida entre as pontes aéreas e viagens internacionais e minha família. Então me capacitei como Doula pela ANDO – Associação Nacional de Doulas em abril de 2011, embora já acompanhasse eventualmente a gestação e parto de amigas e primas desde Outubro/2010, tamanha era a minha vontade de estar nesse meio. Ainda em 2011, inconformada com o modelo de assistência obstétrica no nosso país, reuni doulas, parteiras, mães e simpatizantes do movimento de humanização e juntas fundamos o MAHPS – Movimento de Apoio á Humanização do Parto em Sorocaba, elaborei o projeto Doula Social para ser implementado no SUS e comecei a atuar voluntariamente em um hospital público de Sorocaba. Em apenas 14 meses de MAHPS, idealizei e coordenei a organização de 2 encontros voltados à Humanização do Parto e Nascimento e um Encontro Nacional de Parteria Urbana, além de mais de 22 encontros do grupo de apoio à gestantes. Em 2012 fiz o curso de Formação em Parto Ativo com a Janet Balaskas, inglesa, precursora do conceito Parto Ativo e ingressei no curso de Obstetrícia da USP. Em julho de 2013 nasceu a Sophia, em casa nas mãos do pai, cercada pelos irmãos. Diferente da história da Catharina que foi uma história de empoderamento e superação, o parto de Sophia foi uma história de entrega, fé e aceitação.


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