5
out
2016

A arte do nascer

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Carta a Theo

Theo, essa é a primeira carta que te escrevo. Essa não é uma carta como aquelas que o Van Gogh escrevia para seu irmão Theo contando suas agruras. Seu nome é inspirado na reunião de cartas que ele enviou ao longo da vida ao irmão. Cartas a Theo aqui é desejo de boas vindas, é uma forma de te contar a minha versão sobre sua chegada ao lado de cá da vida.

Como o quadro La nuit étoilée do Van Gogh, você também chegou numa noite estrelada de 15 de julho, na 4ª lua crescente, exatamente a 10ª lua após da sua concepção. Os mais antigos contavam as luas filho e eu passei a faze-lo sem muita crença de que eles eram tão sábios.

Os céus estavam nesse dia conspirando a nosso favor e você começou a me dizer isso enquanto eu almoçava com sua avó e sua tia. Apesar de ter acordado perdendo tampão mucoso, não acreditava ainda que aquilo era um sinal de que você já desejava chegar.

Vinha mantendo nossa rotina de hidro, passeios com as cachorras e estava muito tranquila acreditando que você ainda esperaria mais uma ou duas semanas. Não quis alerta-las que você já dava sinais de vinda. Voltei pra casa, fiz as unhas e esperei para saber se aquele líquido que gotejava lentamente era realmente uma bolsa rota.

No processo da sua espera sempre acreditei que o parto seria muito orgânico e que juntos faríamos um ritual de passagem. Eu e seu pai estudamos e nos preparamos muito teórica e psicologicamente para essa chegada orgânica e natural. No país das cesarianas eletivas queríamos muito que você escolhesse o dia e a hora da sua chegada. Respeitar o seu tempo era nosso lema e assim o fizemos.

Liguei para Kalu e Miriam, nossas guardiãs durante a gestação. Depois das unhas feitas, resolvi perguntar pra Kalu, nossa doula se aquele líquido que gotejava lentamente junto com o tampão era normal. No meu imaginário bolsa estourada deveria ser sinal de muito líquido. Já havia enchido três absorventes em três horas e já duvidava que aquilo era só o tampão mucoso. Kalu logo suspeitou da bolsa rota e ligamos para a Miriam, nossa EO querida que te auscultou e nos cuidou durante toda a gestação.

Miriam disse que sem contrações poderíamos ficar em casa até 8h corridas de bolsa rota. E assim o fizemos. Seu pai chegou, sua avó voltou para cuidar das cachorras e às 19h30 partimos para o Hospital Sofia Feldman. O Sofia, filho, é ainda um dos poucos hospitais nesse país que respeitam o processo de parto da forma mais orgânica e natural. Isso é muito raro no nosso país. Sorte a nossa morarmos em BH.

Sorte a nossa que tivemos Kalu e Miriam na retaguarda nos cuidando. Miriam ligou pouco antes de partirmos para o Sofia me alertando que me preparasse para as possíveis intervenções (antibiótico, miso e ocitocina) já que não havia nada de contrações e já haviam se passado quase 8h de bolsa rota.
No Sofia passamos pela triagem depois das 21h com 3 cm de dilatação e nada de contrações ainda. Fomos para o pré-parto e durante o seu eletro as contrações começaram a aparecer lentamente. Logo as enfermeiras perceberam que não precisaríamos de nenhuma intervenção. Você mandou os sinais e meu corpo funcionou. Lindo isso não é! Esperamos e trabalhamos juntos. Já era quase 23h e eu e seu pai fomos para o chuveiro aliviar as primeiras contrações que chegavam.

Em cima de uma bola seu pai massageava minhas costas e a água aliviava as primeiras dores. Aos poucos sentíamos sua chegada. Naquele momento ligamos para Kalu, pois as contrações avançavam rapidamente. As enfermeiras, observando esse avanço, fizeram o segundo exame de toque de toda nossa gestação e já estávamos com 5 cm.

É filho, as mulheres no nosso país ainda são violadas com exames de toque desnecessários. Elas sofrem violência obstétrica de forma recorrente, sentem dores e a maioria dos médicos as faz acreditar que esse é um processo normal.

A fase latente do trabalho de parto tinha sido indolor. Já estávamos em trabalho de parto ativo e ficamos eufóricos com a evolução. A única intervenção que precisamos foi uma dose de antibiótico por conta da bolsa rota e do resultado de strepto positivo. Em TP ativo e com as contrações avançando fomos para uma sala de PPP. Chegando lá minha decepção; a sala que nos deram não tinha banheira. Tudo bem, eu pensei. Tendo chuveiro e muita água é o que interessa. Ali ficamos com a água caindo sobre meu dorso até a chegada da Kalu.

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Kalu chegou e suas massagens, sua sensibilidade e o perfume que exalava do óleo que acalentava meu dorso trouxeram confiança, ternura e alívio para as contrações que iam e vinham. Foi ela que me lembrava de respirar, que nos trocava de posição, que segurou minha mão junto ao seu pai durante esse processo. Ficamos ali entre a bola em cima da cama de quatro e o chuveiro durante 4h, à meia luz numa madrugada estrelada como o quadro do Van Gogh.

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Tive vontade de me dependurar nos ganchos bem do alto do chuveiro, tive vontade de não sair do chuveiro, de dormir profundamente entre uma contração e outra em cima da bola, de ouvir nossas músicas da playlist preparada, de tomar muita água e em todas essas vontades fui respeitada.

Não se engane que foi tudo tão tranquilo meu filho. Também tive vontade de tomar anestesia. Muita vontade. Por sorte a nossa já estávamos com 10 cm de dilatação e você mais que pronto pra chegada.

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Kalu e Aline, a EO que nos assistiu me convenceram que você nasceria bem rápido com aquele quadro e assim foi. Os 10 cm de dilatação arrancaram um sorriso imenso do rosto do seu pai e a minha certeza de que faltava muito pouco.

Quando chegamos aos 10 cm fui perguntada aonde queria parir. Queria chuveiro, água, muita água sobre meu corpo. Sentei na banqueta de parto e debaixo do chuveiro fui encorajada por essas mulheres de que você estava bem perto a cada contração.

De mãos dadas com seu pai e com a água que banhava meu corpo como que nos abençoasse, você chegou 20 minutos depois, à meia luz, às 04h04 num 15 de julho estrelado. Nascia ali um canceriano e, como se o mundo tornasse a começar, nascia também uma nova família, esperançosa de que o mundo pudesse se tornar melhor com a sua presença.

Bem vindo a esse mundo meu filho! Ele certamente será melhor porque você chegou.

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Da sua mãe,
Priscilla

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