Será que é? Conheça as fases do trabalho de parto


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Muitas mulheres vão para o hospital antes do franco trabalho de parto (a fase ativa propriamente dita) e acabam numa cesárea por “falta de dilatação”.

As mulheres que são usuárias do SUS, quando vão para o hospital antes da hora, chegam e são orientadas a voltar pra casa, o que gera desconforto e insegurança.

Quando o parto era um evento familiar, as meninas das famílias cresciam vendo e ouvindo as mulheres em seus trabalhos de parto. Era muito comum o parto durar três dias. Quando o parto passou a ser um evento hospitalar, médico, enquadraram todas nós em uma caixinha onde a regra é “dilatar um centímetro por hora”.

No curso de preparação pro parto que eu dou, explico pros casais cada fase do trabalho de parto. Como é. Quais as características principais. Para eles saberem qual o momento de ir pra maternidade ou de chamar a equipe.

Então vamos falar sobre cada fase ?

Obs1: Cada mulher vivencia e sente cada fase do trabalho de parto de forma diferente. Alguns trabalhos de parto são tão rapidos que fica dificil identificar cada fase. A descrição abaixo é o que acontece em geral, mas como sempre dizemos, em parto nada é regra.

OBS2: Caso haja dor intensa e sem intervalo com endurecimento da barriga sem intervalo de relaxamento do útero, sangaramento importante, falta de movimentação fetal após se alimentar, ou ruptura da bolsa com líquido verde é necessário procurar sua equipe ou uma instituição. 

CONTRAÇÃO DE BRAXTON HICKS
São as famosas contrações de treinamento.

  • Podem aparecer desde o 2o trimestre.
  • Normalmente não doem.
  • Normalmente são curtinhas. Duram no máximo 20 segundos.
  • Pode ter várias no dia. 10, 20. Até várias por hora. Quando o bebê está maior e ele se mexe, normalmente vem uma contração de BH.
  • Quando passamos a mão na barriga ou mudamos de posição também.
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Parturiente Marina Kawanishi

CONTRAÇÕES DE PRÓDROMOS
Pródromos são contrações ritimadas, que começam antes do trabalho de parto propriamente dito. São também conhecidos como FALSO TRABALHO DE PARTO.
Algumas mulheres vão ter os pródromos, outras não.
Alguns pródromos começam horas antes do trabalho de parto, outros começam semanas antes.
Prodromos são contrações curtas, de até 35 segundos cada e portanto não fazem alterações no colo do útero. Ou seja, não adianta ir ao médico pra ver se está dilatando.
Não adianta ir pro hospital se vc estiver em pródromos. A maioria das mulheres que chegam no hospital com contrações de pródromos ouve do medico de convenio: “hum… vc está com contração mas não tem dilatação, então vamos operar”.
do médico do SUS: “não está na hora ainda, volte pra casa e só volte aqui quando estiver com contração de 5 em 5 minutos”.
Uma mulher em pródromos consegue COMER, BEBER, CONVERSAR e até DORMIR. Mas o que pega nessa fase é a ansiedade.

CONTRAÇÕES NO ÍNICIO DO TRABALHO DE PARTO.
FASE LATENTE DO TRABALHO DE PARTO

A fase latente do trabalho de parto é o início do trabalho de parto. Se caracteriza por:

  • Contrações que duram de 45-55 segundos (há controversias eu sei rs)
  • Intervalo entre uma contração e outra igual ou superior a 5 minutos
  • A mulher consegue comer, beber, conversar, até dormir entre as contrações.
  • O humor é bom. Em geral a mulher conversa, ri, diz que tá doendo, mas está de boa rs

O que fazer durante a fase latente?TP carol TBB

  • Procure tomar um banho longo. 65 minutos. Não se preocupe com a crise hídrica. É o dia do seu parto hohoho.
  • Namorar faz bem ;se estiver com bolsa rota não é recomendada penetração vaginal.
  • Vida normal. Não fique pensando que está em trabalho de parto, pq isso só gera ansiedade. Vá ao cinema, vá à sorveteria, descanse, curta os ultimos dias/horas de barriga
  • Se vc tem uma doula, mande uma mensagem contando que as contrações começaram. Mas procure curtir essa fase, que em geral é tranquila, em casa com o companheiro/companheira.
  • Aproveite para se alimentar e se hidratar. Vc e seu bebê precisam de energia.
  • Prefira alimentos leves, ricos em carboidrato. Frutas com mel são excelente para todo trabalho de parto.

Em geral, FASE LATENTE NÃO DILATA. Trabalha o colo. Afina. Centraliza. Apaga. Mas a dilatação mesmo, em geral só na fase ativa.

