Capítulo II – Relato de Parto Domiciliar – Gisele e Sophia 3


(Capitulo II)

Você pode ler o capítulo I aqui.

Mandei uma mensagem pra minha doula (que estava viajando e há 3 horas de distância de Campinas) avisando que a bolsa tinha rompido mas que eu não estava em trabalho de parto e que provavelmente ainda iria demorar. Pedi para que ela dormisse pois eu ligaria assim que as contrações começassem. Uma certa ansiedade começou a tomar conta de mim. Não conseguia dormir. Tomei um longo banho quente junto com o maridão, pra relaxar,  e consegui dormir. Acordei cedo, e mandei uma mensagem pras parteiras: “É hoje. Assim que engrenar eu aviso”. Mas não disse que estava com bolsa rota.

Lá pelas 9 da manhã recebi uma mensagem de uma das parteiras: Como vc está? Aí contei que estava com uma contração por  hora, nada demais, mas que  o bebê estava mexendo e o liquido estava claro (esqueci que não tinha contado da bolsa rota, cabeçuda! Deixei as parteiras alertas, e não havia necessidade, pois eu sabia que ia demorar). Marido foi trabalhar,  afinal trabalho de parto mandou lembranças mas não disse quando chegava. Sentia que a história se repetia. Minha doula mandou mensagem dizendo que estava saindo da cidade onde ela estava e viria pra cá  se eu quisesse. Eu disse que queria. Estava ansiosa, queria despachar as crianças, porque eu achava que a agitação delas estava impedindo o trabalho de parto de começar. Liguei pro meu pai, perguntei se eles podiam ficar a tarde lá, porque eu estava cansada e precisava descansar. Combinamos dele passar para pega-los lá pelas 3 da tarde.

A Bia foi uma linda. Organizou a casa, preparou o almoço. Enquanto isso, devido ao meu sumiço do Facebook, chegavam mensagens pelo celular, pelo privado do face, pelo mural, perguntando se eu estava em trabalho de parto. Pessoal, não façam isso! É horríiiiiiiiiiiiivel  a sensação de estar sendo vigiada, monitorada! Sei que quem mandou as mensagens mandou na melhor das vibrações. Mas é péssimo para quem está esperando o trabalho de parto começar. Aumenta a ansiedade.

Arthur ascultandoA minha doula Magê chegou e uma das parteiras que mora mais longe, também chegou.  Auscultou o bebê, deu atenção pras crianças e perguntou: Vamos fazer mocha (ou é môxa??) . Os vizinhos devem ter achado que eu estava fumando um baseado. Ô  treco fedido kkkk.

Resolvi ir pro chuveiro. As contrações pegaram. Mas não eram contrações de trabalho de parto. Embora a parteira e a Magê achassem que eram, eu sabia que não eram. Eram ondas que doíam, eram longas  (quase dois minutos) mas eu não sentia que era trabalho de parto ainda. Era como se eu fabricasse aquelas contrações, como se eu quisesse senti-las. Não sei explicar. Saí do banho e tudo parou. Parou, parou, parou. Pródomos. Nada diferente do que já estava sentindo há 6 semanas. A não ser a bolsa rota.

– Eu disse pra  vocês. Não é trabalho de parto ainda. Já passei por isso. E nem venham com esse papo de caminhar e subir escada. To fora.

Não passou muito tempo a outra parteira chegou.

– Vamos fazer acupuntura?

 Já estava de saco cheio de estar de bolsa rota e nada de trabalho de parto. Contrações chatas, doídas, e sem rítmo. Eu já estava com essas contrações há semanas. Pródomos intermináveis.

“Então vamos lá. Mas não acho que vai funcionar. Não é a hora ainda. Quando for a hora vai pegar e vai nascer. Foi assim com a Catharina. Dois dias de lenga lenga e poucas horas de trabalho de parto”, pensei.  Mas resolvi fazer mesmo assim. Tinha sido perfeito  receber acupuntura quando estava com bolsa rota da Catharina há mais de 30 horas.

E foi assim a segunda-feira inteira. Dia que eu completava 40 semanas pelo 1º. US. 39+3 pela DUM.

Não sei que horas a minha amiga fotógrafa,  Kel, chegou pra fazer fotos. Estava no chuveiro. Tarde da noite chegou a Lu, minha outra doula. Foi excelente.