CONTRAÇÕES DO TRABALHO DE PARTO
FASE ATIVA DO TRABALHO DE PARTO

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Parturiente Marina Kawanishi, companheiro Ricardo Cioldin e doula Gisele Leal

A fase ativa é a fase que podemos considerar realmente como trabalho de parto. É a fase em que as contrações ficam mais intensas, e conforme relato das mulheres mais doloridas. Esse é o momento ideal da Doula estar com a parturiente. Não só a Doula, mas alguém para monitorar o bem-estar fetal também. A Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde recomendam avaliação dos batimentos cardíacos fetais durante toda a fase ativa.
Se o plano é que o parto seja domiciliar, é recomendável que a equipe técnica contratada (parteira ou obstetra) esteja no local. Se o plano de parto é hospitalar, esse é o momento em que a parturiente deve ir para a maternidade para ser monitorada.  Caso seja hospitalar, mas a parturiente tenha contratado uma obstetriz ou enfermeira obstétrica para acompanhar a evolução do trabalho de parto em casa, esse é o momento que essa profissional deve estar junto com mulher, além da Doula.  Na maioria das mulheres a dilatação vai começar a avançar nesta fase. Então, se for possível, o ideal é  ter uma obstetriz para aguardar a dilatação evoluir um pouco em casa com acompanhamento e asculta dos batimentos cardíacos do bebê.

Na fase ativa, a liberação de ocitocina pelo cérebro é ritmada e constante. Cada injeção de ocitocina liberada pelo cérebro dá início a uma ONDA, mais conhecida como contração.
A onda começa de forma leve, avisa que está chegando e progressivamente vai tomando força, intensidade, até atingir um ápice. Nesse momento a você não conseguirá mais se comunicar.

Características da fase ativa, o “franco trabalho de parto” (desde que a mulher tenha liberdade para vivenciar esse processo):

  • Contrações frequentes, presentes e ritmadas, com intervalos igual ou inferiores a 3 minutos entre cada contração;.

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    Parturiente Carol Toniatti, doula Gisele Leal

  • Contrações com duração de 60” a 90”;
  • Bolsa pode estar íntegra ou pode ter rompido;
  • Pode haver perda de tampão mucoso. Pode haver perda de sangue em pequena quantidade (sangramento do colo do útero devido à dilatação);
  • Contrações não param e não perdem regularidade se a parturiente tomar um banho ou descansar
  • A parturiente já não consegue conversar entre as contrações e, em geral, geme, reclama, vocaliza durante as contrações;
  • Em geral irá abaixar-se, procurando apoio em uma cama, cadeira ou parede durante a contração. Algumas rebolam ou acocoram instintivamente;
  • Quanto mais a fase ativa avança, maior o tempo em que os seus olhos permanecem fechados e a boca aberta, relaxada;
  • A face fica relaxada entre as contrações;
  • A parturiente já não conseguirá comer nem beber. Em geral o humor já não é tão bom

FASE DE TRANSIÇÃO
FINAL DA DILATAÇÃO, QUANDO O BEBÊ SE INSINUA NA PELVE

O período de dilatação é semelhante a escalar uma grande montanha: depois de subir bastante, no final de uma porção íngreme, você se depara com uma parede rochosa que tem que transpor para alcançar o topo. (É aqui que começa a fase de transição – observação da blogueira :) ) Embora você esteja mais perto do que nunca, pode perder a noção dessa relatividade e se desesperar, consumindo-se na batalha contra essas ultimas e penosas contrações”. Janet Balaskas, descrevendo o período de transição em seu livro Parto Ativo.

Características da fase de transição, o “franco trabalho de parto” (desde que a mulher tenha liberdade para vivenciar esse processo).

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    Parturiente Carol Toniatti, doula Gisele Leal

    Contrações frequentes, presentes e ritmadas, com intervalos mínimos. Parecem estar grudadas uma na outra. Contrações com duração aproximada de 90”;

  • Bolsa pode estar íntegra ou pode ter rompido;
  • Pode haver perda de tampão mucoso. Pode haver perda de sangue em pequena quantidade (sangramento do colo do útero devido à dilatação);
  • Contrações não param e não perdem regularidade se a parturiente tomar um banho ou descansar;
  • A mulher já não conseguirá conversar entre as contrações e, em geral, geme, reclama, vocaliza durante as contrações;
  • Em geral, a mulher irá parar, abaixar-se, procurando apoio em uma cama, cadeira ou parede durante a contração. Algumas rebolam ou acocoram instintivamente;
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Parturiente: Roseane Domingues

Nessa fase, muitas parturientes ficam confusas, às vezes perdem a noção do que está acontecendo e se desesperam. Nessa fase, a Doula é muito importante pois irá manter a parturiente conectada irá lhe dizer o quanto ela está indo muito bem e que logo essa fase difícil irá acabar. A transição é a fase mais difícil, mas é curta também;

Nessa fase a mulher já não conseguirá comer nem beber. Em geral, o humor é ruim. Muitas parturientes brigam nessa fase. Ficam bravas, gritam, choram;

Pode ser que nessa fase comece sentir vontade de fazer força, mas talvez ficará na dúvida se deve fazer;

O humor pode mudar de um momento para o outro. De muito brava, irritada, assustada para uma euforia repentina;

Algumas mulheres começam a tremer, relatam cabeça quente e pés frios. A Doula nesse momento pode te acolher e lembrá-la que logo essa fase irá terminar;

Janet Balakas descreve perfeitamente esse finalzinho em seu livro Parto Ativo: “Algumas mulheres parecem entrar em estado de transe nesse momento, um estado de consciência profundo e desligado do mundo”. Nós aqui no Brasil chamamos esse momento de partolândia :)

Muitas parturientes sentem sede nesse período. Como esse período é o que antecede o período expulsivo, em que a parturiente precisará de muita energia, a Doula pode oferecer um suco adoçado, um saquinho de mel para, ou qualquer coisa que em pequena quantidade levante a disposição e energia da parturiente.

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Parturiente: Roseane Domingues

PERÍODO EXPULSIVO
O NASCIMENTO SE APROXIMA

Ao fim do processo de dilatação, em geral, a dor parece dar uma trégua. As contrações podem continuar ou pode haver uma pausa de alguns minutos a algumas horas. Janet Balaskas diz em suas palestras que esse é o momento de descansar para recuperar a energia. Não há regra. Algumas mulheres nem percebem esse momento. Após um laborioso processo em que o gasto de energia foi intenso, agora é hora de recuperá-la para que a 2ª fase comece. A descida do bebê pelo canal de parto. As contrações são diferentes; são mais espaçadas. Acabou aquela fase de uma contração atrás da doutra. E junto com a contração a mulher começa a sentir uma vontade intensa de empurrar. De fazer força. Muitas relatam que querem fazer cocô, mas na verdade é só o bebê descendo e pressionando o intestino.
Se o parto for domiciliar, nesse momento que a mulher estiver, em geral, mais tranquila, com o companheiro dando o apoio necessário e a equipe obstétrica fazendo a avaliação do bebê com mais frequência, a Doula pode organizar e ambientar o espaço onde acontecerá o parto além de oferecer água, baixar a luz. Pode também colocar um óleo aromatizador no ambiente, ter um leque à mão. Muitas mulheres sentem muito calor nessa fase. Se a mulher escolheu alguma música especial para o nascimento, a Doula pode colocar. Alguns expulsivos são incrivelmente rápidos. Lembre-se sempre: Não há regras! Cada parto é único. Assim como há partos cujo expulsivo levou 15 minutos, há partos com expulsivo de várias horas. Enquanto mãe e bebê estão bem, a equipe obstétrica pode optar por adotar uma postura expectante sem intervir. Se a mulher manifestou interesse em assistir o nascimento do bebê pelo espelho, a equipe irá posicioná-lo. No expulsivo, normalmente é necessário um apoio para cócoras, mesmo que a mulher esteja no banquinho de apoio. Em geral, ou o companheiro ou a Doula ficam atrás da parturiente dando esse apoio. Se seu companheiro assumir essa posição, a Doula pode filmar ou tirar fotos. Nesse período, o ideal é que haja o máximo de silêncio por parte de todos. A mulher saberá o que fazer, como respirar, saberá relaxar, saberá empurrar.

DEQUITAÇÃO DA PLACENTA

Niguém conta que o parto não acaba quando o bebê nasce não é?

Depois que o bebê nasce, ainda tem que nascer a placenta. E como a placenta nasce? Com contração!

Por isso é importante manter o “clima” do parto depois que o bebê nasce. Para que a mulher continue liberando ocitocina e com isso haja contrações espontâneas para a dequitação da placenta.

Não sei dizer para vocês quais as caractéristicas dessa fase, porque variam muito, de parto para parto. Mas haverão algumas contrações, cólica, e normalmente a equipe orienta a mulher a fazer uma forcinha para que o processo termine.

A saída da placenta é suave, ela é molinha, quentinha e não dói 😀

É importante não puxar a placenta, para que não fique restos placentários dentro.