Fomos pro meu quarto (eu e as duas doulas) pra meditarmos. Fizemos visualização, e aí não é que as contrações começaram a vir fortes? Só rebolando sobre a cama, debruçada na bola. Eu repetia o mantra “eu entrego, eu aceito, eu confio, eu agradeço”. E ao fim de cada repetição  vinha uma onda de contração. Forte, dolorida. Mas ainda não era contração de trabalho de parto.

TP7

Voltei pro chuveiro com o Cesar. Fomos juntos pro chuveiro várias vezes. Ele foi perfeito. Perfeito em todos os momentos. O amo ainda  mais.

Depois chegou a pediatra, minha amiga.

Mas peraí! Quem a chamou???? É cedo ainda! Porque a pediatra está aqui?  Ahh ela é minha amiga, deixa ela aqui. Chegou e trouxe água. Ué? Não tem água em casa? “,  pensei. Nem falei com ela.

Estava cansada….. não tinha sentado, ou deitado praticamente o dia  todo. Meus pés doíam. Queria descansar. Mas no chuveiro as contrações vinham fortes, longas e doloridas. “Então vou  ficar no chuveiro”, pensei. Fiquei por muito tempo, não sei quanto tempo.

–  Magê fala pro meu pai trazer as crianças.

– Gi, as crianças estão dormindo, já é tarde, quando engrenar a gente fala pra ele trazer.

– Eu preciso das crianças aquiiiiiiiiiiii.

Saí do chuveiro, tudo parou de novo.

TP8

– Querem saber? Melhor todo mundo  ir embora. Ahh me deixem em paz. Vão embora. Quero dormir!!! DORMIR!

Pedi que fossem descansar porque iria demorar ainda. Que assim que o trabalho de parto MESMO começasse eu ligaria.

Elas tinham onde descansar aqui em Campinas e foram. A Kelly e a Magê foram dormir na cama das crianças. Deitei com Cesar. A Lu foi dormir no sofá. “Sem parteiras e sem pediatra, por favooooooor”,  pensava.

Quando foram embora e bateram a porta, senti a primeira contração realmente forte de trabalho de parto. A fase latente começava.

(continua…)


sobre Gisele Leal

Sou Bióloga, formada pela Puc Campinas em 1997. Minha primeira filha, Beatriz, nasceu em 1998, e m 2007 nasceu o Arthur ambos de prováveis cesáreas desnecessárias. Em 2010 me vi grávida novamente, e inconformada com a notícia de que teria que agendar minha cesárea. Busquei informações, me preparei, me empoderei e assim, nasceu Catharina de um parto natural maravilhoso após 2 cesáreas, após 42 horas de bolsa rota e com parteira e doula num hospital em São Paulo. A experiência do parto mudou minha vida. Em apenas um mês do nascimento da Catharina escrevi um livro e publiquei o blog Mulheres Empoderadas. Menos de um ano após, larguei carreira de 14 anos na indústria onde eu atuava como gerente de qualidade, e vivia dividida entre as pontes aéreas e viagens internacionais e minha família. Então me capacitei como Doula pela ANDO – Associação Nacional de Doulas em abril de 2011, embora já acompanhasse eventualmente a gestação e parto de amigas e primas desde Outubro/2010, tamanha era a minha vontade de estar nesse meio. Ainda em 2011, inconformada com o modelo de assistência obstétrica no nosso país, reuni doulas, parteiras, mães e simpatizantes do movimento de humanização e juntas fundamos o MAHPS – Movimento de Apoio á Humanização do Parto em Sorocaba, elaborei o projeto Doula Social para ser implementado no SUS e comecei a atuar voluntariamente em um hospital público de Sorocaba. Em apenas 14 meses de MAHPS, idealizei e coordenei a organização de 2 encontros voltados à Humanização do Parto e Nascimento e um Encontro Nacional de Parteria Urbana, além de mais de 22 encontros do grupo de apoio à gestantes. Em 2012 fiz o curso de Formação em Parto Ativo com a Janet Balaskas, inglesa, precursora do conceito Parto Ativo e ingressei no curso de Obstetrícia da USP. Em julho de 2013 nasceu a Sophia, em casa nas mãos do pai, cercada pelos irmãos. Diferente da história da Catharina que foi uma história de empoderamento e superação, o parto de Sophia foi uma história de entrega, fé e aceitação.


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