No manual do Ministério da Saúde “Além da Sobrevivência: Práticas integradas de atenção ao parto, benéficas para a nutrição e a saúde de mães e crianças” encontramos as seguintes recomendações para o 3o período:

Quadro 1: “Manejo ativo do terceiro período do parto para a prevenção da hemorragia pós-parto A hemorragia pós-parto é a maior causa de mortalidade materna no mundo. Representa 25% de todas as mortes maternas, e a atonia uterina é sua causa mais comum. Estima-se que, no mundo todo, ocorram 14 milhões de casos de hemorragia pós-parto ao ano. O manejo ativo do terceiro período do parto (segundo as recomendações prévias) reduziu em 60% a incidência de hemorragia pós-parto causada pela atonia uterina, a incidência de hemorragia pós-parto de um litro ou mais e a necessidade de transfusões de alto custo e risco, e evitou complicações relacionadas à hemorragia pós-parto. Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem revisado suas recomendações para o manejo ativo, que inclui o clampeamento tardio do cordão umbilical, substituindo o clampeamento imediato. Considerando que jamais se tenha comprovado que o momento do clampeamento do cordão tenha efeito na hemorragia materna e, pelo contrário, que exista evidência de que uma placenta menos distendida é mais facilmente eliminada, não se espera que essa troca afete a eficácia do manejo ativo na prevenção da hemorragia pós-parto. No entanto, a eficácia do protocolo revisado deve ser formalmente avaliada. De acordo com a recomendação atual, o manejo ativo inclui três passos que devem ser aplicados por um profissional qualificado: 1. Administração de medicamento uterotônico (ex. 10 UI de ocitocina intra-muscular) logo após o parto, para evitar atonia uterina. 2. Clampeamento tardio do cordão, corte do mesmo e expulsão da placenta por meio de tração controlada do cordão: depois de pinçar e cortar o cordão umbilical, mantém-se uma tração leve do cordão até que se apresente uma contração uterina forte. Muito suavemente, puxa-se o cordão para baixo ao mesmo tempo em que se estabiliza o útero, exercendo uma contração com a outra mão colocada sobre o osso pubiano da mãe. 3. Massagem uterina, realizada imediatamente após a expulsão da placenta e a cada 15 minutos durante as primeiras duas horas.”

Espero que essas informações sejam uteis para que mulheres procurem o hospital ou a equipe na fase ativa do trabalho de parto, e assim aumentem suas chances de ter um parto normal, ao invés de uma cesárea por “falta de dilatação”.

 

 


sobre Gisele Leal

Sou Bióloga, formada pela Puc Campinas em 1997. Minha primeira filha, Beatriz, nasceu em 1998, e m 2007 nasceu o Arthur ambos de prováveis cesáreas desnecessárias. Em 2010 me vi grávida novamente, e inconformada com a notícia de que teria que agendar minha cesárea. Busquei informações, me preparei, me empoderei e assim, nasceu Catharina de um parto natural maravilhoso após 2 cesáreas, após 42 horas de bolsa rota e com parteira e doula num hospital em São Paulo. A experiência do parto mudou minha vida. Em apenas um mês do nascimento da Catharina escrevi um livro e publiquei o blog Mulheres Empoderadas. Menos de um ano após, larguei carreira de 14 anos na indústria onde eu atuava como gerente de qualidade, e vivia dividida entre as pontes aéreas e viagens internacionais e minha família. Então me capacitei como Doula pela ANDO – Associação Nacional de Doulas em abril de 2011, embora já acompanhasse eventualmente a gestação e parto de amigas e primas desde Outubro/2010, tamanha era a minha vontade de estar nesse meio. Ainda em 2011, inconformada com o modelo de assistência obstétrica no nosso país, reuni doulas, parteiras, mães e simpatizantes do movimento de humanização e juntas fundamos o MAHPS – Movimento de Apoio á Humanização do Parto em Sorocaba, elaborei o projeto Doula Social para ser implementado no SUS e comecei a atuar voluntariamente em um hospital público de Sorocaba. Em apenas 14 meses de MAHPS, idealizei e coordenei a organização de 2 encontros voltados à Humanização do Parto e Nascimento e um Encontro Nacional de Parteria Urbana, além de mais de 22 encontros do grupo de apoio à gestantes. Em 2012 fiz o curso de Formação em Parto Ativo com a Janet Balaskas, inglesa, precursora do conceito Parto Ativo e ingressei no curso de Obstetrícia da USP. Em julho de 2013 nasceu a Sophia, em casa nas mãos do pai, cercada pelos irmãos. Diferente da história da Catharina que foi uma história de empoderamento e superação, o parto de Sophia foi uma história de entrega, fé e aceitação.

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